14 de abril de 2013

A dádiva das pequenas tragédias

por Zé Luís

Quantas pessoas perderam tudo nessa madrugada chuvosa? - pensei assim que acordei, vendo uma manhã de sábado encharcada pela chuva que caiu por toda a madrugada.

Só pensava naqueles que, ao contrário de mim, não tiveram uma noite tranquila de sono.

Morei de aluguel durante anos em uma casa antiga, que fazia fundos com um terreno baldio bem acima do nível da rua da mi ha casa, tão alto em relação a casa que o muro de arrimo que fazia divisão entre meu quintal e ele tinha mais de cinco metros de altura.

Reconheço que nunca fui muito bom na manutenção de casa, e quando as goteiras – que mais pareciam inicialmente filetes de água descendo - começaram a brotar através do forro de madeira, não me empolguei em subir no telhado e trocar as telhas, várias delas quebradas pela garotada que atiravam pedras do tal terreno. Eles queria atingir as pipas dos garotos da rua de baixo.

Quando finalmente subi para ver o estrago, bamboleando covardemente como um bêbado pela escada, andei pelo telhados musgoso e escorregadio e logo que removi a primeira telha estilhaçada, descobri que todo o forro tornara-se uma imensa casa de grandes marimbondos, que começaram a voar em minha direção. Por Deus, não fui picado, nem me estatelei quando saltei do telhado em pânico, esquecendo que meu nome não era Peter Parker e nenhuma aranha radioativa havia um dia me picado para saltar naquela distância do chão. Milagres que só o pavor faz.

Chamamos muitos profissionais e amigos para ajudar a trocar as telhas, mas ninguém queria por a mão. Compreensível. Passamos meses – talvez anos? – convivendo com a chuva dentro da casa e os grandes insetos no quintal (e não poucas vezes nos cômodos).

A cada tempestade, víamos, impotentes, nossa morada ser inundada. Chuva não espera ter alguém em casa para poder afastar os móveis das águas, não quer saber se você está cansado ou doente para invadir a sua casa pelo telhado furado e deixar tudo boiando no piso da cozinha, mofar as paredes, empapar a cama das crianças.

No dia seguinte ao mudarmos para uma casa que não chovia dentro, desabou uma tempestade durante a noite. Acordei assustado procurando tirar minha cama da direção da goteira que já não existia, assim como minha esposa não entendeu ao ver de manhã balde, rodo e pano de chão às portas do quarto.

Deixar o hábito de não acordar preocupado com chuvas dentro de casa demorou um pouco, mas sempre penso nas pessoas que dormem no convívio do frio e da chuva. Não consigo deixar de pensar nisso, mesmo após os anos idos.

Alguém pode dizer que soluções poderiam ser tomadas de forma mais imediata e simples. Não se iluda: minha mulher nunca deixou de me lembrar isso, todos os dias (de fato, a solução para os marimbondos, perto de mudarmos, foi dada por ela, mas isso foi outra história).

O ponto é que essa experiência fez com que enxergasse com compaixão pessoas que eu nem mesmo sei quem é. Estava impotente a essa solução, na época, e compreendi muito mais do que chuvas e manutenção de telhados.

Compreendi que podemos estar impotentes para determinadas soluções simples, cegos a elas, apesar de não ter qualquer deficiência física, intelectual ou emocional que impeça de vê-las. Podemos estar prisioneiros de uma situação, e por mais que lutemos contra aquilo, vemos nossas ações engessadas. É como estivéssemos destinados a falhar sempre nas pequenas coisas.

Hoje, sem mais necessidades das ações, sei exatamente como deveria proceder, assim como consigo vislumbrar que não haviam realmente pessoas preocupadas com a situação que eu e minha família vivia (embora isso não me desperte nenhum tipo de revolta. Só compreendi até onde vai o ação relacionada ao discurso).

Era mais um deserto, sala de aula de Deus. Lá, fica-se – gradativamente - livre das milhares de vozes e conselhos que muitas vezes apenas atrapalham, por mais que queiram ajudar. Tudo aquilo que aprendeu, frases de efeito que te disseram, a educação que recebeu, os livros lidos e as histórias ouvidas, passam por um crivo e mostrar-se muitas vezes inútil. Muitos tornam-se cínicos quando sentem as pequenas doses dessa peregrinação, prolongando a estadia no árido mestrado.

Não existe melhor conselho a ser ouvido do que aquele que brota na solidão de um deserto com o Mestre. São ensinamentos que a vida não consegue te fazer abandonar.

Anos depois, olho para a chuva e procuro saber se alguém precisa de um teto, de um cobertor seco, de alguém que arrume telhados ou saiba como destruir casas de marimbondo. Algo foi me dado e estou pronto para partilhá-lo.

Só isso já bastaria para responder o porquê desses pequenos sofrimentos acontecerem. Se não os tivesse vivido, faltariam peças no meu ser. Seria mais vazio, menos firme, incompleto.

Deus não está indiferente às nossas pequenas e cotidianas tragédias. Andou, comeu, transpirou nesse mundo, teve e fez suas necessidades como todo humano, foi amamentado nos peitos de uma menina, caminhou exaustivamente por ruas poeirentas e trilhar pedregosas, entre doentes, prostitutas, ladrões soldados hostis de outra nação. Cheirou e cheirava a mar, comeu a beira de uma fogueira rodeado de amigos, que o amaram e o traíram, que o ouviam e raramente o entenderam.

Como você um dia fará, enfrentou a morte como todos os homens. No caso dele, de braços abertos e por uma causa sublime.

Ele sabe muito mais do homem do que goteiras e marimbondos, entende muito mais sobre nossas necessidades e não dorme. Por isso, antes de nosso querer, nos dá o que precisamos e muitas vezes isso nada tem com o que desejamos.

Um comentário:

  1. Excelente texto! Não conhecia o blog, mas passarei a acompanhá-lo!
    Forte abraço.
    João Henrique

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