19 de junho de 2011

Decepções

por Zé Luís

“Você crê realmente que não me negaria? Que ficaria até o fim? Que estaria comigo, independente das tragédias que pudessem se abater sobre minha existência nesse mundo?” - perguntou Ele diante da impetuosidade de seu discípulo.

Como Ser supremo, que existe fora do tempo, olha para nós, seres temporais, como quem lê um livro pronto, com início, meio e fim: Ele conhecia a história de Pedro e o capítulo onde sua traição ocorre antes que o galo cante.

A dor de Pedro ao se deparar com sua precária e triste realidade - de não ser aquele poço de firmeza - só não é maior da que ter que encarar – mesmo que por breves momentos - o olhar de seu Mestre, que encontrou o seu, no momento da negação, em meio a escarros, pancadas, hematomas, lágrimas e suor.

Pedro chorou amargamente, por ter que admitir o que era em seu íntimo, bem diferente de sua idealização. Não só Deus, mas agora ele também conhecia a própria realidade: não era tão bom quanto pensava. O nº 1 do Reino, escolhido para ir à frente das ovelhas de Cristo não demonstrava convicções quando sua própria vidinha era ameaçada. E pior: não sabia disso, se imaginava outro, mais firme, mais líder, a escolha mais certa que o Mestre poderia ter feito. Era como os gordos que se olham no espelho e só conseguem ver um homem musculoso, esbelto, apesar da papada e da enorme pança.

É comum que pessoas a nossa volta sempre tenham boas dicas de como nos melhorar, sermos mais aperfeiçoados nisso ou aquilo. O que não lembram é que somos seres naturalmente insatisfeitos:
Se andamos de ônibus, queremos um carro.
Se temos aquele carrinho popular, ansiamos algo mais novo.
Se possuímos o carro zero, queríamos um mais completo, com acessórios, ar, direção, trio...
E se temos o melhor carro, precisamos de dois...

Se somos sozinhos, queremos alguém.
Se temos alguém, queremos mais proximidade.
Se temos essa intimidade, fazemos planos para que as coisas se aprofundem, e que essa sintonia se agigante...
As vezes os caminhos se dividem, pois as expectativas não preenchidas geram reações. Para alguns essa – então – falta de sintonia precisa ser “reparada”, para outros, ela precisa ser totalmente desfeita.

Não espere preencher as necessidades alheias: elas, são por natureza, insaciáveis como as nossas. Sempre desejaremos um novo carro.

O grande problema de Pedro foi deparar com um ego em cacos: suas convicções e rompantes não eram nada sólidas, e - pior: Deus sempre soube. Sendo quem era, e amando como O amava, não poder cumprir – naquele momento – sua demonstração de fidelidade e devoção foi o maior castigo possível.E agora, a beira da morte, não haviam novas oportunidades de retratação.

Deus olhou-o com a tristeza própria dos que se decepcionam, por mais contraditório que pareça (oras: ele sabia que seria traído por TODOS: todos fugiram, se esconderam, apavorados, apesar de ter visto centenas de vezes seu Poder manifestado). Contraditório porque ele já tinha lido nas histórias de cada discípulo o duro capítulo de seu próprio abandono. Qual a surpresa?

Ter que conviver com os motivos que fazem dessa humanidade ser condenável, nitidamente imperdoável, não deve ser muito fácil. Jesus preparava-se para morrer em meu lugar, sofrer no lugar que não lhe cabia diante do amor eterno oferecido por seus discípulos dissolver-se na vasilha das promessas vazias e da covardia em benefício próprio. Ele sabia e, mesmo assim, se obrigava a passar por aquilo, em nome de seu Amor.

Sim: dentro do plano de Deus existe situações onde Ele deparará com nossas decepções e ingratidões, e trazer isso a nossa superfície poder ser uma poderosa ferramenta, já que na maioria das vezes olhamos para nós mesmos como heróis ou vítimas, mas ao lidarmos com nossa vileza, nossa maldade, nos justificamos mostrando que somos maus por culpa do outro.

Pedro não tinha justificativa, era ele e o espelho. Restou-lhe reconhecer sua vergonhosa e inconfessável fraqueza.

Não tomamos remédios para doenças improváveis. Para aceitarmos tratamentos para nossos males, precisamos estar conscientes dessa necessidade, apesar de ver nossa desconfortável realidade, e aprender a lidar com a nossa mesquinha verdade.

O Mestre, enquanto cura-nos, tem quem lidar com nossas mordidas e rosnados, onde juramos ser aquilo totalmente justificado. Ele nos vê por inteiro.

Pedro teve a oportunidade que muitos gostariam de ter: de se retratar. Era interesse de Jesus:

“Pedro: me amas?”
“Pedro...tu me amas?”
“Pedro. Amas-me?”

Se você sabe o que fez, e a oportunidade ainda está entre se retratar e seu orgulho, está em suas mãos. Decepcionar faz parte, se retratar também.