2 de dezembro de 2010

Nossa maldade egocêntrica

por Zé Luís

Uma das coisas mais terríveis de se ver em discípulos é a certeza de que os atuais valores da Caminhada são imutáveis. Aquele tipo de gente que bate no peito e que garante que alcançaram um Status Quo definitivo em todas as áreas de sua existência

Se este ser encontrasse a “iluminação” (sim, é assim que alguns apresentam sua conversão: não como algo gradativo, como o dia que raia até a iluminação do meio-dia, mas como uma mágica que isenta o homem do gradativo aprendizado) ainda na tenra infância, ele iria pregar a todos as vantagens da farinha láctea, os perigos do uso das fraldas descartáveis de qualidade duvidosa ou a total desnecessidade da vida sexual nos seres humanos.

São como o sincero Pedro, esbravejando aos ventos sua fidelidade quanto servo, amigo e discípulo. Declaram sua alegria e plenitude em relação ao Caminho que escolheu, mas abafa em sua alma tantas carências não curada, sem perceber o quanto difere do plano inicial do Pai, quando o chamou para ser um ser humano mais maduro, profundo, coeso, apesar dos novos critérios que a vida oferece para que juntem em sua experiência de vida.

Como podem garantir que estão livres das tribulações nas próprias almas? Não falo aqui sobre tragédias que fazem parte da vida: mortes, doenças, acidentes, frustrações, as grandes perdas em geral

Digo sobre nossa vilania, nossa maldade pessoal, nossa falta de confissão. Em resumo, aquela parte que não gostamos de admitir ser possível, nossa maldade egocêntrica.

Gostamos de imaginar-nos sempre naquele torpor dos primeiros dias de caminhada em Cristo, quando estamos pela primeira vez lidando com o Espírito mais limpo do universo, e naquela alegria, garantimos nossa fidelidade à Deus e aos amigos, prometemos que as alianças estão garantidas, e que nunca mais andaremos em lugares escorregadios.

Sempre perdoaremos, e as decepções não nos farão amargos nem mesquinhos. Nem imaginamos que as coisas que teremos que perdoar são imperdoáveis, e que estamos prontos para sermos vítimas, mas jamais admitir que uma criatura tão boa, remida pelo Sangue, limpa pelo sacrifício do Cordeiro, seja dado a maldades.

Desconfie de gente que garante que nunca falhou com as pessoas a sua volta, que nunca pisou em falso com as pessoas que confiavam nele, de gente que garante ser sempre sincera e verdadeira.

Esse tipo de gente dispensa o sangue de Cristo: são tão autossuficientes que Jesus não precisaria ter morrido por ele. Só alguns conselhos e repreensões teriam sido suficientes. Com o tempo, percebem que dentro deste método, precisarão de muitos e muitos conselhos para deixar a ação do Espírito desnecessária, e tornando o fardo gradativamente insuportável.

Não estranhe se os encontrarem dia desses com o rosto inchado por lágrimas, ao serem flagrados pelo Cristo bem quando o negava, descobrir que abandonaram seus ministérios e voltaram a pescaria, que se tornaram mais céticos que os fariseus que o condenaram: não acredita mais no testemunho da mulher que o viu ressurreto, mesmo sabendo que ela não é dada à mentiras.

Não se preocupe: é comum que o próprio Mestre surja na vida destas pessoas, chame-os de volta para comer peixes, repita milagres, que fale em sua intimidade e o recoloque no Caminho que Ele planejou.

Quanto àqueles seres humanos comuns, que confessam a fé, apesar de reconhecer seu espinho na carne, não se indigne pelo filho que volta e toda a atenção dada: ele é você, ou poderia ser...