24 de abril de 2011

A necessidade das obras

por Zé Luís

Se Lutero pudesse, teria tirado o livro de Tiago da bíblia: as informações contidas ali pareciam ser incompatíveis com a a Graça Soberana que ele defendeu em sua reforma.

Lutero defendia que nem todos os pecados do mundo poderiam anular o poder salvador de Jesus Cristo, mas se os pecados não anulavam a graça, como a falta de obras poderia?

“Não sois salvos pelas obras, mas pela fé...”- disse Paulo, apóstolo dos gentios.

Conversando com colegas de trabalho, espíritas e testemunhas de Jeová, percebi que a ideia da Graça é repugnante: um mundo onde todos podem receber gratuitamente coisas de Deus sem necessariamente fazer por merecer, um qualquer sem formação ou berço pode ser salvo apenas por que Deus disse: é salvo.

O testemunha de Jeová defendia a fabilidade da tradução atual da bíblia e que os católicos haviam mudado o sentido original. Onde se lê Deus, entenda-se Jeová, tudo a partir da compreensão do fundador Charles Taze Russel, maçom assumido. Quis entrar na discussão, questionando uma série de falhas nas crenças deste grupo, mas infelizmente o sujeito luta jiu-jitsu, e não convém aborrecer esse tipo de fiel, ainda mais quando eu não sei nada sobre defesa contra isso.

O espírita defendia algo do gênero, informando que algo não pode ser sagrado, se escrito por simples homens, não cabendo ser levado tão a sério. Em contrapartida, o Evangelho segundo o Espiritismo, de Hyppolyte Leon Denizard Rivail, verdadeiro nome do francês Allan Kardec, era um excelente referencial de compreensão do que a bíblia diz (mas ela não é cheia de falhas? Pensei... como ter algo confiável de uma fonte duvidosa...oi?).

Em resumo, os dois colocaram algo incontestável: suas religiões produzem obras para merecerem pontos na próxima vida.

Não há como negar que os membros da Torre da Vigia fazem um trabalho excelente na divulgação de suas compreensões particulares, saem a campo contando as vantagens de suas crenças não sem um bom preparo teológico. A maioria dos propagadores sabem bem do que falam, e não esperam apenas leigos para um bom debate sobre o que julgam ser o real sentido das escrituras, e dos privilégios de pertencer a este dileto grupo.

Os espiritas então? Auxiliam casas de repouso, creches, asilos, doam alimentos, roupas, fazem mutirão em prol de ajudar esse ou aquele cidadão, ou mesmo grupo social.

E Tiago, irmão de Jesus, arremata: “A fé sem obras é morta...”

O contexto de Tiago não destoa de todo o discurso anterior sobre a desnecessidade de trabalhar em prol de sua própria salvação: Se alguém pudesse adquirir lugar no céu através de ajuda humanitária, o céu daria continuidade nas injustiças sociais deste mundo, continuaria nas mãos dos mais favorecidos financeiramente as melhores poltronas na sala celeste. Se Babel pudesse levar alguém ao paraíso, certamente concluiriam sua construção, pois não lhe faltam recursos.

Fazer o bem, praticar boas obras, nada mais é que nossa obrigação, não fazemos mais que nosso dever. O que nos motiva a praticar boas obras é que faz toda a diferença. O interesse nesses benefícios altruístas é que nos mostra quem realmente somos.

A legitimidade de um cristão tem como sintoma de sua fé essa prática inevitável das obras. Tiago denuncia isso: é estranho que alguém que se diga crente em Jesus-Deus não apresente algum desejo em ajudar o próximo. A fé dessa pessoa é inócua, não faz o que a fé legitima faz, já que temos em nós a presença do próprio criador e Nele descansa Ágape.

Salvos fazem naturalmente o que as religiões se disciplinam a cumprir, não há em nós, cristãos, necessidade de moeda de barganha pelos céus, Jesus já nos deu. As religiões que lutam por ter uma melhor reencarnação, virgens no céu, uma gleba em alguma fazenda celestial, um espaço na terra restaurada, precisam apresentar algo para que sua carreira como alma em evolução continue.

Os crentes alcançam isso segundo a vontade expressa e instantânea do Criador, sem que o ladrão da cruz tenha que descer para dar continuidade a sua existência em boas obras para merecer o presente que o Rei dos reis deu-lhe enquanto morria na cruz.

Eis a diferença.