29 de fevereiro de 2012

Assuntos desagradáveis

por Zé Luís

Conta-se que o peixe não sabe que passa a vida imerso.

A imensa maioria de nós não se dá conta das piores causas de nossas aflições, mesmo que alguém nos esfregue na cara, mostrando toda a nocividade que tal coisa é capaz. Nós simplesmente damos de ombros e continuamos a viver nesse imenso “Matrix”.

Certa vez, homens perdidos, buscando não se submeter mais aos ataques divinos, resolveram construir uma torre (os antepassados desses tinham escapado de um dilúvio haviam poucos séculos) e retornar ao céu, sem a necessidade de se submeter às vontades de Deus.

Mas nesse caminho, as línguas se confundiram, ninguém se entendia: a trilha que todos buscavam trilhar pela torre não conseguia mais ver o outro como um igual, mas alguém a ser vencido, criando para si mesmo um idioma próprio a ser seguido pelos outros. O problema é que este raciocínio foi simultâneo, e todos os outros foram afligidos do mesmo mal: seus egos se agigantaram de tal forma que eram incapazes de discernir a voz do próximo, e a vontade coletiva que era a verdadeira força de seus feitos.

Daquele tempo em diante, conheceram o individualismo, e a necessidade natural de uma sociedade que existe para um indivíduo buscar ser mais que o outro.

Na saída de meu trabalho, onde existe um acesso único, é comum que diversas pessoas se ajuntem no final dos cursos ministrados no mesmo prédio, em outro andar. Cada um quer dizer o quanto aprenderam, o quanto são superiores, mostrar como suas origens são interessantes, e como são necessários para uma relação relâmpago. Os complexados precisam de atenção, e mostram sua tristeza para que ganhem o tempo do outro com suas histórias melancólicas de vítimas da vida.

Nem percebem que aquele lugar que concorrem, a passagem de acesso ao prédio, não é lugar para formar estacas e fazer discursos acalorados e apaixonados sobre si mesmos, ali todos precisam transitar, mas um aglomerados de egos individuais é incapaz de entender isso.

Mas eles estão em todos os lugares: estão no escandâlo que a criança faz em seu choro sentido, por querer demais a coisa tola de outra criança e não poder tê-la, está no motorista que se irrita se alguém tenta ultrapassá-lo ou mesmo no que anda bem devagar quando todo o fluxo necessita que ele se ajuste e acelere, no adultero que não abre mão de se seus apetites, sem se importar com a dor que a amargura que causa quando promete mentiras, está no eu que justifica qualquer maldade, qualquer atitude contra um semelhante, desde que isso mate a fome do universo que orbita em volta do seu umbigo. Reside eternamente na substituição do amor ao próximo pela auto-destruição de viver em prol de si mesmo.

Todos só conseguem entender que só existe um único pão para ser perseguido e conquistado.

A necessidade de falar um único idioma só é possível quando abdicamos do pão, e isso só é possível quando esse desejo é incontinente, e nasce dentro de um encontro precedido de conhecimento desse Ser e a criatura que o encontrou. Claro, queremos ser esse “ser” melhor com nossas próprias forças, mas isso jamais dependerá de nós, por mais que nos pareçamos com o que julgamos ser santo.

Por isso é tão estranho quando ouvimos histórias sobre crentes violentos, agressivos no trânsito. agindo como se Deus nunca tivesse nascido em suas vidas. Eles lutam pelo pão quando já sabem que para tê-lo, é necessário compartilhá-lo. O Mestre já mostrou que o problema nunca será pão, já que não viveremos só desse sustento.

O ego-centrismo, o ego-ísmo, a soberba que alimenta o “eu” que insiste em ser mais que os outros foi 'vencido na cruz. Por isso é importante que Ele cresça, e que, se conveniente ao Pai, que nós diminuamos. Por isso o Pai é nosso, e não apenas meu.

Não existe um cristão que não precise viver em uma comunidade.

5 comentários:

  1. Tudo q sentimos e sabemos e não sabemos expressar.
    Agradeço a Deus pela sua vida pq consegue expressar e publicar o pensamento de muitos !!!!

    ResponderExcluir
  2. PoiZÉ...

    Gosto dessas tacadas do cotidiano.

    As pessoas vivem numa eterna autoafirmação que, ao meu ver, parece mais com necessidade de ser amado. A vontade de ser visto, respeitado, enfim, valorizado, as levam a dizer e fazer coisas estranhas que na verdade não passam de um gritante apelo para que não as tratem com indiferença e desamor. Irônica e paradoxalmente, estas pessoas findam por afastar-se porque não têm humildade. Estes precisam, urgentemente, experimentar do Amor que cura essa terrível doença chamada rejeição que se expõe como arrogante muro que os separa dos demais.

    Abs (que não é freio)

    R.

    ResponderExcluir
  3. sempre fui sozinho pq todas as vezes que precisei a ajuda me foi negada então resolvi me isolar para não sofrer mais do que sofro

    ResponderExcluir
  4. Olá anônimo.

    Você só foi acolhido de braços abertos pelo sistema desse mundo.

    O inverso disso é o que os cristãos denominam "conversão".

    Longa história...

    Grato pela visita.

    ResponderExcluir