21 de julho de 2011

Casamento e separação: além do cristianismo


 por Zé Luís

 Sou filho de um casal que se divorciou após 2O anos de casamento. Crescer em um ambiente desses não tornou minha infância – e de mais quatro irmãs – muito agradável. Na visão do filho que fui, aquilo foi apavorante: a animosidade na qual digladiavam-se , os apelos emocionais de um lado para que ficássemos contra o outro, o repentino afastamento de um lado, mostrando indiferença para com nosso afeto e mostrando que nós, os filhos, só faziam lembrar o quanto falhara, as lágrimas todas, o medo de uma agressão repentina pudesse atingir aquele filho que se desesperava com a gritaria que aquele casamento falido gerava... tudo isso deixou suas feridas.

Hoje, consigo lembrar deles quando ainda se amavam e como gradativamente foram se estranhando até que um simples olhar era motivo para começar uma guerra, tornando tudo em ódio mutuo inexplicável. Aos olhos dos cinco pequenos filhos (sou o mais velho) um gosto de fracasso e impotência, já que queríamos recuperar os dias bons, quando papai abraçava mamãe com ternura, tempo que jamais voltaria.

O mais “curioso” no dia da assinatura do divórcio, quando minha mãe retirou o sobrenome de meu pai do nome dela, foi o retorno apenas dela para casa: ela atravessou a sala onde os filhos, indiferentes àquela situação, se espalhavam no sofá diante da TV. Ela se trancou em seu quarto e não falou com ninguém por horas. Nunca ouvi aquela cearense chorar tão amargamente... chorar não, urrar!

As lágrimas, naquela época incompreensíveis, ecoaram como uma pergunta durante muitos anos: Se os dois se odiavam, a ponto de tornar tudo a sua volta um inferno, porque ela chorava pelo fim oficial daquilo?

Quando conheci o Evangelho, já casado e com dois filhos, aprendi que crentes não se divorciavam, já que Cristo, tudo em todos, se incumbia de resolver todos os danos que um casal sofria durante a vida em conjunto. Diante disso, gostaria de trazer o seguinte trecho:

No casamento, ambos os parceiros mudam ou evoluem com os anos, geralmente em diferentes ritmos, e não necessariamente em direções complementares, podendo surgir a necessidade de separação.

Assim, diante de um casamento não satisfatório, começam a surgir inúmeros problemas no convívio e no relacionamento, que chamaremos aqui de desajustes conjugais. Ocorrendo a separação, ambos os ex-parceiros , independente de quem tenha tomado a iniciativa, passam por um período de sofrimento em decorrência da perda da relação, por pior que essa estivesse no período imediatamente anterior ao divórcio.

Em um casamento, quando ocorre um desajuste conjugal, a responsabilidade pelo problema é de ambos os cônjuges, mesmo que aparentemente a situação aponte para um único responsável.

Muitas relações desajustadas se perpetuam em uma situação chamada de acordo inconsciente entre os dois, isto é : um problema que aparentemente é de apenas um dos cônjuges, é, em geral, compartilhado ou até mesmo aceito pelo outro.

Assim, uma pessoa ao se casar ou se manter casada, assim o faz pelas virtudes do parceiro ou da própria união. Porém, com as virtudes, aparecem as diferenças e até mesmo os problemas.

Questões socioculturais também são muito importantes na manutenção de casamentos muito desajustados, principalmente em culturas e classes sociais em que a mulher (ou o homem) tem uma educação rígida em relação ao casamento, não tendo uma vida pessoal própria, independente, mesmo profissionalmente, em que o casamento e a maternidade, são sinônimos de meio de vida, muitas vezes por necessidade e não como opção.

Além disso, muitos casamentos mantêm-se pela extrema dependência afetiva dos cônjuges um do outro, que faz com que desajustes intensos no casamento sejam tolerados, de modo que a tristeza pela perda do casamento seja intensa ou até insuportável, não permitindo uma separação mesmo que os problemas conjugais se multipliquem.

O trecho acima não tem religião ou crença. Além dos dogmas evangélicos que impõem veladamente a manutenção da situação muitas vezes insustentável, existe a realidade cotidiana que deve ser verificada por cada um dos elementos do casal, não entregando isso para que Deus o faça, ou mesmo usando o argumento adâmico: "Culpa é da mulher que tu me deste!".

Abaixo, algumas razões psicológicas que minam a convivência, levando muitos casamentos a bancarrota. Bom seria se você, noivo ou mesmo recém-casado, independete se concorda com o que escrevo, compartilha-se isso com seu companheiro(a). Talvez se surpreenda com os comentários que ouvirá. São exatamente as pequeninas fissuras ignoradas que destroem as grandes barragens:

Escolha do cônjuge: não é raro que uma escolha insatisfatória tenha uma repercussão através do divórcio somente após anos de casamento. O nascimento de filhos, o surgimento de rotinas, a estabilização da vida sexual, a maior independência dos filhos crescidos, entre outros aspectos comuns do casamento, porém geradores de ansiedade, podem levar a uma reflexão sobre a escolha do cônjuge apenas após anos de vida a dois.

Amadurecimento do casal: uma segunda causa psicológica para o divórcio seria o amadurecimento desigual do casal. As mudanças naturais que ocorrem em cada pessoa ao longo da vida podem gerar nos parceiros de casamento diferenças que se tornam difíceis de conciliar.

Decadência dos aspectos saudáveis do casamento: a diminuição do efeito saudável, ou terapêutico, do casamento é algo que muitas vezes determina seu fim. Não é raro que uma pessoa encontre no parceiro alguém que vai poder aliviar sua ansiedade ou angústia diante de alguns de seus problemas pessoais. É importante lembrar que isso, em si, não é algo anormal ou um problema em si. É algo natural das uniões. Porém pode extremar-se ou se tornar um problema. Mas quando este lado de alívio da ansiedade dentro do casamento é rompido, a união pode acabar.

Mudança psicológica de um dos cônjuges: muitas vezes o que pode aproximar duas pessoas são seus lados problemáticos, ou conflituosos. Assim, o divórcio pode estar ligado à melhora psicológica de um dos cônjuges, sem ser acompanhado pelo outro.

Surgimento de um problema psicológico em um dos cônjuges: uma mulher pode ver-se diante de uma forte necessidade de separar-se de um marido que, com o passar dos anos, foi se tornando deprimido e alcoolista. Da mesma forma, um homem pode não mais conseguir manter-se com uma mulher que, diante das inseguranças e sentimentos depressivos do período de climatério (menopausa), começa a ter casos extraconjugais, como forma de reafirmar sua sexualidade e feminilidade, muitas vezes abaladas nesse período.

Ilusões sobre o divórcio: às vezes pode também ocorrer da pessoa iludir-se a respeito da vida do divorciado (que seria mais prazerosa) e acabar optando pela separação. Portanto, não é tão raro ou estranho que separações retrocedam.

Espero poder voltar ao assunto em breve, mas gostaria de trazer o capítulo 7 do livro de Romanos.

*Os trechos em itálico foram retirados do link citado, e você pode ver o estudo na integra acessando o ABC da Saúde