29 de maio de 2011

O tesouro que a alma segue



Ainda sobre “História do Cerco a Lisboa” de Saramago:

Raimundo da Silva percebe nas escadarias de uma Catedral de Lisboa, que todas as vezes que ele passa por ali, um vira-lata está, como se atrelado a uma cerca, embora não haja coleira que o prenda, teto ou comida que o mantenha. O cão o reconhece e abana o rabo, sem sair do lugar, como se Raimundo fosse lhe saciar a fome com algum pedaço de pão dormido, coisa que realmente fez: retornou a sua casa, e trouxe algo para o animal comer.

Raimundo, após isso, tem um momento de iluminação:" nada me mantém preso a nenhuma escadaria, como aquele cão. Nenhuma coleira invisível deveria me manter amarrado a uma situação imaginária."

Dia desses, num bate-papo informal, comentava sobre o volume de carros velhos semelhantes ao meu, da mesma cor e ano. Lembrei que nós, humanos comuns, a cada troca de carro, temos a nítida impressão que carros semelhantes aos nossos tiveram um aumento de vendas bem naquela semana: “Quanto Palio! Quanta Ferrari! Quanto fusca!”

Jesus diz que que o coração – nesse caso, referindo-se a alma – segue sempre o tesouro, aquilo que valorizamos demais, que prestamos atenção acima da usual. Nosso foco começa a reduzir o mundo a pequenas coisas e pessoas.

Até aí, parece apenas uma constatação filosófica, ou dica de como funciona o ser humano que Ele construiu - o que não está de todo errado. O detalhe é que aqui não cabe apenas uma ou outra escolha, já que quem falou foi – quem eu creio ser - Deus, e Este não é dado a desperdícios

Como Mestre, Jesus ensina. A diferença, é que uma simples declaração Dele perdura na alma por séculos, recocheteando nas paredes resistentes do ego, trincando-as, ruindo gradativamente às crostas do limbo, tártaro e lodo, criados com o tempo por nossa maldade.

Cavalheiro, nos revela quem somos a partir do prazer que sentimos em seguir nossas mesquinharias, revela o quanto somos vis, bom ao contrário do que imaginávamos. Faz tudo isso com tanto amor que muitos imploram para que ele não pare de expulsar de nós os vendilhões de nosso Templo pessoal, aos berros, virando mesas, assustando tudo que em volta se achava tranquilidade, e deixando boquiabertos àqueles que esperavam apenas reações felizes.

Ele promete que Nele seremos livres, liberdade é indício que somos Nele.

Mas enquanto isso não acontece, por mais que se garanto sermos seus servos e amigos, seguimos em nossas coleiras imaginárias, presos a coisas, situações e argumentos que perderam sentido há muito tempo. Morrendo de fome, a espera daquele que alguém realmente livre possa passar pelas escadarias e nos trazer um naco de pão, um pedaço de carne, migalhas e mais migalhas.

Suas paixões são como as grandes bebedeiras: começou num pequeno e prazeroso trago, e na compulsão de prosperar aquilo, foi gradativamente se entregando, até que um dia, sermos dominados por um simples copo, por uma paixão, por um cargo...

Já viu aquelas pessoas congeladas no tempo? Os garotos que amavam rock e, agora carecas, mantém os cabelos restantes sem cortar, com as camisas pretas surradas de bandas extintas (que nem mesmo usam mais cabelos longos)?

Aqueles que chegaram ao cinquenta mais ainda perduram o hábito adolescente de procurar drogas para o fim de semana?

Pessoas que só tem o mesmo assunto, ou só vivem para uma pessoa ou ideal, que passam suas existências nas escadarias de uma catedral de Lisboa, gritando: “sou livre pra fazer o que quiser, inclusive para viver algemado e amordaçado!”.

Temo isso. Parece castigo dos céus, como o que sofreu Nabucodonosor, quando ficou aprisionado como animal dentro dele mesmo por decreto divino durante sete anos. Mas naquilo, era Ele aprisionando, e por tanto, havia motivo, razão, consequência.

O preço da liberdade é a eterna vigilância.