31 de agosto de 2011

Parábola do lenhador, ativismo na igreja e o enxugamento de gelo

 

por Zé Luís

Um jovem lenhador, vivendo o momento de glória momentâneo que alguns conseguem em algum momento da vida, desafiou o velho – e aposentado - lenhador, antigo herói da cidade. Para o jovem e forte lenhador, suas capacidades profissionais ultrapassavam – e muito – as daquele lenhador aposentado, mas estranhamente, o velho aceitou o desafio de passar um dia cortando árvores, e comparar no fim do expediente quem produzira mais.

A cidade levantou-se cedo para assistir o evento local, e logo os lenhadores começaram seu trabalho. O mais jovem era incansável, e sem parar com seu machado, derrubava arvores e mais arvores, sempre de olho no seu oponente, que parecia estar sempre sentado na maioria das vezes que ele o observara.

Não com pouca surpresa que no final do dia foi constatado na contagem -e recontagem exigida - de árvores cortadas mais que o dobro de produção de madeira feita pelo lenhador aposentado:
-Como pode? Todas as vezes que eu olhei, você estava sentado! - questionou o confuso jovem, com as costas envergadas de cansaço e vergonha. O velho aproximou-se, e colocando a mão sobre o ombro dele, disse:
-Sim... estive sentado muitas vezes durante o trabalho, como você viu. Era nesse momento que meu instrumento de trabalho, meu machado, estava sendo afiado.

Se você é “crente de banco”, aquele sujeito(a) que não se envolve com trabalhos desenvolvidos pela liderança de sua comunidade, não entenderá bem esse paralelo traçado. Apenas aqueles a quem, em algum momento de sua jornada, orou dizendo “Eis me aqui, usa a mim” sabe do que estarei falando (Deus não tem o “costume” de desperdiçar ferramentas que realmente se disponibilizam: Ele a habilita, prepara-a e enfim, a utiliza).

Existe no coração de cada “ferramenta preparada” uma necessidade latejante de servir, um desejo sincero, próprio do 1º amor (aquele mesmo amor que torna a todos condenáveis – vide carta a 1ª igreja em Apocalipse- quando inevitavelmente deixam esse costume, torna-os repreensiveis).

Se existe algo que o Espírito nos impele é o trabalho, a necessidade urgente de produzir, a clareza da mente liberta provoca a impulsividade ao trabalho voluntário.

É quando somos contaminados com a ideia – errônea - das obras justificando a Graça recebida.

O ativismo evangélico nunca afia machado, e essa necessidade isso é apontada por muitos pastores como ato reprovável, ou mesmo, vista com o horror de quem pratica um pecado imperdoável.

Se você acha que isso é um exagero, tenho na maioria dos meus seguidores no Twitter, pessoas que professam a fé cristã, e fazem de suas postagens de 140 caracteres, uma esteira de verdadeiras caixinhas de promessa, ou frases de autoajuda travestidas de conselhos pastorais. Até aí, nenhum problema, não fossem postagens sistemáticas, foras de contexto, e que lembram frases de para-choque de caminhão.(algumas congregações tem o hábito de ler a Palavra de pé, antes da pregação, em sinal de respeito. Ali, os trechos são lançados, de forma ordinária).

Essas pessoas possuem esse espírito de urgência do jovem lenhador: no final do dia, estarão esbaforidos, sem entender porque seus frutos são tão insignificantes em relação ao que trabalha bem menos e sem suor na testa. Mais dia, menos dia, cansados e frustrados, se perguntarão sobre a realidade de suas escolhas de fé. Será quando muitos se esfriarão e até colocarão em dúvida a existência de seu Senhor.

O ativismo não é coisa nova, e era prevista por Deus. Existe um dia de descanso na Lei Mosaica, e o judaísmo prevê, ainda hoje, sérias consequências a todo aquele que a quebra: o Sabath. Deus tinha em seus planos a necessidade da rotina do trabalho intenso. Existe a necessidade de descanso, o que muitas lideranças franzem o nariz para, isso como se estivesse cometendo um crime, sem perceber que agindo de forma ativista, estão indo contra o Deus, a quem dizem professar adoração e louvor.

Entenda: A Graça dá a capacidade de entender as prioridades que fazem necessária a quebra do benefício de seu descanso, direito dado pelo próprio Deus, e que muitos empresários gostariam de eliminar da vida de seus funcionários. Por que tantos pastores obrigam – e se obrigam – ao acumulo de fardos tão extenuantes, se no decorrer do trabalho, a “produção” para o Reino se torna inócua e sem sentido. Vira, o que muitos chamariam, em “enxugamento de gelo”.

Minha oração é que aprendamos a sentar, despreocupados, enquanto afiamos nosso machado, e com um julgo suave, e um fardo leve – conforme prometido – sigamos nosso caminho, vivendo em paz, sem angustias e ansiedades, em prol do Reino.