31 de dezembro de 2010

Prejuízos

por Zé Luís

Junto a mais pura das águas, colocou-se pitadas de amargura. Acharam por bem deixar as águas puras e claras, gratuitas e vitais, não tão saborosas e desejáveis. E nós, aos poucos, fomos aceitando cada imbecilidade discretamente infiltrada como isso pudesse ser bom de alguma forma.

Alguém concluiu que a imensa felicidade, aquela paz toda que está acima de qualquer compreensão, precisava ser adaptada a amargura na qual vive-se a vida inteira, e nunca conseguiu se libertar. Imposições do que imagina-se ser respeitável (cabelos, roupas, trejeitos).

Outros, vendo que isso era um procedimento padrão, achou por bem readaptar mais um pouco, incluindo compreensões particulares - ou de grupos - consagradamente reconhecidos. Fizeram disso sua forma engessada de enxergar o que era simples.

A todos, a pequena pitada de fermento, aparentemente inofensiva e usual, era aceita por muitos. Nem notaram que toda a miséria humana estava inserida neles de forma discreta, aceitável, com seu pútrido cheiro disfarçado entre a promessa de um jardim cheiroso.

Não falo da sexualidade. Nisso, aprenderam a abafar, disfarçar, ignorar, embora creiam por tradição, que estes são os piores pecados, ignorando a soberba, a mentira, o orgulho, a cobiça.

Falo da inserção maligna de manias e tradições, aparentemente inofensivas, transformando gradativamente o sadio e belo em doentio e repugnante.

As gueixas faziam crescer seus pés dentro de sapatos de madeira por existir naquela cultura o interesse sexual dos homens por mulheres de pés pequenos. O resultado é a atrofia, a distorção do que poderia ser um membro sadio do corpo.

Absurdo? Nossa cultura aponta para as academias e clínicas de estética, mostrando para onde devemos nos dirigir para ter as partes atraentes mais destacadas. Inserimos em nosso corpo proteses plásticas, dietas agressivas, rasgamos nossos corpos em busca da aparencia que caiba nos atuais sapatos de madeira.

E a igreja? O meio insiste, de tempos em tempos, em manter-nos nesses sapatos, quando o que ansiamos é apenas aprisco, grama simples e verdejante, água límpida. Aos poucos, vão docilmente afastando-nos da voz que reconhecemos, amamos e vamos esquecendo, confundidos pela avalanche de tantas explicações sobre o Amor que é Ele, até que não se acha mais Amor, apenas a Lei que ele foi superior, mas que nos condena.

Por isso, dentro de muitos de nós há um grito clamando por reforma, em voltar ao primeiro amor, de ser igreja primitiva. As tolices que nos afastaram do Mestre não são suficientes para matar a sede pelas águas que provém Dele.