7 de agosto de 2011

Jesus disse: Tu é uma cachorra!

por Zé Luís

Assim, compreendi a resposta do Mestre à mulher pagã que pedia a Ele a cura de sua filha.

A mulher era cananeia, e não seria anormal que cultuasse seus próprios deuses e ídolos. Normalmente, o tipo de culto prestado por seu povo era constituído pela necessidade de prostitutos cultuais, que faziam verdadeiras orgias em adoração ao seu deus. Um filme pornô grupal poderia ser confundido, naquela época, com um culto ao deus cananeu.

Ela vinha ao – considerado – Deus judeu encarnado, visto por seu povo um deus sem atrativos: sem imagens, invisível, inodoro, incolor. Sim: corria o boato que o tão poderoso Jeová encarnara e andava entre os homens, fazendo sinais e prodígios, ensinando, curando, exortando, e diziam alguns, ressuscitando mortos. Mesmo assim, Ele era exatamente como seus conterrâneos diziam sobre o Deus dos judeus: sem atrativos que o identificassem como poderoso, isso era - e é - invisível aos olhos de quem procura deus em um homem, embora, algo em todas as almas, independente do credo, podiam sentir.

Sua filha padecia de tamanha loucura que podia garantir que algo externo, um demônio, de comportamento infernal, tomara posse dela.

Baal, embora de simples compreensão, nada pode fazer. É fácil cultuá-lo, já que pode-se levá-lo a qualquer recinto, adorá-lo, e prestar suas oferendas. Em compensação, nunca houve na tradição cananeia – ou qualquer outra - um deus que andasse entre seu povo e que demonstrasse amor por ele.

-Não convém tirar da mesa dos filhos e dar aos filhos dos cães... - disse Jesus à desesperada mãe que se colocou no caminho, implorando favores. Ela o reconhecia como filho de Davi, a descendência messiânica profetizada. Tal humilhação não seria suficiente?” Sua cadela! Vocês não são gente! “

Os discípulos mais nacionalistas devem ter estufado o peito: aquele povo impuro interpela o Messias! Que ousadia aproximar -se do Todo-Poderoso, essa raça imunda, que pratica sexo como cães no cio em nome de sua fé! Dá neles, Jesus! Mostra que com o Senhor a coisa não é tão bagunçada!

-Verdade, Mestre...mas mesmo os cães comem das migalhas que caem da mesa...

Por essa, nem Deus esperava! Alguém que não se importava de ser humilhada, que reconhecia diante da magnitude da alma que se escondia naquele corpo de carpinteiro judeu queimado de sol, a soberania de luz impossível a homens e deuses. Ela não se importava de ser esmagada pela força daquele Deus. Na verdade, reconhecia sua brandura em dialogar com ela, desgraçada pagã.

-Fale o que bem entender, humilhe-me diante de todos, você tem razão e mais um pouco. O que a cadela aqui precisa é de uma migalha de teu amor, isso já me sustenta e cura, renova e purifica. O que não se pagaria por uma migalha da Graça divina? Tú é o Deus de muitas misericórdias, favores imerecidos. Quem sabe possa ter algo para mim?

Mais uma vez, Cristo vê que a fé de fora pode ser maior do que em seu arraial, talvez esperasse que seus nacionalistas discípulos, percebessem isso, e vessem que Deus é para todos.

Está feito, a filha está liberta, o demônio sai sem ressalvas ou questionamentos. A mulher será contada e recontada por milênios, exaltada pelo próprio Deus como portadora de imensa fé, apesar de ser pagã, e seu berço não estar entre o privilegiado povo escolhido.

(Mateus 15:28)