22 de outubro de 2012

A grande notícia e a grande decepção

por Zé Luís

-Como assim “demitido”?!? – gritou o jovem repórter, logo que entrou na sala do diretor do jornal daquela cidade que acabara de mudar.
-Por sua insuficiência no levantamento de informações. Você não se mostrou capaz de fazer uma pesquisa completa e não consegue perceber o quão tal insuficiência pode ser prejudicial...

O repórter estava chocado: a frente de seu - agora - ex-chefe estava o calhamaço com sua reportagem bombástica, que abalaria os alicerces de Mandaia City. Ali era revelado toda um esquema de poder, que mantinha aquela região nas mãos de coronéis e empresários, em pleno século XXI.

Ele cria que seu trabalho fosse digno de premiação, ou até reconhecimento mundial, ainda mais quando aquele era o jornal de maior credibilidade na região. Ao invés disso, deparava-se com a extinção de seu emprego, sua dmissão sumária

-Tudo que você escreveu, além de estar muito bem escrito, é muito elucidativo e claro – disse o homem sentado à cadeira, com a grisalha e bem penteada cabeleira que descia a altura da gola da camisa social rosa bebê. Ele estava diante de uma grande mesa onde haviam, além de um monitor de computador, teclado e mouse, um notebook e um celular com tela de 5” que consultava a cada instante. - mas faltou um detalhe na conclusão de sua matéria, o mais importante. É por isso que está sendo desligado de nosso jornal.

Willian – esse era o nome dele – investigava as acusações de negligência do estado contra aquela região. Fora contratado para dar prosseguimento ao jornalismo investigativo de seu antecessor, mas resolveu assumir uma nova linha, o que elucidou e revelou coisas que mudariam o rumo das manchetes daquele lugar, se divulgadas.

Imaginava que sua noticia divulgada traria audiência e bom retorno, já que as redes de TV, rádio, sites e jornais da poderosa rede fariam uma revolução naquela região.

A verdade é que a população não precisava de jornais para ver o que estava acontecendo: caos nas escolas, hospitais, policia. As coisas pareciam que melhoraria mas naquele tempo, justamente no período que novos administradores poderiam ser eleitos, o serviço público foi a pique. Ficava claro que nada do que havia sido prometido pelo governo foi colocado em prática, mesmo com boa parte dos funcionários da antiga gestão ainda lá, que eram tidos como confiáveis para fazer as coisas funcionarem. Se nutria a ideia que a os novos gestores eram inexperientes para manter as coisas. Por isso, os mais experientes não foram substituídos.

Assim foi nas escolas, sem professores, atrasos nos salários, falta de merenda. A má administração e escassez se repetia nos hospitais, creches. As estradas iam à bancarrota, todas muito mal cuidadas. Os recursos nunca vinham. Era sabido através dos jornais que o Estado não enviava recursos, só por serem de um partido diferente.

Mas Willian descobriu tudo: o recurso vinha, mas eles se recusavam a usá-lo, ou utilizá-los nos seus devidos lugares destinados. Os funcionários da antiga gestão eram instruídos a boicotar qualquer plano de melhoria que o governo tentasse implantar. Não podiam dar àquele novo pessoal a chance de continuar na nova gestão. Para aquela prefeitura, quanto pior, melhor: o povo insatisfeito com as promessas não cumpridas, simplesmente, detestaria os que elegeram para uma mudança válida.

Tudo era uma campanha política, um trabalho para trazer de volta os antigos donos das vagas que foram assumidas( e esses voltariam a apoiar os velhos donos dos recursos). Era importante que o povo ficasse insatisfeito, e se aqueles funcionários quisessem suas regalias de volta, teriam que se empenhar nesse boicote.

Willian tinha vasta documentação que provava cada linha do que tinha escrito. Cada nome, cada pessoa envolvida na trama. Bastava agora jogar a denúncia na primeira página das manchetes e a coisa ganharia – quem sabe – divulgação em nível internacional.
- Garoto... você nasceu ontem? - perguntou o chefe, acendendo um cigarro.
-Você tá dizendo que minha história é infantil? Eu tenho como provar!
-Sabe quem é o dono dos jornais da região?
-Creio que seja o …
O chefe o interrompe, completando a frase:
- O cara que está por trás de todo esse esquema que você acha que desvendou. Por que imagina que as notícias que insistentemente publicamos são fatos completos? O que vai para a população é aquilo que nosso chefe quer que eles saibam. O seu antecessor pecou nisso, assim como você.
- Então é isso? Vocês não querem a verdade!
- Claro que queremos...desde que ela beneficie apenas o dono daquele que a divulga. Por que auxiliaríamos a concorrência? Não somos paladinos da justiça. Somos parte de uma empresa muito bem sucedida.

Willian entendeu o que faltava em sua história. A cabeça dos braços que avançavam pela região, se apossando de tudo, ajudando uns, destruindo outros, em nome da manutenção das lideranças nos lugares que realmente rendem algo.

O jovem repórter desistiu de pensar em negociar sua estadia naquele emprego. Entendeu de forma traumática as vias óbvias dos jogos do poder. Foi saindo da sala, olhar vago, entorpecido por ter entendido o óbvio e perceber que seus ideais eram uma infantilidade. Já a porta, o chefe que apagava a bituca num fétido cinzeiro ainda abarrotado de cinzas acumuladas, sorriu ao falar, mostrando seus dentes amarelados:

-Se quiser publicar sua história, procure um daqueles jornais “de esquerda” que ninguém lê. Só que sua notícia não é nova, eles já a tem há anos... boa sorte.

Os nomes, lugares e situações são fictícias, baseadas em um cotidiano que se repete em vários níveis e lugares desse mundão que jaz no maligno. Mas sei que muitos são como o pobre Willian, ainda não entenderam como o jogo funciona. Por isso, contei.