2 de junho de 2012

"Seja perfeito." - disse Jesus. Isso é possível?

por Zé Luís

 Mt 5,43-48. “...Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito.”

Como músico – amador e relapso, confesso – deparo-me sempre com amigos com a mesma paixão, e tal amor faz com que alguns busquem certa maestria em tudo que se propõem a realizar em seus instrumentos. O que vou dizer pode parecer uma heresia, mas certos perfeccionistas me irritam. Sua mania chata de repassar incessantemente uma música até que os mínimos detalhes do solo da primeira estrofe alcance o feedback idêntico ao do guitarrista mais difícil de copiar, gente - muitas vezes pensando realmente que tem um ouvido e técnica apurada suficiente para corrigir outro músico – faz cara feia diante de um acorde com dissonância diferente, como se realmente soubessem qual das notas foi tocada errada ou em que módulo grego ou tom a escala foi efetuada.

Estes esperam realmente alcançar a maestria, a excelência de executar seu instrumento com a perfeição que esperam, julgando – intimamente – serem superiores ao restante dos mortais que buscam esse propósito (mal sabem que músicos de verdade não agem dessa forma).

O problema do perfeccionismo é a busca de algo inalcançável, o domínio de algo de forma completa, plena, inerrável, acima do que qualquer outro mortal seja capaz de alcançar. Esse era desejo do anjo caído, quando buscava ter um domínio universal maior do que o Criador do mesmo, um trono a ser colocado acima do que está posto: a busca humana da escalada de Babel para alcançar o céu através do próprio esforço, sem a necessidade de recorrer a Deus para entrar no paraíso.

Crê-se que só os melhores construtores de torres serão capazes, só os perfeitos alcançariam os céus sem a necessidade de um deus qualquer que os guie. Perdem-se em sua busca, sem condições de um raciocínio lógico que faça-se compreender, ou mesmo falar a mesma língua com os que tem o mesmo propósito.

Mas daí, o Mestre pede algo – aparentemente - contraditório: quer a busca da perfeição, perfeição esta semelhante a de Deus.

A questão aqui são os critérios.

Gosto de banana: nanica, prata, maçã, ouro, da terra... Como com comida, no feijão com arroz, e há quem faça careta quando deixo uma nanica boiando na sopa e tomo-a junto com fatias da fruta. A prata está perfeita quando a casca fica bem amarela, embora quando os pontinhos pretos se espalhem, mostrando um amadurecimento, ela mostra mais doçura quando consumida.

Uma fruta perfeita é uma fruta que não apresenta danos a quem a consome, ela cumpre seu papel e, de forma deliciosa, alimenta quem a procura.

Antes do Cristo pronunciar esse decreto em seu Sermão da Montanha, ele pede para que perdoemos nossos inimigos. Pior ainda: que os amemos.

Um erro comum e letal é não reconhecer essa realidade: você tem inimigos, e caso não os reconheça, eles são mais perigosos do que imagina.

Reconhecido o terreno onde trilha, como cristão, tem como segundo passo – e o chocante reconhecimento desses tais em nossa vida torna essa tarefa amarga e ingrata– é perdoá-lo, chegando ao ponto de amá-lo, ter a chance de envenená-lo e não fazê-lo, desperdiçar a chance de retribuir a maldade, abrir mão de puxar o tapete de quem vive te dando rasteira.

Por mais que se viva, não alcançaremos a excelência espiritual, mesmo que se passe decorando a bíblia, pregando aos necessitados, fazendo caridade, e se entregando para sacrifício em nome da fé.

Paulo dizia que nada disso sem amor teria sentido.

Ora: se amo meus amigos, e também meus inimigos, alcancei a perfeição de Deus, já que não falta mais ninguém a amar.

Se o poder de meu inimigo não é suficiente para me impedir de não desistir dele, alcancei perfeição, mesmo com meus acordes desafinados e minha voz esganiçada cacarejando ao fundo um louvor mal escrito.

Um passeio pela montanha, enquanto o sermão dele se renova nas mesmas palavras - mas em um entendimento renovado, nos dá o mapa da perfeição de Deus, cumprir o propósito destinado, de ter o gosto certo da fruta criada, a doçura na maturidade alcançada pelo amadurecimento do tempo e compreensão daquele que aprendeu da boca do próprio Todo Poderoso a ser perfeito como Ele mesmo o é e quer que sejamos.

Um comentário:

  1. PoiZÉ...

    O desastre total e absoluto se dá quando se tenta essa perfeição pelo caminho da pretensiosa doutrina religiosa permeada pelo vício detestável das performances pseudo-piedosas.

    E isso acontece justamente porque o religioso que assim procede não se vê capaz de perdoar inimigos. Simplesmente por não ter essa disposição no coração que você bem define.

    Abs,

    R.

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