28 de junho de 2012

7 reflexões sobre o mesmo trecho: Os dois fundamentos

por Zé Luís

Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a casa sobre a rocha. (MATEUS 07:24)
Quantas reflexões cabem em um mesmo trecho, que tem como título - em algumas bíblias – “Os dois fundamentos”? Abaixo, uma pequena lista com 7 tópicos, baseados no que nos revela o Mestre no Sermão da Montanha.

1. As escolhas são: ou resiste ou desmorona.
Existe sim dias ruins, e fingir que eles não acontecerão é fingir que não enfrentaremos o destino de todos os homens, seja agora, seja daqui há décadas. Nos dias dessas tormentas, das ligações de madrugada nos trazendo a notícia que nos mudará a vida, vermos, finalmente, nossos amores partirem, e por serem amores, nos partir a alma em cacos, ver-se desempregado, a doença, o vício, a violência, as desavenças, o roubo, a possibilidade de tudo isso atingir nossa casa... onde estarão seus pés firmados quando a tempestade vier?
Nesse momento, muitas filosofias e religiões adestradas, entendimentos e compreensões familiares, serão postas a prova, e algumas delas até ajudarão durante algum tempo ou em algum ponto. Mas a intensidade da tempestade, sua duração, deixarão em pé apenas os que construíram sua estrutura humana através do que foi ensinado momentos antes dessa declaração. O que nos leva a outro tópico:

2. O contexto não está no texto, mas no que antes se pronunciou, no “conjunto da obra”:
Muito se ouve sobre a necessidade de “estar em Cristo”, mas pouco se fala sobre inserir-se nisso, e muito menos a prática dessas coisas – considerada por muitos – utópicas, acima da capacidade humana.
É a partir de tudo que foi dito que se deve estar os fundamentos de sua vida: perdoar, desafiar o mal com bem, não abrir mão dos amores da juventude pelas aventuras do presente, a busca da justiça na partilha do que se tem... e tantas outras coisas que vão contra o egoísmo tão em moda nos dias de hoje.
Egoísmo esse, tão difundido como solução para o “eu” que poderá alcançar o topo da torre de Babel não resiste também às pancadas de chuva que a vida trás. Ele esquece que nossa memória, nosso vigor, nosso tesão, nosso raciocínio...tudo isso falha sem que possamos fazer absolutamente nada. O sermão da montanha não omite isso. Para se entender a que fundamento o Mestre se refere, é necessário conhecê-lo. E não nos referimos aqui em saber que só existe dois fundamentos, mas de que material esse fundamento é feito.

3. O poder de Deus em seu ensinamento está para os dias de crise, independente da profundidade:
Já preguei em eventos ao ar livre, em cima de um caminhão, que fechava a rua, tinha um microfone e auto-falantes. Concorria meu público com que tipo de coisa? Pipoca, refrigerante, milho verde, hot-dogs, servidos pela igreja. Isso sem contar com o churrasquinho promovido por um vizinho, que -pelo menos esses – assistiam meu sermão enquanto bebericavam suas latinhas de cerveja, sentados em suas mesas improvisadas, balançando seus chinelos de couro.
Não. Ninguém estava preocupado com o fim das coisas e de como a Salvação do Mestre é redentora com a vida daquele que se entregava a Ele. Aquele refrigerante barato e sem gás conseguia ter mais atenção do que a Palavra que eu pregava (talvez fosse o pregador, admito).
Mas houveram dias em que consegui atenção suficiente: certa vez, quando o filho de uma amiga morreu, assassinado pela polícia após causar pânico em uma casa que assaltava. Exponho dessa forma para que se saiba que não existem inocentes nessas histórias, e naquele dia, nas profundas trevas da tristeza de ter perdido um filho, a única coisa que ela precisava era luz, e recebeu-a, e consolou as lágrimas abundantes.
É natural que procuremos lugares firmes quando a enchente começa a fazer boiar carros e casas. Não procuramos esperanças vãs, ou quem tenha uma piada hilária, desejamos pessoas que não sucumbem às ondas escuras da vida, e coincidentemente, elas estão Nele.

4. Dias da dor: ótima oportunidade
A pergunta que não cala: como saber se sou um cristão? A resposta não está na forma de se vestir, nem no vocabulário – ou seria dialeto – utilizado por aqueles que frequentam essa ou aquela denominação religiosa. Não: aquelas medalhas que você conquistou na Escola Bíblica não terão importância, ou mesmo seus constantes estudos, reflexões, suas pregações capazes de mover céus e terra. Nada disso.
Mas poderão identificar isso através de sua postura nos dias em que abismos chamam outros abismos, quando sucessivos problemas ocorrerem. Se houver amor, haverá dor, lágrimas, como convém àqueles que tem seu sistema emocional saudável,mas não haverão desistências.
Ele, o chamado cristão, saberá do que a vida é feita, e onde este mundo jaz, não se iludindo com o luxo – feito de limbo – que algumas coisas parecem prometer pela sua grandeza. Sabe que o mundo é um lugar de dor, não fosse isso, Cristo não precisaria nos pagar resgate algum, apenas nos deixaria encontrar - por nós mesmos - o segredo da alegria sem limites, do prazer satisfatório a base de carne e sangue, entre setenta por cento de água, e o restante de minerais.
Não. O cristão – o que imita o Cristo – conhece o sermão e o prática gradativamente pela caminhada...

5. Só conhecer não!
Conhecer e manejar a Palavra. Conheço gente boa nisso: dominam hebraico, conhecem as mais diversas versões (incluíndo o latim), sabem de hermenêutica, homilética, a História, os manuscritos, os apócrifos, os concílios, os grandes pregadores, as reformas, os grandes teólogos da antiguidade e da atualidade. Quantos grandes pregadores, com seus discursos capazes de emocionar o mais vil dos assassinos...
Mas releia o versículo: Os que ouvem minhas palavras...e as PRATICAM... O Mestre é um Deus prágmático: só conhecer o local exato, o capítulo e o versículo onde falou-se sobre perdão e ser incapaz de práticá-lo não enquadra ninguém na firmeza de caráter prometidas nesse trecho. Na verdade, muitas tempestades são provocadas por nós mesmos, mesmo quando decoramos cada um dos Evangelhos e recitamos sistematicamente as cartas do Apóstolo Paulo. Se existe um alerta sobre o amor ao dinheiro, mas não procuramos abandonar essa paixão, o ensinamento fica na teoria. Se falamos sobre amor, mas não amamos, falamos em sacrificício, mas nem de perto queremos praticá-lo, somos cristãos apenas em teoria. Jesus não supõs morrer numa cruz, se necessário. Ele se entregou a ela.

6. E os outros entendimentos?
Existe apenas um “norte” em cada bússola, mas existem milhares de bússolas. O problema é que vivemos com gente capaz de garantir que suas bússolas estão igualmente corretas, mesmo quando elas apontam para as mais diversas direções, ou quando elas apontam para o norte, mas optam para o sul, ou leste, quando lhes convém.
Um instrumento como esse jamais poderá ser usado como guia em uma jornada, Jesus se entitula “o norte”, a “estrela da manhã”, “o Caminho”. Não "UM Caminho"...
O que fazer então com tantos outros caminhos aparentemente tão promissores quanto os Dele, e sem todo esse papo deprimente sobre sangue, calvário, dor, morte eterna, danação do inferno?
Certa vez, diante de uma declaração difícil de Cristo sobre a necessidade “canibal” para ser discípulo (pelo menos foi isso que os mesmos entenderam quando Ele declarou ser o “pão” e eles terem que comer seu corpo, o que para um judeu, era blasfemo) restaram bem poucos desses. Ao que Cristo questionou a permanência daqueles poucos, Pedro respondeu:
-Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna.
Pedro já esboçava revelações do Espírito: não há como compreender isso sem esse Espírito. É nisso que se firma os que Nele estão, os que não estão Nele, simplesmente, estão fadados a não suportarem às imensas enxurradas que a vida trás.

7. Dois fundamentos?
O título comum dado ao trecho, na verdade, não tem muito sentido, se visto que, na verdade, existe apenas um fundamento válido, o que mantém as coisas nos lugares, apesar do que vier a acontecer. O que resta, todas as outras filosofias imagináveis, independente da elaboração. Lembrando : Filosofia (do grego Φιλοσοφία, literalmente «amor à sabedoria») é o estudo de problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, à verdade, aos valores morais e estéticos, à mente e à linguagem.
Apesar de todo esse fundamento ser profundamente elaborado, é insuficiente diante do que a vida reserva. Apesar do numero de admiradores e pregadores dessa ou aquela solução, nos momentos necessários, prevalece a velha máxima ditada em um monte qualquer de Jerusalém, há 2000 anos, recitada em hebraico, com forte sotaque galileu, entre gente que não podia imaginar que estava diante de um sermão que seria contado e recontado, e jamais superado.

Creio que ainda existam centenas de outras reflexões possíveis, já que o mesmo livro que as contém afirma que elas se renova, a cada dia. Quem sabe você tenha sua lista? Sinta-se a vontade para compartilhá-la.