6 de setembro de 2011

Reflexões pós-quarenta

por Zé Luís

Quem dera pudesse dizer a quem fui que as convicções se vão com o tempo, embora na minha arrogância juvenil, jamais admitiria, pois possuía a certeza ilusória das pessoas convictas em suas realidades tão pessoais quanto teimosas(e as vezes, tolas).

Houve um tempo antes disso, que acreditei, como uma criança, que tudo estava no controle de um Ser maior, sem preocupações com debates onde minha verdade deveria subjugar outras, nem fazer prevalecer minhas convicções mais criativas e infantis. Um tempo onde Deus não era uma simples peça intelectual – e opcional – a ser usada quando meus argumentos falhavam.

Gritaria aos ouvidos do homem que fui para que abrace a vida com mais firmeza e alegria, e evitar os prazeres que geram tristezas: estas tristezas não são tão contornáveis quanto se pensa. Pudesse avisar que aqueles projetos todos não serão realizados, não por serem todos um total fracasso, mas porque eu colocarei-os na gaveta das decepções e ilusões generalizadas, e possivelmente, jamais sairão da vala comum dos projetos que toda a humanidade sonhou e nunca acreditou ser algo possível.

Não, impossível acreditar como o tempo passa tão rápido, e não demora a começarmos a pensar em nosso próprio velório, já que passamos a frequentar cada vez mais esse tipo de evento. É um exercício cômico quando penso em  quem estará lá, naquela hora, quem chorará, em quanto tempo serei esquecido, e quantos meses demorarão até que alguém comece a falar a verdade sobre minha conduta, e como realmente não valia nada: “Foi tarde, aquele estrupício..." Um mês? Dois? Um ano? Uma semana!!!!

A luta em continuar pensando como um jovem vai sendo perdida gradativamente: o espelho faz coro coma a aparência, nunca deixando de espalhar discretamente as rugas, as bochechas caídas, os fios de cabelo que, hora empalidecem, hora se espalham com qualquer vento, deixando a testa, que já nem é tão pequena, cada vez maior e com aquele aspecto brilhoso, próprio dos que abraçam a calvície.

Fora os exames da próstata, todos os exames necessários (o que para nós, homens ordinários, é uma chateação – necessária - e sem cabimento). Ver que a experiência e maturidade tão esperada para ser irresistível não vale nada, já que não há mais aquele apetite anterior. Dá a impressão que sempre falta algo em algum tempo.

Mas, confesso: poderia ser muito pior.

Poderia ter sorrido menos, chorado mais. Quando sem Deus, e sendo um imbecil pensando ser o oposto, poderia ter dado continuidade a tantos processos de auto-destruição que hoje, teriam me tornado apenas uma pequena fração do pouco que sou hoje.

Como me convenci em parar com tantos vícios e manias? Que estrada é essa que a se percorre e tão pouco se arrebenta? - apesar de gostarmos de lamber nossas feridas e lamentarmos os arranhões como se fossem verdadeiras tragédias. Fingimos não saber que as verdadeiras tragédias virão, e naquele tempo, saberemos o quanto lamentamos pouca miséria, e de como podemos ser tão idiotas.

Apesar do que sou, meus caminhos foram entregues ao meu Deus, e Ele, de forma inacreditável me conduz, apesar de ser tão problemático e errado, e não perceber - nem o diabo - como Ele consegue me conduzir por pastos verdejantes.

Sobre esse silêncio todo na alma? Há momentos na jornada que só nos basta estar na jornada, sem ter um comentários para cada paisagem que se desenha em cada nova curva alcançada. É apenas um trecho dessa estrada.