25 de agosto de 2011

Por que desisti de escrever meu livro

por Zé Luís

Já há algum tempo que ensaio em escrever uma história. Não uma simples história, mas algo que convença, feita de personagens fictícios, mas que qualquer um poderia dizer que poderia tê-la visto em qualquer realidade possível. Qualquer um leria e se emocionaria com aqueles a quem minha imaginação ditaria seus destinos.

Para a construção dos mesmos, coloquei-me na árdua tarefa de analisar pessoas reais, ver como são e como poderiam ter vivências extraordinárias com um pouco de ficção. As personagens seriam baseados em gente do ambiente que desenvolveria a trama: alguns religiosos, outros ateus, outros não se preocupariam com o assunto, já que na TV estava abarrotada de pessoas vendendo ideias sobre fé a um preço acessível.

Os religiosos, corretos e sinceros, seriam heróis e vítimas da trama, enquanto os ateus seriam vilões, arrogantes e malditos, lutando pelo banimento desses pobres crentes em Deus, que só tem seu entendimento benéfico para oferecer.

O problema era convencer a todos, incluindo aos ateus, de quão mau eles podem ser: seus argumentos contra esses cristãos sinceros sempre me soaram cruéis e cínicos, e de quão heróicos seriam os seguidores de Jesus diante de um inimigo poderoso.

Daí o problema: um cristão - entenda que usei na análise cristãos praticantes e protestantes - é sempre cordial em sua abordagem.  Quando me identificava com as palavras certas - “paz do Senhor!”, “Graça e paz”, “tô na bença, irmão”) - eles sempre se abriam. (a não ser aqueles com ideais apocalípticos, que sempre tendem a nos alertar sobre o fim do mundo eminente, com ameaças de como é terrível estar nas mãos de um Deus vivo e destruidor. Esses as vezes dão medo).

O pouco de sensibilidade, me dada por Deus, era capaz de detectar vestígios de mentiras simples em certas conversas, e percebi nessas entrevistas - dos que seriam os heróis de meu conto - que elas - as "mentirinhas" - inundavam as entrelinhas dos assuntos mais complicados.

Havia nos discursos abençoados tanta falsidade que comecei a me questionar se eu mesmo não estava mentindo quando dizia ser imparcial dentro do povo que eu tanto amo. Essa tendência santa de trucidarmos pessoas por ameaçarem nossas zonas de conforto, nossa mania cristã de isolarmos os espiritualmente doentes para não atrapalharem os discursos montados para o ambiente cheiroso do domingo, esse cinismo com a vida do soldado ferido em seus próprios pecados, quando os abandonamos ...

Por que abafamos a sexualidade da mocidade, se fomos mocidade um dia e sabemos exatamente o que eles sentem? E por que os esclarecidos nesse assunto procuram tirar proveito próprio nessas situações? Mentiras ajudam na manutenção de uma realidade que realmente não convence.

A necessidade destes cristãos de abraçar linhas de raciocínio de gente que se diz esclarecida levam pessoas a deixar de usar seus cérebros, e aborrecer os que usam. Um ateu arrogante e maldito não tem muita opção com um desses cristãos quando ele diz que pertence a um Deus vivo que o reequilibra, e age de forma tresloucada. As vezes, o ateu está vendo a contradição, mas o tal religioso pensa que só dizer que pensa – e não pensa – já lhe é suficiente.

Quantos cristãos solitários, que se sentem solitários, mentem descaradamente sobre isso até para Deus, e buscam secreta e solitariamente refúgio em qualquer lobo(a)?

E o jogo de intrigas? O que é falado e a forma que são expostas: aquela irmã vira rapidamente uma ameaça quando o irmão deixa de ser irmão para ser um namorado, por exemplo. Aquela vítima de injustiça nunca conta a real motivação de estar sofrendo sua perseguição, o irmãozinho desempregado nunca revela os motivos de não parar no emprego (e certamente estará desempregado em breve, mesmo com a boa vontade de um empresário local, já que o tal, ao invés de buscar corrigir seu erro “profissional”, busca soluções mais místicas), os que se afastaram do Pai, que outrora amavam a Deus com todas as suas forças, e que por algum golpe da vida, ficou sem estas, tratados como doentes contagiosos, odiados pela liderança que dantes os apoiou em seu discipulado. Sem contar as eternas rusgas entre os que defendem uma linha de entendimento, fundando suas organizações para ressaltar isso, contra os que entenderam de forma diferente.

Olhei para os ateus e não vi mais neles vilania suficiente para prosseguir em meu conto. Eles vivem longe desse tipo de intriga (existem, claro, aqueles céticos que, inexplicavelmente, insistem em falar sobre mal um deus que não acreditam), e mostram-se galhofeiros com essas idiotices internas das igrejas que tanto buscamos omitir.

Você nunca imaginou por que continua participando dessa vergonhosa rede de intrigas, que nada tem com o ideal de Jesus?

Houve um momento em que a presença Dele foi tão intensa em nossas vidas, que tudo que o diabo planta no meio do povo que confessa Seu nome parece pouco para abandonar de vez toda essa loucura. Talvez seja essa a resposta.

A história ganhou novas diretrizes, precisa ser reescrita, e talvez, eu mesmo deva ser o vilão, em meio a vilões, e um único herói, que também foi vítima e morre por nós, apesar de sempre fazermos isso parecer desperdício diante de nossa tendência a quedas.