2 de maio de 2011

Plano B

por Zé Luís

A proposta para o pequeno grupo – doze pessoas, entre músicos, cantores e gente do grupo de dança, todos amadores - foi revelada só naquele momento, uma hora antes do início do culto.

O que era para ser um momento de descontração, acabou por tornar-se uma angustia nervosa. Eles se preparavam para ouvir do preletor, reunião que precedia o culto, algo curriqueiro: um estudo sobre a importância da música no contexto da liturgia, a relação da descendência levítica em torno dos atuais músicos, a incontestável presença da dança na bíblia (sem esquecer de Miriã ou Davi)...

Alguns se prepararam para trazer questionamentos sobre o atual estado da aparelhagem, ou a necessidade de investimentos em coisas relacionadas, como estudos sobre harmonia, canto, entonação de voz, outra bateria, encordoamento para as guitarras.

Uma decepção.

O preletor explica que pensou sobre todas essas coisas, mas ao pedir a opinião para quem realmente o culto seria direcionado, tirou a seguinte conclusão:

“Cresci numa casa onde a garagem foi transformada em um centro de umbanda, e eu particularmente, antes de meu encontro com Cristo, fui ogan, aquele sujeito designado para tocar atabaques, fazendo destes toques e cânticos – chamados pontos – invocação às entidades. Existe um ponto para cada entidade, assim como um tipo de batida para cada uma das alas destes espíritos. Não existe celebração nessa religião sem que esses espíritos venham...”

Os presentes olhavam, sem entender onde esse assunto levaria, não estavam ali para ouvir pela centésima vez sobre as origens religiosas daquele irmão que há anos conheciam. Ele continuou:

“Pois bem: é inconcebível que venhamos a um culto onde invocamos alguém que se comprometeu a estar onde dois invocarem-no e não esperarmos que Ele realmente esteja. Hoje, esse culto será dirigido pelo Espírito, esperemos que ele nos conduza..."

Estranhamente, o pânico desenhou-se nos rostos presentes, cochichavam entre eles:

-Co-co-como assim? - gaguejou um.
-Qual o problema de esperarmos que algo nasça em nossa alma de forma espontânea?
-Mas o culto vai estar cheio... gostaria de ter algo programado, um “plano B”...
-O problema do “Plano B” é ele virar a regra segura...
-Essa não entendi...-questionou uma das cantoras.
-Se as coisas não funcionarem, faremos o velho culto conhecido, certo?
-Isso...
-Eis a questão: façamos o culto com a fé de um umbandista que vem para ver a entidade encorporar em um médium e não sai decepcionado...
-Que comparação esdrúxula...- sussurrou um guitarrista. O preletor riu, concordando.
-Mas?... - a cantora voltou a questionar...e se Ele não vier?
-Se Ele não vier? Está no direito Dele...mas daí fica uma questão: desde quando cultuamos um Deus que não comparece ao seu culto? Para que serve esse tempo gasto se Ele não vier? Será que ainda conseguimos identificar se nosso objeto de louvoe e adoração está presente, ou tudo não passa de cantorias e palestras sobre escritos de um livro antiguissimo?

Naquela tarde, o grupo decidiu correr o risco, e esperar que Deus manisfestasse sua presença na igreja. O risco estava em descobrirem que Deus já havia os deixado, e eles, que fizeram do plano B, principal plano e de uso cotidiano, se aparavoram com a possibilidade eminente de estarem sem Deus a muito tempo.

Como foi o culto aquela noite? Como imagina que as coisas se desencadearam?

Independente disso, a resposta que você imagina se esse for um relato verídico - e é - só revela o que você pensa de um culto onde Deus é invocado de forma literal.

Um comentário:

  1. “Pois bem: é inconcebível que venhamos a um culto onde invocamos alguém que se comprometeu a estar onde dois invocarem-no e não esperarmos que Ele realmente esteja."

    Amo estas frases que resumem tudo que queremos dizer em grande explicações e não conseguimos.

    São estas reflexões que nos trazem de volta à realidade, que nos mostra que somos humanos, que independente de nossas ações Ele é quem decide seu agir!

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