1 de setembro de 2011

O jogador mais apelão!

por Zé Luís

-Apelão! - esbravejou meu filho com o caçula, enquanto jogavam videogame com seus amigos na sala do apartamento. O caçula escolheu uma personagem - secreto - no jogo de luta, de fácil jogabilidade, e que dois movimentos simples, feitos continuamente, tornavam-no imbatível. Isso irritava os jogadores mais velhos ali presentes, já que eram mais experientes, mas o “pivete” estava ganhando todas as partidas.

Entre estes amigos havia um rapaz que foi aluno de Escola Bíblica quando fui professor. Ao contrário do que foi quando adolescente (um sujeito desinteressado por leitura – talvez por sua má alfabetização), é atualmente um ávido leitor. O que – talvez - explique sua sede por literatura foi sua atual total compreensão da escrita, embora em idade avançada - o que não o impediu de voltar aos estudos, se formar no ensino médio e consumir todos os livros que tem curiosidade.

Eu sempre brinco com ele, jamais recomendaria Crepúsculo, Harry Potter, Jogos dos Tronos, Percy Jackson, mas ele já leu tudo isso. Reclama que os autores cristãos da atualidade tem suas vendas garantidas por uma boa propaganda, já que os “crentes” consomem esta “literatura” (que parece mais autoajuda em muitos casos), mesmo que nunca leiam (o que pode ser um grande negócio, partindo do princípio do volume de lixo lançado). O que ele alega é que a maioria dos escritores cristãos são como a maioria dos pregadores: chatos.

“O que custa o cara se esforçar para escrever tanto e ser insuportavelmente sem graça (ou seria Graça)? Não é tão difícil assim escrever coisas interessantes...” alega Éder.

Mesmo assim, defendo que ainda existe bons escritores além das atuais “celebridades cristãs”, tais como Dostoiewsky, C.S.Lewis, Gabriel Garcia Marques, Patrick Suskind, Herman Hesse, Saramago, Fernando Pessoa e uma infinidade de bons autores que cometerei a injustiça de não citar, parte pela memória não ajudar no momento, parte por não ter tido tempo – e/ou – disposição suficiente para conhecer suas obras e não me arriscar a mencioná-los por indicação alheia.

Para mim, o importante é ele estar exercitando esse costume tão raro entre brasileiros: a leitura.

Éder - este é o nome dele – lê atualmente uma ficção sobre uma guerra entre céu e inferno (Não é “Este mundo Tenebroso”) onde anjos e demônios lutam – ou coisa parecida. Não demorou, e logo veio me procurar e perguntar como é, dentro da hierarquia angelical, a distribuição de forças e quem-é-quem nos poderes do Paraíso. Parecia que queria escolher um jogador em um videogame;
“Gabriel numa luta contra um demônio, leva melhor, mesmo que esse diabo seja 'leviatã'”?
“Satanás é mais forte que o Arcanjo Miguel? Em Daniel, na luta que demorou 21 dias, ele acabou pedindo ajuda para Deus!”
“Como seria uma batalha entre um Querubim e Lucifer? Quem levaria vantagem?”

Ele ficou meio bravo comigo por eu sorrir, ao invés de responder. Ele tratava a batalha, anterior a criação do homem, como um jogo.

-Existe uma personagem nessa história que você está esquecendo – disse a ele.
-Qual? Quantos anjos existem na bíblia? Quantos sãos?
-O apelão... - sorri
-Que apelão? Miguel?
-Deus. Deus não joga com sua criação, porque ele não perde. Nesse momento, vivemos em um mundo onde o caos não se apodera, por que Deus deu um golpe chamado “Sua Vontade”, o que impede qualquer soco ou chute do mal, que possa finalmente vencer-nos... Uma simples repreensão cala a boca do pior dos demônios, ou acalma qualquer tempestade, Ele batalha com a espada que existe em sua boca, e com ela, ressuscita mortos, podendo fazer destes, exército. Ele diz: morra! E está morto, ele diz, ressucito, e no dia combinado, ele estará.O inferno não o contém, nem o retém...
-É mesmo, né? Deus é realmente apelão! Não tem como perder com Ele, e não tem como vencê-lo em jogo nenhum...
-Então... quem tem um jogador apelão desses intercedendo por nós, tem que se preocupar com o que? - perguntei.

Ele ficou lá, olhando o vazio, em silenciosa introspecção, como faz desde os doze anos.
-Éder, é sua vez! - disse o Lucas, passando o controle do videogame para seu colo, que com o mesmo ar pensativo, começou a jogar.