6 de agosto de 2012

”Ele é café-com-leite”

por Zé Luís

Quando criança, nas brincadeiras de rua com os outros meninos, pega-pega, esconde-esconde, pelada, onde o único gol da partida era o pobre portão de uma garagem de algum vizinho chato que não ficava em casa... sempre havia aquele irmão menor, aquele chatinho filhinho-de-papai que não entendia as regras, mas por insistência de seus genitores, querendo integrá-lo entre os outros garotos da rua, acabávamos inserindo-o na brincadeira, embora ninguém contasse realmente com a efetividade das participações desses componentes. Não se pode levar a sério um café-com-leite.

Quem não teve que parar uma partida ou outra para que o café-com-leite viesse e chutasse uma bola no gol, sem goleiro, e assim, conseguisse marcar seu tento, debaixo do olhar compassivo dos outros garotos que aceitavam aquilo para se livrar do problema.

O “CCL” - é assim que o chamaremos a partir de agora – parece não se importar com a ridícula situação de não representar nada para a competição ou não ser digno de ter o respeito daqueles que estão juntos, suando para conseguir seu espaço. El quer estar inserido a qualquer custo, mesmo sem representar absolutamente nada, isso quando não atrapalha.

Mesmo hoje, boas décadas depois, ainda os vejo, personificados em tantos lugares: são aqueles funcionários que, por terem um parente de alta patente numa empresa, conseguiram um cargo onde qualquer mortal comum teria que mover terras e mares para conseguir. Ele, normalmente, acaba tendo o trabalho feito por outro, um fantasma desconhecido, mas que todos sabem que jamais poderá entrar de férias ou mesmo doente. O CCL não conhece serviço, e todos seus colegas sabem bem, inclusive o patrão que o contratou...mas você sabe, deixa pra lá: ele é CCL.

Na escola ele são os que fazem trabalhos em grupo, e sua única contribuição é assinar junto do pessoal que botou a mão na massa e produziu a tarefa. Mais cedo ou tarde, durante o curso, o CCL fingirá que não quer passar a vida assim, mostrará certa intenção – nada convincente - em fazer algo efetivamente válido, mas todos sabem - os professores, os colegas de classe - que não dá para levar a sério, ele é CCL: está ali apenas para completar seus estudos, por um outro propósito misterioso que ninguém jamais consegue saber qual. Quem sabe em um futuro incerto, onde ele deixará de pegar carona no trabalho alheio e pensar na árdua tarefa de fazer as coisas por si mesmo?

Como músicos, se contentam com meia dúzia de acordes, dois ou três compassos básicos, atrapalham mais do que ajudam, tornam qualquer ensaio improdutivo. Não são músicos, mas como tem algum familiar ali, ou teve sua importância em algum momento da formação de uma banda – que todos sabem que não vai decolar mesmo – aceitam-no assim mesmo. O duro é quando o CCL cisma de querer se destacar, cantar mais alto que o solo, ou fazer aquela apresentação de guitarra dentro do que se propôs a aprender, há anos (algo que o satisfez, quando esboçou um esforço de aprendizado mediano, quando tentou ingressar numa escola de bairro).

Se estão nos esportes, participam para fazer volume: mais um a ser vencido, nem liga, são medianos, desculpem... medíocres mesmo, e vivem bem assim. Faltam nos treinamentos, não se preparam adequadamente, mas vivem sonhando com medalhas, com reconhecimento, com lugares nos podiuns conquistados pela “equipe”.

Como crentes, são terríveis. Os CCL são conhecidos como “Crente 6 horas”: é só ter um culto de oração que o bilhetinho com pedido chega: “Cêis ora pela minha mãe? Cêis ora pelo emprego?”... Não entendo qual o problema com os joelhos deles, já que quando precisamos falar com Deus, basta-nos dobrá-los e entrar em contato pessoalmente.

O CCL na igreja quer fazer parte, mas não pelo o usual – e as vezes, tortuoso, é verdade – caminho indicado pelo Dono da igreja, aquele onde se busca intimidade com Ele para conseguir ouvir Dele onde - e quando, e como - é nosso lugar no Reino. Não: CCL que é CCL faz amizade com a liderança, fala de seu currículo com o pastor, se mostra prestativo para pregar, mesmo não tendo muita noção da Bíblia (claro que não é muito dado a estudos bíblicos, prefere as pregações prontas). Mas não se iluda: logo abandonará essas convicções iniciais, vendo que algo está errado em seus esforços: mal sabe que as coisas dentro da igreja funcionam de forma diferente, que se conseguem cargos, mas não ministérios. Que se engana membros, mas não ovelhas.

Quantos CCL acusarão outros por seus fracassos, sem jamais, em momento algum, parar para ouvir o sussurro gritante do Espírito? Claro: se ouvisse o que tinha que ouvir, e além disse obedecesse, não seria um CCL... não mais.

Creio que essa é a única forma efetiva de deixar de ser um café-com-leite. Na verdade, acredito piamente que aprender a ouvir essa voz, e obedecê-la, é a única solução para qualquer vida.

2 comentários:

  1. Olá Zé Luíz!Ou melhor, Paz do Senhor!
    Também sou cristão, leio o seu blog já faz mais ou menos um ano e meio, apesar de nunca ter feito um comentário nele, tenho uma identificação muito forte com seu jeito de pensar com relação ao cristianismo e muitas coisas da vida. Provavelmente já passamos situações parecidas com santarrões e frequentadores assíduos de igrejas que se acham perfeitos demais para nos considerarem seus irmãos.
    Mas tudo bem,isso já não é tão relevante, já que o meu maior inimigo sou eu mesmo.Tenho facilidade de aprendizagem e ensino da palavra de Deus, amante da leitura,adoro devorar livros teológicos e seculares, por este motivo sou sempre aproveitado nos lugares onde congrego como professor de escola dominical e ministrações em cultos de ensino.As coisas caminham bem por alguns meses, entre leitura da bíblia e orações diárias,(Práticas que por sinal realmente fazem a diferença) até que de uma hora para outra, entre uma decepção e outra,seja na igreja, seja na vida secular, a insatisfação começa a bater na porta, a oração vai e a leitura das escrituras começam a ser negligenciadas, assim como as outras atividades pertinentes ao ministério. E enfim, mais uma vez me vejo me entregando áquilo contra qual luto com sucesso quotidianamente quando estou com a minha vida espiritual sadia.
    A cerveja, sim, é este o meu "calcanhar de aquiles", o "espinho na carne" o furo na canoa. Então perco o interesse pela vida eclesiástica, evito qualquer contato com irmãos, minha esposa fica com vergonha de ir á igreja porque não sabe o que dizer aos inúmeros questionamentos a meu respeito. As coisas começam a desandar no relacionamento familiar,pq é difícil para a minha esposa ora ( e eu entendo isso) me ver lecionando em um púlpito e de repente me ver tomando uma caixa de cerveja sozinho em casa e também em bares.Não fico violento e nem vou atrás de mulheres,mas tenho que beber até ficar embriagado,de outra forma, não tem graça.
    Em seis anos de conversão isso já aconteceu pelo menos umas 5 vezes, de modo que não consegui ficar um ano inteiro ainda sem vacilar. A história é cíclica,e sempre acontece assim:
    Estou bem, servindo á Deus de repente acontece como relatei acima,e as coisas vão ficando insuportáveis com minha esposa e meus país que moram na frente da minha casa.Então em certo ponto, não aguentando a pressão,saio e passo a noite fora me envolvendo com drogas e depois volto, minha esposa me perdoa eu volto para igreja,recomeço a caminhada,e por favor, acredite, recomeço de maneira sincera, procuro me entregar a Deus com profunda sinceridade

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  2. E as coisas acontecem de maneira rápida, eu volto a minha vida ministerial com amor e dedicação(Sim, amo o que faço) como se nunca tivesse caído e assim vai por alguns meses.Entendo se você pensar que nunca fui convertido, mas apenas convencido,mas gostaria que soubesse que talvez exista a possibilidade de não ser isso. Já tive profundas experiências com Deus e quando busco á Deus procuro dar toda a minha sinceridade.Essa é a verdadeira história e os irmãos aqui da minha cidade não a conhecem como relatei acima pra você, claro que eles sabem de uma coisa ou outra, afinal,eu sumo da igreja nessa época e de vez em quando alguém vê alguma coisa. Mas não ouso contar nem para o meu pastor com medo de ser encostado em um canto, além do mais,muitas pessoas por aqui me jogariam no inferno por muito mas muito menos.Diante do desgaste que esse vai e volta causa em minha família, na igreja, em mim mesmo , e eu acho que até em Deus, eu já pensei em jogar tudo para o alto e me entregar de vez á boêmia e as tabernas da vida.Minha esposa me disse que eu posso escolher, que nós podemos nos separar sem rancores se eu optar pela cerveja,porque ela não tolerará essa vida, nós nos conhecemos no mundão ela era desviada eu era consumidor inveterado de maconha e álcool e esporádicamente de cocaína e nunca tinha sido cristão, então ela voltou , eu me converti e nós casamos.Apesar de ter sido usuário e a história sempre acabar da mesma fora, eu não tenho problemas com drogas, o problema é a cerveja,apesar dela ser a responsável por deslizadas esporádicas.
    Tenho uma filha linda de 4 anos que foi fruto de uma cura divina,pois minha esposa não podia engravidar, perseverei em oração até que Deus teve compaixão e lhe abriu a madre.Voltei para a igreja na semana passada.Minha mulher está mais tranquila, meus pais estão felizes, eu estou feliz, estou de férias no meu serviço e passo o dia em casa orando e lendo(ler é meu hobby) a bíblia e outros livros.Sim, ainda posso dizer á minha mulher para ela seguir a vida dela, com a minha amada filha, e poupar ela de mais uma decepção.Afinal de contas,não peguei nojo da cerveja e apesar de saber que nos primeiros meses não há a menor possibilidade de vir a colocar um copo na boca eu vivo com a impressão de "deja vu".e isso me tortura dia e noite.E cá entre nós, Estou me sentindo a mosca do cocô do cavalo do bandido,o pior dos vermes da terra, o último dos homens,e pensei em parar com isso e me entregar de vez,ao mundo, pois não consigo me ver perdoado de novo e não suporto a idéia de passado alguns meses isso acontecer de novo.Mas daí um pequeno porém aparece, eu tenho absoluta certeza da realidade do cristianismo e do poder de Deus em Cristo, seu filho.E tenho plena convicção que se eu fizer isso(me entregar ao mundo) estarei, sem sombra nenhuma de dúvida, fazendo a maior burrada da minha vida, e olha que eu já dei muita cabeçada.O próprio Deus deve estar mui decepcionado comigo e talvez não fosse uma má idéia ele colocar outra pessoa para cuidar da minha esposa e filha.Alguém com mais firmeza talvez.Mas ao mesmo tempo eu penso... para onde irei?
    Tenho por certo que cada palavra da bíblia é inspirada por Deus e sendo assim é a mais pura verdade, e isso me retorce por dentro dia e noite.Mesmo quando estava na mesa de um bar isso já me incomodava. E estou condenado a viver com a síndrome de Pedro para o resto da minha vida caso decida assim. (João 6.68-69).Por outro lado, o fantasma da insegurança e de uma nova decepção me assombra caso permaneça no caminho. Me perdoe pelo longo desabafo neste espaço. E ah sim... a respeito da postagem, muito boa e coerente.E a propósito, pode acreditar,não é meu estilo ser crente café com leite mas dessa vez vou dizer que se quiser me citar em suas orações, não vou me importar de ser chamado de crente 6 horas... Um abraço e Deus lhe abençoe!!!

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