12 de junho de 2012

Serpente: um dia bela, um dia vil

por Zé Luís

Ela nem sempre foi asquerosa, repulsiva, fria, rastejante.

Quando satanás colocou seu plano em prática no Éden, escolheu bem seu elenco: Ele tinha uma meia verdade (o que nada mais é que uma mentira) e precisava de alguém que transmitisse segurança: uma boa imagem é bem dificil de resistir. Por isso, o portador da queda era o ser não-humano mais astuto que aquele paraíso oferecia.

Ela, a então bela serpente, sondou o terreno, não foi direto ao que recebera a instrução, mas na companheira dele:
-Você não pode comer do fruto-da-árvore-do-conhecimento-do-bem-e-do-mal?
-Nem comer, nem tocar (esse último foi por conta da primeira mulher, Deus não falou nada sobre tocar...).
-Por que?
-Simples: seremos aniquilados, uma tal de Morte nos alcançará... já ouviu falar dela?
-Ele não quer é que vocês, humanos, feitos a Sua imagem e semelhança, sejam como ele, portadores dos dois lados do conhecimento, saibam sobre o bem e o mal.

Ali, a queda se desenhou: não uma simples ingestão de algum fruto de nome enorme, que tinha um gosto bom, e que cumpria o que prometia. O problema estava também em alguém conseguir que Deus mentiu. O casal estava na presença Dele e era conhecido em seus passeios no fim de tarde.

Aceitar a mentira veio pela necessidade de ser maior, a ganância de querer atingir não apenas a imagem e semelhança, mas ser mais um deus, uma criatura recém-criada ambicionou ser da turma dos criadores dos universos, como se houvesse espaço na existência para um segundo Todo -poderoso.

Assim eles conheceram a morte: não através do sexo, ou da forma inapropriada com que praticavam sua higiene pessoal. Morreram por crer que Deus mentia.

Nada daquela deliciosa sensação inicial de imaginar-se capaz de saber lidar com qualquer situação inimaginável, de querer sentir brotar o poder que emana em todo Universo. Nada sobreviveu quando descobriram sua vergonhosa nudez de espírito morto.

Aquilo que um dia foi esplendoroso tornou-se símbolo de mal-estar, tristeza, derrota eminente e homérica. A bela serpente, agora réptil peçonhento, era símbolo de morte.

As quedas fazem isso: tudo naquele dia de “pratos na mesa” levará um gosto amargo na memória: mesmo o mais predileto dos pratos, o filme mais assistido, a música mais apreciada, a partir daquele dia, se usado no momento fatídico, fará parte do cenário mais doloroso de sua existência.

O mais astuto e belo é condenado por permitir ser usado para, o que será, a maior tragédia de todos os tempos e universos: o dia em que o homem começou a morrer, sem esperanças , vivendo em seus pequenos universos miseráveis, falidos, até que o bote salva-vida fosse lançado.

Sim. Aquela festa regada a todos os prazeres imagináveis e felicidade ilimitada por um curtíssimo espaço de tempo te trouxe até aqui, onde vivemos atolados em um destino trágico, líquido e certo, mas mesmo assim, permanecemos na arrogância de julgamo-nos ser suficientes, deuses em nosso mundinho

Você sabe que bote salva-vidas é esse?