23 de março de 2013

Minha promessa a Orencia

por Zé Luís

- Eu leio seu blog – disse Orencia, antes mesmo de retribuir meu “boa tarde, como vai?”.
Estava em horário de almoço, e como sempre, eu e um amigo paramos numa lanchonete para um café e usufruir do sinal de WIFI disponível no local. Não a conhecia e ela almoçava com o namorado, Rafael, colega de trabalho. Parei para cumprimentá-los – e ser apresentado a moça. Foi quando ouvi isso dela.
-Ah! - respondi – Então é você que está frequentando aquele site?

A sensação de encontrar um desconhecido que lê minhas reflexões é algo que quase sempre me causa certo desconforto, mesmo ciente que esses escritos são públicos, disponíveis para todo aquele que acessa esse sítio. Sinto-me medido, como se comparassem o sujeito que escreve com o bobo de carne e osso que se apresenta pessoalmente (muita carne e gordura, confesso).

Não foi a primeira vez que encontro um raro leitor: certa vez, andando pelas ruas do bairro, um desconhecido se dirigiu a mim sorrindo e gritou: “Fala Cristão Confuso! Conta uma piada aí!”. Também fui apresentado a uma igreja dessa forma, na última vez que preguei. Em um curso que fiz recentemente, no interior do estado, outro colega de empresa se aproximou, confessando como quem conta um pecado que também me lê, e após tomar coragem, perguntou: “Afinal de contas, Cristão Confuso: você é crente?”.

Ouvi certa vez que C.S.Lewis conseguia análises e conclusões de especialistas sobre seus escritos que nem de longe passaram por sua cabeça. Nem em sonho me comparar a este grande escritor, mas talvez possa usar esse argumento quando for acusado de falar o que não devo.

Confesso: fiquei curioso em ouvir dela - e dos outros parcos visitantes – o que entendem quando leem os cada vez mais raros textos pessoais neste blog. Os olhares analíticos sobre o “escritor” me parecem algo positivo, já que se mostram decepcionados quando encontram-me pessoalmente e notam que não passo de um bobo-alegre. Parecem esperar mais do autor do que da obra e isso acaba sendo positivo: o que é escrito passa uma ideia – irreal? - de que o autor seja algo maior.

Creio que isso se explique pela escolha dos temas: a imensa maioria do que tenho como tema está relacionado à meditações feitas a partir das Escrituras. Alguém pode protestar, dizendo que nem tudo é “evangélico” ou religioso no que escrevo, e certamente não está incorreto, já que a Bíblia - nem mesmo Jesus o é. O tema é sempre maior que eu, porque não falo de mim, e sim do conteúdo eterno da Palavra.

Não parece que falo disso?

Por que teria eu que falar do me Mestre me adequando ao sistema religioso reconhecido pela maioria? Não tenho nada contra quem canta, bem ou mal, mas não me obrigo a só ouvir o que é costume entre aqueles do meio “gospel”. Deus me deu audição sem restrições e cabe a mim – e não a um sistema – decidir o que posso ou não ouvir( mesmo porque nem tudo é de bom gosto, independente se a letra promove “coisas” a favor de um suposto “reino dos seus”(e não Céu) ou fala de um amor que se foi. Assim aplico para todos os outros pontos que empesteiam o meu dito “evangélico”: leio poetas, escritores, filmes e obras teatrais sem perguntar em que denominação eles tomam Santa Ceia.

Através de alguns comentários de leitores daqui (muitos anônimos), vejo pessoas totalmente avessas às ideias aqui postadas, e no decorrer desses anos, percebo que analfabeto não é só o que não sabe ler, mas pior é aquele que não interpreta o que lê. Esses críticos, na maioria das vezes, são pessoas frustradas que te agridem sem te conhecer porque a “segurança” de estar atrás de um monitor oferece essa falta de revide.

Nem todos são assim: existe aquela parcela que compreende e - secretamente? - compactua com o que ali vai descrito, mas suas posições e cargos no meio não permitem que se revelem dessa forma. Conheço pessoalmente alguns e sei do que falo. Desses parcos e corajosos, que tem a esperança de mudar quando seu momento for aberto por Deus, tenho especial e íntimo orgulho de tê-los como frequentadores daqui. Alguns destes são escritores realmente brilhantes e bem melhores que este que vos fala.

A Orencia, dona de um nome tão diferente, disse que escreveria a respeito daquele rápido encontro. Ela sorriu, parecendo desacreditar – ou mesmo não dar muita importância, enquanto contemplava seu namorado comer uma montanha de açaí no almoço.

Promessa cumprida.