9 de dezembro de 2010

A vítima, o travesti e a mentira

por Zé Luís

Dia desses, ouvia sobre um programa dominical. Nele, um detector de mentiras era acionado enquanto alguma celebridade – instantânea ou não – era sabatinada pela apresentadora, e a cada mentira detectada, parte dos iniciais R$20.000,00 doados a pessoa era descontada.

Geyse Arruda, “vitimada” num evento registrado na faculdade UNIBAN em São Bernardo do Campo teve que enfrentar o tal detector de mentiras, onde a entrevistadora, Ana Hickman, munida de mais dois inquisidores bombardeavam-na com uma série de questões relacionadas a sua índole, seu interesse pelo dinheiro – e não por justiça ou retratação de danos “morais” como alegava seus advogados quando processaram a faculdade pelo ocorrido ( algumas testemunhas do evento contam que ela não apenas usava seu vestidinho vermelho curtíssimo, mas dispensou o uso de peças íntimas enquanto andava pelos corredores dos andares superiores do patio, onde alguns alunos, que voltavam dos barezinhos que lotam as caçadas da frente, se excediam em sua comemoração, até que a situação perdeu o controle, e força policial foi chamada para escoltá-la.

A mídia, de posse de um vídeo feito por celular, colocou em todos os jornais a atitude “machista” contra quem só queria andar com um vestido mais curto.

Geyse Arruda, que sabia intimamente tudo o que ia em suas intenções, perdeu muito dinheiro no tal jogo, pois mentia descaradamente sobre isso, tentando driblar o detector de mentiras quando garantia que a real intenção das ações judiciais eram morais, e não financeiras.

A vítima mostrou suas garras, e perdeu muito do que amava – dinheiro – por suas mentiras, diante de milhares de pessoas que viam ali a grande manipulação na qual a informação fora dada.

Semanas seguintes, Nany People, conhecido travesti, entrou na mesma sabatina, com perguntas mais cruéis, sobre agressão familiar, abusos sexuais sofridos, seu nome masculino, as cantadas de heterossexuais – gente casada e com filhos – que levou mas se recusou a revelar nomes, mesmo que descontasse parte de seu dinheiro. Fiz questão de parar para assistir.

Foi a primeira vez que alguém conseguiu sair com vinte mil reais limpos, sem uma mentira.
Fiquei ali, assistindo aquilo, embasbacado e arrepiado, ao pensar que jamais me submeteria àquele detector de mentiras (ainda mais diante de milhares de telespectadores, vendo o entrevistado mostrar sua verdadeira e despida alma) e envergonhado ao perceber que um gay assumido não escondeu nenhum de suas dores, seus pecados, seus vexames.

Ali, entendi por que Jesus disse que o céu seria primeiro de prostitutas e ladrões: estes possuem plena consciência de seus erros, sem a falsa ilusão de que são suficientemente bons. O pecado da mentira hipócrita não vai neles. Sabem que precisam do Mestre, e Ele, quando vier, não encontrará resistência nestas vidas. Encontrará um olhar implorando por resgate, e porta aberta para o agir do Santo.

Nesse meio cristão, existe pavor em se falar da vida íntima abertamente, já que omitir nossas fraquezas, vícios, mesquinhez, hipocrisia, soberba e tantas coisas que nos envenenam gradativamente, é “necessário” em um ambiente onde se presa o santo e o correto(dentro dos padrões estabelecidos pela tal comunidade).

Temos muito ainda que aprender, e a sinceridade com nossa vida pode ser uma aula que os travestis podem nos ensinar, por mais incomodo que possa ser.

Duro foi ter que dormir com mais essa. Acredite.