27 de setembro de 2011

Uma voz - que pensa - que clama no deserto

Foto meramente ilustrativa...

por Zé Luís

Ele nem imagina que era eu quem estava sentado atrás dele, no ônibus, assim como jamais pensei que o autor daquele site fosse alguém com uma postura tão cheia de esquisitisses, embora o jeito de menino mimado acrescentasse um ar ridículo àquele jeito imponente contra cada passageiro cansado que subia ao coletivo,após suas jornadas de trabalho, próprio de seus escritos legalistas.

Meu trabalho faz com que eu alterne turnos irregulares, e por isso, quinzenas trabalho a noite, noutros tempos, a tarde, ou madrugada. Varia da necessidade do setor e do serviço disponibilizado.

Numa dessas viagens noturnas, retornando para casa fora do horário do rush, percebi o diálogo dos passageiros da frente. Ele é editor de um site daqueles fundamentalista que usam o medo para difundir a fé, daqueles com fundo preto, e slides do fim do mundo, fotos de explosões, gente morta, fotos de anjos com espadas e extensos textos citando versículos e de como esse mundo vai de mal a pior, a ira de Deus, e de quanto os desgraçados pagãos merecem perecer no inferno. Tudo isso em nome do bom Jesus, claro.

Não acompanhei muito bem o inicio da conversa, mas se entendi direito, a mocinha o reconheceu de uma igreja que visitara com seu grupo de mocidade, e puxando assunto sobre a igreja, começou a papear, como se todos os crentes do mundo fossem sadios e uma boa companhia.

A jovem tentava falar sobre como era feliz em Cristo em sua comunidade, que seu grupo de jovens cantavam em um coral, e que ela participava da coreografia, dançando canções da Eyshila, Aline Barros, Diante do Trono, Cassiane...

Tentava...

O sujeito, rapaz esquisito, cabelos avermelhados cortado em forma de cuia (lembrando muito os cabelos daqueles bonecos da Playmobil), óculos fundo de garrafa, bochechas rosadas e uma peso acima do usual, com boa parte da pança aparecendo, talvez por usar roupas de anos atrás, ou por causa da sua baixa estatura realçante, fechava a cara em reprovação, enquanto abraçava com força sua mochila, que levava no colo como um precioso diamante a ser escondido. Enquanto ela falava, ele balançava a cabeça negativamente; abriu a mochila,e começou a rabiscar um pedaço de papel arrancado de uma folha de caderno:
-Entra nesse site, você vai entender melhor o que é ser crente...- soltou a patada.
-Você tem um blog? Eu também! - disse a moça, ainda interessada no assunto. Ele não desmanchou a carranca:
-Mas o meu é algo sério, não é desses blogs engraçadinhos que falam sobre trivilialidades: falo do inferno, dos Iluminatti, sobre as conspirações que esse mundo traz para dentro das igrejas. Sabia que a Disney tenta manipular nossas crianças com mensagens homossexuais? Tenho um estudo sobre isso... espero que leia...

A moça ia escrever o endereço do blog dela, mas foi gradativamente desistindo. Ela falava de vida, e ele,de morte.

Ele estava acostumado a ser lido,e não ler, já que qualquer coisa que não viesse de seu ego não podia ser levado a sério por ele.
-Vou descer no próximo... - disse ela, entristecida. Ele, sem olhá-la na face, ofereceu o papel com endereço de seu site, tratando-a como se ela fosse algo inferior e imundo:
-Não esqueça de visitar “lá”. Talvez aprenda alguma coisa...

A moça não se despediu. Desceu, e pude ver quando deixou cair o papelzinho na calçada, amassado, com raiva. Coisa feia jogar lixo na rua.

Quanto a mim, não divulgarei também o tal local sagrado da internet. Ele já falou mal de mim lá, de escolher esse nome “infeliz” para o blog, e de como gente desocupada escreve bobagens, quando ele, que se julga pessoa séria e austera, é desprezado tantos por dizer apenas “verdades”. Claro, como é típico, ele acha que essa rejeição é típica daqueles que estão no caminho correto, e que ninguém joga pedra em arvores que não oferecem frutos, e uma série de jargões de auto-incentivo.

Sorri vitorioso quando o motorista não parou no ponto dele - apesar dos “psius” e “ôs” que ganiu, o que lhe obrigaria a andar mais dois quilometros na noite fria e chuvosa. Será que o motorista também conhece o site dele?

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