2 de janeiro de 2011

O medo de aceitar a Cristo

Nas necrópoles de Roma, os primeiros cristãos celebravam a vinda do Mestre

por Zé Luís

A sensação de que algo faltou quando eles se afastaram do que é chamado igreja, é sempre a mesma. Na verdade é uma pergunta: o que viram e não existe mais, a ponto de todo o resto não fazer mais sentido?

O que falta é simples e óbvio. Se pudêssemos, Ele certamente diria em pessoa e não daríamos ouvidos: ”Ele só repete o que sempre ouvimos, os mesmos versículos, a mesma ladainha...”.

Na teoria, a junção de duas ou três pessoas em volta de um assunto em específico seria capaz de mudar o mundo, mas diante do que sobra desta promessa prática, os olhos seguem cada vez mais incrédulos.

Um dia, deparei-me com uma de Suas velhas verdades, de forma prática, que reluzia entre os versículos como uma pepita enorme e preciosa, brilhando entre bijuterias. Perguntei:

-Se eu aceitar o que me propõe, posso ser traído? Minha total entrega pode sofrer ingratidão?
-Sim... - respondeu em sua postura rígida e irredutível.
-Mas terei tudo que o mundo pode me dar se aceitar sua proposição.
-Não. Essa nunca foi a proposta.

Gelei. De que adianta deixar que “aquilo” me domine se não posso nem ter ou ser mais que os outros?

-O Senhor está me propondo que eu ame aleatoriamente sem que possa obrigatoriamente ser correspondido? Amar de forma profunda, correndo riscos de me decepcionar, iludir, sofrer? Esperar tudo sem a certeza de que conseguirei retorno? Com todo respeito, Mestre: quem seria idiota o suficiente?
-Eu... minha essência é isso. Eu colocarei esse “diferenciado” amor em teu peito, para que então, através de você e teus irmãos, se propague e o Caminho seja mais nítido aos que iniciam a jornada.

Constrangi-me, baixei meu semblante. Não havia me apercebido de estar falando tamanha imbecilidade com o Criador de Universos.

-Aceita-me como seu único e suficiente Salvador? - disse Ele, indiferente a minha ofensa.

Eu estava diante de um apelo, o mesmo que ouvi um dia, em um culto quando ergui minha mão no meio daqueles que ali congregavam. Por que me perguntava isso? Eu já o havia aceito.
-Claro que sim... - disse Ele – sabendo o que eu pensava. Certamente, se autointitula cristão por ter aceito um apelo publicamente, mas se quer parecer com Cristo (esse era o motivo para que começassem a chamarem de cristãos) só esse amor é suficiente.
-Amor?
-Não banalize esse “amor” do qual Sou feito. Não falo de erotismo, nem da satisfação em ter algo. Certamente, falo de algo intraduzível em sua esfera, mas que qualquer um que EU chame de cristão sabe o que é: este certamente saberá compartilhar isso, se alimentará desta força de forma – muitas vezes – sobrenatural, jamais substituirá esse ardente estado de espírito – que supera qualquer paixão – por todo o dinheiro do mundo. Você jamais será um cristão, por mais que se declare como tal, se não provar disso.
-Mas e se eu sofrer? Se for maltratado? Machucado? Aproveitarem disso para me ridicularizar? Ser usado? Não quero ser tratado como idiota...por favor...

Jesus se calou (sim, era Ele o tempo todo). Imbecilmente, esperava que Ele retrucasse um argumento, um mérito, um prêmio, uma barganha qualquer que me convencesse a aceitar logo sua proposta. Queria garantias Dele. O que eu esperava? Que Deus implorasse por minha decisão?”Aceita-me...por favor? Vai ser bom prá você! Bem melhor que as outras opções de mercado...”

O Amor em si reserva todo o segredo necessário para se ganhar o mundo, a ponto de só querermos estar com pessoas que irradiam esse amor, mesmos que fosse em cemitérios subterrâneos ou em torturas das mais perversas.

Não vai aqui nenhuma novidade. Esse amor é citado o tempo todo, o esfriamento Dele vivido nestes tempos só revela que estamos perto do fim. Paulo dizia que sem este amor, seriamos ocos, sinos sem alma que dobram mas nada dizem. Jesus entrega-se por que esse amor exige isso, e tudo no mundo não é páreo para o deter.

Deus é amor, e se Ele tem parte em mim, seu Espirito habita em mim, fazendo-me sua morada.