17 de setembro de 2011

Fase oral

por Zé Luís

Gosto de observar linguagens corporais espontâneas em locais comuns: restaurantes, escolas, centros comerciais. Existe um padrão nas pessoas que não abandonam determinados gestos desde a mais tenra infância.

Não pretendo fazer dessas resumidas linhas nenhum estudo sobre os gestos que revelam o que palavras buscam ocultar (ou mesmo desmentir). Para isso, existem ótimos livros – antiguidades – como “O corpo fala”, o básico do básico para essa compreensão. Alerto, porém, que o exercício desse conhecimento pode trazer algumas decepções: pessoas que julgava ser sinceras, dizerem algo e acenarem de forma oposta, o fingimento desmentido por um simples posicionamento dos pés, ou os olhos buscarem uma saída criativa(e mentirosa), quando o que se espera é apenas a realidade, os fatos.

Um exemplo : crianças de colo que, ao ver algo que lhe atraem, broches nas roupas, celulares iluminados, pedras lisas, tampas de garrafa, bolinhas de vidro, e uma infinidade de coisas que refletem ou cintilam: se conseguem pegar, vai direto para a boca, independente de ser ou não comestíveis. O policiamento desse comportamento tem de ser intenso, já que um bebê não sabe distinguir o que é e o que não é nocivo para seu próprio organismo.

O interessante é vermos essa atitude acompanhar o ser pela vida inteira: pessoas ouvindo assuntos interessantes levam a mão a boca, pessoas que se agradam da aparência das outras fazem isso, como o bebê que viu a caneta cromada no bolso e por isso pede colo ao dono, mulheres diante de vitrines mordem aquela “pelinha” dos cantos das unhas, diante de uma bela bota igual a todas as outras, ou aquela blusa com um detalhe masculinamente invisível.

Esse simbolismo é frequentemente usado por Deus na Bíblia:

Um anjo desse do céu (Apocalipse 10), trazendo um livrinho dos céus e dando a João a tarefa de come-lo, avisando que, embora fosse deliciosamente doce a seu paladar, o efeito em suas estranhas seria amargo. A “ingestão” do que, aos ouvidos soam palavras poéticas, é acido sulfúrico ao estomago da alma que precisa de urgentemente de correção.

A mesma figura de linguagem é usada em Ezequiel 3, quando Deus chama o profeta a falar com seu povo, ordenando que coma, então, o rolo onde esta escrita a Lei, que igualmente lembrava o mel ao paladar.

O Criador espera realmente que seus pequeninos levem a boca aquilo que nos presenteia e brilha a nossa frente, avisando que nos será doce ao dizermos, mas amargo em sua aplicação

Interessante é que o Messias escolhe ser relembrado pelo ato do ajuntamento para ingestão de pão e vinho. Escolhe para aqueles que confessam o seu nome o consumo de algo simples, em volta de uma mesa. Algo será levado a boca e entrará estomago a dentro, incorporando-se ao corpo, diluindo-se e fazendo parte de nosso ser. O sangue simbolizado pela bebida dada aos soldados que voltavam das batalhas, para restaurar a sede, anestesiar a dor, alegrar os corações: o vinho.

Deus não tem interesse em cobrar nada que não possa ser entendido, e não espera cubrir-lhe de culpas onde a compreensão não atinge. Nos convida a estarmos fazendo o que praticamos ainda no colo materno; levando a boca aquilo que nos edificará, apesar da dureza que isso possa vir a nos atingir.