21 de novembro de 2011

O primeiro "nada"


Por Rob Gordon

— Senhor?

— Pois não?

— Adão na linha dois.

— Pode passar.

— Sim, Senhor.


— Alô?

— Deus?

— Oi, Adão. Tudo bem?

— Tudo, e o Senhor?

— Na correria aqui. Ainda terminando uns ajustes finais no planeta. Mas, fora isso, tudo na minha santa paz.

— Bem, não vou tomar muito seu tempo… Queria apenas alguns conselhos.

— Sobre?

— Sobre a Eva.

— Eva?

— Sim. Acho que tem algo errado com ela.

— Como assim?

— Faz dois ou três dias que ela não fala comigo.

— Mas ela está doente?

— Não, acho que não. Ela apenas não fala comigo. De resto, está tudo normal.

— Mas você já perguntou a ela se há algo errado?

— Sim. Ela respondeu que “nada”. Só isso. Aí, perguntei se eu havia feito alguma bobagem.

— E ela?

— Ela respondeu que “se você não sabe, não sou eu quem vai dizer”.

— Sério?

— Sim. Foram as palavras exatas dela. Disse isso e saiu andando, me deixou sozinho ali.

— Bem… Pelo jeito você fez algo de errado.

— Será? Eu não sei o que possa ter sido. Sabe, se ela me falasse eu poderia tentar consertar, mas ela não dá uma pista. O Senhor não pode me ajudar?

— Como?

— Ué, o Senhor não é onisciente? Eu me lembro de ter lido isso nos panfletos do Paraíso. Onisciente, onipotente e… E…

— Onipresente.

— Isso. Desculpe, eu nunca consigo decorar este. Mas aquela parte da maçã eu entendi bem, pode ficar tranquilo. Enfim, se o Senhor é onisciente, pode me dizer o que ela está pensando.

— Não, Adão. Não é assim que funciona.

— Como não?

— Vocês precisam aprender a conviver com as diferenças entre vocês.

— Mas eu não estou aprendendo nada disso, estou aprendendo só a conviver com ela não falando comigo. Ela mal olha na minha cara!

— Você precisa descobrir o que há de errado?

— Mas o que eu faço? Torço o braço dela até conseguir algo?

— Evidente que não, Adão! Violência não leva a nada.

— Desculpe. Eu só estou sem enxergar alternativas aqui. Mas o Senhor precisa concordar que se ela falasse seria tudo mais fácil.

— Cabe a você resolver isso. É um processo de aprendizado.

— Mas o Senhor pode me ajudar, não pode? Fazer com que ela fale o motivo de estar assim.

— Não posso. Sinto muito.

— Pai! Por que me abandonaste?

— Adão, eu dei instruções claras para que esta frase não fosse usada. Estou guardando para outra ocasião. Está lá no folheto!

— Desculpe. Eu só não aguento mais essa situação. Ela passa o dia todo muda. Eu me sento do lado dela e ela não olha na minha cara. Eu pergunto se está tudo bem, e ela responde que “sim” e fica muda.

— Como Eu disse… Você precisa aprender a entender o lado dela. Tentar descobrir o que a deixou assim.

— Mas ela não fala! Não tem como dar um jeitinho?

— Jeitinho?

— Sim. O Senhor precisou de uma costela para criá-la, certo? Eu tenho a cicatriz até hoje.

— Certo.

- Não tem como pegar mais uma costela e resolver isso?

— Evidente que não.

— Se com apenas uma costela você criou a Eva, aposto que com outra costela daria para resolver isso. Daria e sobraria, aposto. Se o Senhor quisesse, daria para também colocar mais um seio, ou aumentar os dois que já estão lá.

— Oi?

— Certo, esqueça os seios, Senhor. Eu estava pensando alto. Desculpe. Mas sobre ela não falar comigo… Isso dá para fazer, não dá? Eu dou uma costela.

— Não.

— Eu tenho um monte de costelas ainda!

— Não importa.

— Um dedo, que tal? O que dá para fazer com um dedo?

— Adão, chega.

— Desculpe. Eu apenas não aguento mais. Faz três dias que a mulher não fala comigo! Minha paciência está acabando. Eu não sou Jó, sabia?

— Como assim? Como você conhece Jó?

— Ah, são aqueles adruceus que moram nas árvores perto da minha caverna. Eles que me contaram.

— Mas como eles sabem disso?

— Parece que, antes de descerem para a Terra, conseguiram uma cópia do roteiro da história do planeta. Ficam soltando spoilers para todo mundo. Já falaram de Noé, de Moisés… Aliás, achei bem bacana aquela história do mar se abrir.

— Adão, é o seguinte. Esqueça tudo o que os adruceus falaram. Nada disso é verdade. Esqueça isso. E não conte para ninguém. Certo?

— Certo.

— Volte para a caverna e tente conversar com Eva.

— Impossível. Ela não fala comigo.

— Dê um jeito, Adão. Admito que você foi criado há menos de dez dias, mas você não é um menino. Aliás, você nunca foi. Desça lá e resolva isso, se entenda com ela.

— Mas, Senhor…

— Encontre um jeito.

— Certo.

— E não se esqueça de que as maçãs…

— Não devem ser comidas. Eu sei.

— Algo mais?

— Não, Senhor.

— Certo. Boa sorte, Adão.

— Obrigado.

É, Adão. Achou que a vida seria um eterno You Make My Dream Come True? Pfff
Aquela noite, o Paraíso foi palco de uma enorme agitação.

Todos os animais ouviram a gritaria que vinha da caverna de Adão e Eva. E todos se assustaram quando Eva saiu da caverna, aos berros, jogando para fora todas as coisas de Adão — que, na verdade, não eram muitas, somente duas folhas de parreira — que tentava convencê-la a falar o que estava errado para que ele pudesse fazer algo a respeito.

Assim, Adão dormiu ao relento, sozinho. Observando as estrelas, parou de se questionar o que poderia ter feito de errado e começou a se perguntar em quanto tempo a TV a cabo seria inventada.

E, com toda esta confusão, ninguém reparou que os adruceus desapareceram completamente, tornando-se a primeira espécie extinta da história, caindo no esquecimento.

Deus detesta spoilers.

Vi esse texto do Rob Gordon no Papo de Homem

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