4 de dezembro de 2011

Homens como árvores: a necessidade de um segundo milagre

por Zé Luís

Então, trouxeram mais um cego para que o Mestre o curasse. Desta vez, era na cidade onde nasceram três de seus discípulos, Pedro, André e Felipe. “Casa da Caça” ou “pesca” era o significado em hebraico para Betsaida, nome daquele lugar (Marcos 8, 24).

O Mestre leva o cego para fora daquele lugar, além dos muros, e faz com que suas retinas se restaurem apenas com a saliva de um cuspe.
-Ficou bom?
-Ah, sim! Vejo homens-árvore andando...

Uma crença – errônea - sobre milagres é que eles são capazes de, de uma vez só, resolver todos os problemas do mundo, uma mágica capaz de refazer caráteres e traumas. Certa vez, o Cristo curou de uma vez só, dez leprosos, gente excluída daquela sociedade, mandando-os apresentarem-se aos sacerdotes para que confirmassem suas curas. Apenas um fez o que era para para ser feito: antes disso, agradecer o milagre recebido, já que estava diante do próprio Deus e reconheceu que prestar louvores diante da presença do próprio era um privilégio único. Apenas um fez isso, o resto seguiu os preceitos da Lei, alheios ao que tinham perdido entre sua cura e a caminhada até os sacerdotes.

Certamente, um milagre não foi capaz de gerar na alma daqueles – então – ex-leprosos, o sentimento correto de que, além da Lei Mosaica, existe a Graça curadora, recuperadora, e a ela deve-se todo o reconhecimento.

Não me lembro de ouvir Deus perguntando a nenhum outro sobre os efeitos milagrosos de suas curas. Ele sabia que, naquele homem, a coisa tinha acontecido de uma forma diferente, e fez questão que aquilo fosse sabido por quem estava a sua volta. Prevera isso.

Qualquer oftalmologista ficaria embasbacado diante de um cego ter suas vistas recuperadas com cuspe santo, e estaria mais que satisfeito, mesmo com a pequena distorção do paciente, que pensava ver pessoas com cabeças iguais a copas de árvore (quem sabe não fossem elas cabeçudas mesmo, não é verdade? Ou até usassem blackpower? Vai saber...).

A verdade é que os milagres feitos por Deus não tem um padrão; em certos casos, ele leva o abençoado ao centro das atenções, como no caso da cura de uma mão mirrada. Nesse caso, ele leva o cego para fora dos olhares, além dos limites das habitações – numa cidade que já tinha visto isso acontecer. O que ia acontecer com aquele homem era para ser visto apenas pelos íntimos.

Jesus usava seu poder para ensinar, e ensinava através da simplicidade com que fazia seus milagres. Seus alunos precisavam entender que poderia haver a necessidade de se aplicar mais de Seu poder.

Isso pode parecer estranho, mas as conversões acontecem em um processo de restauração impressionante, o que não impede que o indivíduo curado perca a liberdade de escolher entre estar ou não envolvido em sua caminhada para seu próprio aperfeiçoamento. Muitos, bem antes que a visão seja devidamente ajustada, saem pregando desembestadamente, com microfones falando em alto-falantes por todo o país, contando a todos como Deus os fizeram ver quão belas árvores são capazes de ver como homens.

Quantas bobagens se ouvem de gente honesta, bem intencionadas, mas que saíram pela estrada sem compreender de forma plena a simplicidade do Evangelho, faltando-lhes ainda o entendimento. Paulo mesmo alertara sobre a inviabilidade de envolver os “neófitos”, recém-convertidos, nessa tarefa. Ele mesmo, fariseu conhecedor da Lei, escolheu passar três anos de aprendizado, antes de iniciar seu ministério em nome de Cristo.

Existe a necessidade de reconhecimento e confissão que algo pode não estar nos conformes e aceitar que um novo milagre seja feito sempre que necessário, independente de que forma – até espúria – Deus escolha para fazer. Certamente, ninguém em são juízo, poderia aceitar que um homem esfregasse saliva nos olhos, ou seja lá o método reprovável que escolhesse diante daqueles que assistissem (não serei eu o idiota a querer por regra para Deus seguir, dizer para Ele como proceder para ter uma melhor publicidade).

É importante lembrar que tem visão pode identificar se a visão restaurada está ou não equalizada com a realidade. Distorções a longo tempo podem estragar todo um ministério.

A história conta que aquele homem recebe então um segundo milagre, tendo sua visão equalizada com a realidade, vendo o que qualquer um é capaz de enxergar. Só então estará apto a contar o que nenhum homem é capaz de imaginar: que Deus encarnou como homem, saiu a fazer sinais e maravilhas no meio de um povo no qual prometera vir, e sacrificou-se para poder salvar pessoas que não mereciam, gente sem visão e até mesmo alma.

5 comentários:

  1. Esse texto me fez lembrar um sermão do rev. Caio Fábio há 16 anos atrás.

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  2. Quem sou eu, Renata. Quem sou eu...

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  3. Esse texto me fez pensar muito, como sempre!

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  4. Paulo começou a pregar depois de três dias e não três anos.Deus abençoe

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  5. Verdade Renato. Não me expressei bem.

    Ele não era muito bem aceito quando começou, não é verdade? Havia resistência e uma necessidade de afastamento.

    Queria responder-lhe isso ainda hoje, mas estou sem tempo para lhe fornecer as referências. Em contra-partida, encontrei esse link aqui que explana melhor o que quero mostrar. Lá possui as referências.

    http://www.vivos.com.br/165.htm

    Obrigado pela visita.

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