17 de dezembro de 2011

Lixo no Paraíso: uma parábola

por Zé Luís

"...E disse Deus ao jovem casal, que tinha uma vida inteira pela frente, com a perspectivas de viagens, passeios, conhecer praias e catedrais, poder absolver o conhecimento dos séculos e universos, e ter todo o prazer que um casal que se ama pode proporcionar uma ao outro, livremente:
-De todo o prazer que se puder proporcionar a suas vidas, usufrua, mas não prove da fonte que altera o centro intelectual e nervoso do seu corpo, o cérébro. O que fizer isso, certamente morrerá...

A vida ia bem naquela pacata e pequena familia que se formava, até que um dia, o diabo, sempre ele, resolveu botar areia no angú daquele casal, a quem Deus escolheu abençoar. Trabalhou - o diabo -  cedo na cabeça de um moço, sugerindo ideias  - de dia e de noite -  que justificavam a venda do fruto que aquela árvore proibida gerava, até que então,  o moço incorporou as ideias do maligno e começou a vender aquele lixo. Não chamavam-no serpente: alguns diziam "patrão", outros  “chefe da boca”, e a polícia se referia a ele como "traficante".

Simpático e bem apessoado, se aproximou de um deles (se era Eva ou Adão não interessa no caso) e disse:
-E aí? Quer dar um peguiha?
-O que vem a ser isso? - perguntou Adão, ou Eva, tanto faz.
-Uma parada da hora! Experimenta! - ofertou o diabo, pela boca do, então, perigoso moço.
-Mas o que isso faz? - questionou um do casal.
-Faz vocẽ ficar bem louco... ver o mundo de outra perspectiva, dá um novo entendimento da Existência...
Adão, ou Eva, independente de quem foi, recuou:
-Mas isso é do fruto que altera o centro intelectual e nervoso do seu corpo, o cérébro? Isso me matará!
-Conversa de Deus, morre nada. Que ver? Pode dar um “tapa”, vai fundo. Tenho cara de quem mente? Dá uma baforada, segura a fumaça e espera a sensação... põe a boca no cachimbo... traga... Tu vai perceber que esse Deus acha que só Ele pode lidar com nossas almas. Um novo mundo vai se abrir, tenta aí... tá sentindo? 

E com um dialogo mais ou menos assim, Eva – ou seu marido, tanto faz – fumou crack pela primeira vez. Percebeu o outro conjugê,  o que ainda não tinha usado, que seu parceiro parecia feliz, satisfeito de uma forma nunca dantes vista, e por isso, animou-se a experimentar pela primeira vez no paraíso (o que deixou de ser paraíso na mesma hora e transformou-se em ruínas), tinhamos um casal “noiado”.

Quando Deus apareceu para ver suas criaturas protegidas, sentiu o cheiro do veneno e percebeu tudo: como é comum no crack, os dois se viciaram nunca única dose, e teria um longo caminho até conseguir - se conseguissem – restaurar aquelas vidas:
-Adão? Eva? Por que estão se escondendo de Mim?
-Ô Paizão! - disse Adão. “Nóis tamo muito louco” e não queriamos que o Senhor nos visse nesse estado.
-Como sabem que estão em estado de loucura? Beberam da fonte proibida? 
Perguntou Deus ao que usou por último:
-Quem foi que te obrigou a isso?
-O conjugê que tu me deste! Fez-me errar... - tentou empurrar a culpa.
Deus então foi ao outro:
-E quem te trouxe isso?
-O patrão, meu bom Deus... ele disse que era de graça... o moço simpático e convincente que nos convenceu. Ele disse que você não fora 100% sincero...

Deus sabia que o diabo tinha feito seu trabalho, mas o casal não. Deixaram a infelicidade entrar, mesmo quando sabiam que infringir uma regra simples do Criador não seria ruim para Ele, e sim para quem a infringisse.

Muitos pensam que Deus os amaldiçoou depois, mas no exato momento que experimentaram “o lixo”, se amaldiçoaram, viciaram-se irremediavelmente. O casal tornou-se como zumbis, vivendo para o fruto da fonte, se acabando gradativamente, até que a tal morte prevista os consumiria definitivamente. Diga-se de passagem, em determinado ponto da vida, ele desejaram profundamente essa morte, como se deixar de existir fosse solução para resolver a Vida. A morte nada tem haver com ela.

O traficante-serpente foi amaldiçoado, e nunca se aposentaria, vivendo para morrer pela sua fonte de renda, levando as mortes pelo tráfico em sua história de vida. Nunca dormiria em paz, nunca se livraria dos corruptos e dos invejosos, igualmente seduzidos pelo engano do capeta, fazendo com que vivesse de comer do pó da terra, tornando-se sistematicamente seres temidos, sem jamais encontrar paz em sua curta vida por esse mundo. Tudo porque, em nome do benefício próprio, ajudavam a perversa roda do sistema social continuar destruindo famílias, quando viciavam seus membros e implodiam suas existências."

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