16 de agosto de 2011

O ministério de Judas de Queriote


por Zé Luís

- Como assim, o Reino no qual reinaremos não é nesse mundo?
Essa era pergunta que pairou na mente dos discípulos. Entreolhavam-se diante da afirmativa do Mestre que começava a assumir um ar melancólico, como se o fim de todo aquela peregrinação em Israel estivesse muito próximo. Alguns destes, inclusive, andavam armados – um deles, era zelote, facção nacionalista que poucos anos depois entraria em guerra contra Roma, conhecido como guerra de Massada, ocasionando a total destruição de Jerusalém, não ficando pedra sobre pedra, conforme profetizado pelo Mestre nesse mesmo sermão. Eles se preparavam para uma guerrilha armada.

Aqueles homens estavam preparados para morrer em batalha contra o país opressor, embora fossem discípulos diretos do Príncipe da Paz, mas não podiam entender que não havia sentido a luta armada por um Reino que já era conquistado, mas não pertencia a nossos sistemas políticos terrenos. Era um mundo invisível, supostamente do imaginário do messias nazareno.

Era uma grande decepção. Tudo aquilo que esperaram: posições políticas privilegiadas(havia quem pedisse para ser o 1º Ministro, o Ministério da Economia ou da Guerra) não aconteceria. Judas, até aquele momento, via como lucrativo sua decisão de andar com aquele grupo, já que ficava com parte dos lucros arrecadados nas doações. Até aquele momento...

Apesar de todo aquele poder demonstrado em tantos sinais e milagres, Jesus afirmou que não moveria uma palha para ter em suas mãos partidos políticos que liderassem um governo para prevalecer contra o opressor estrangeiro.

-Três anos de uma vida foram desperdiçados. No que deu entregar-me a estas filosofias todas? Que lucro tenho nisso? Canseira e mais canseira, além da antipatia do Mestre sobre minha visão de mundo. De que vale investir tanto empenho nas almas se me é vetado usufruir dos lucros que essas possibilidades abundantemente proporcionam?

Judas sai. Para não ficar no prejuízo, tira seu ganho, antes que o esperado - a prisão de Cristo - aconteça e ele fique de mãos abanando. Vende a localização de seu Mestre, negociando-o pelo que era pago em um escravo na época.

Essa sensação de prejuízo que muitos experimentam é algo muito parecido com o que Judas sentiu. Essa postura de faze valer o lucro para estímulo de pregar a Palavra e compensar as decepções com a ingratidão das almas salvas, é típico de quem faz algo pelo valor financeiro que isso proporciona. Fazemos esse pacto financeiro para não ficarmos a ver navios, caso essa fé não passe de uma grande ilusão.

Não nos entregamos totalmente ao ensinamento e Cristo: essas coisas, na verdade, tem uma relação fugaz nesse mundo, a grande maioria das pessoas que hoje nos amam pela misericórdia de Deus mostrada em nós, nos esquecerão em pouco tempo...e o que ganhou com isso? Se pelo menos tivessemos garantido uma aposentadoria digna. Esse pensamento anula a forma que o Espírito age, já que escolhemos o caminho onde ele deve trilhar, como Ele pudesse ser forçado a isso.

Muitos defendem que Judas Escariotes enforcou-se, antes de saber o final da história na madrugada do Domingo. Creio que ele continua entre os que se discipulam à mesa de Jesus. O Mestre permite que esteja entre nós para que lembremos: sempre haverá quem procure nas coisas do Reino uma fonte de lucro, e que um dia descobrirá, tarde demais, que Cristo não era com ele há muito tempo, e que seus seguidores vão no rumo da autodestruição, assim como ele está destinado a fazer se não sem a necessária conversão.

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