17 de junho de 2013

Por que agora, Brasil?


Se você pudesse ter alguma informação jornalística imparcial, sem interesses político, nem revanchismo de partido nenhum, o que seria dito? leia a reportagem, vista no Espanhol El País:

Está gerando perplexidade, dentro e fora do país, a crise repentina no Brasil com a ascensão de protestos de rua, primeiro nas cidades ricas de São Paulo e Rio, e agora espalhando-se por todo o país e até mesmo os brasileiros que vivem fora do país.

No momento, há mais perguntas para entender sobre o que está acontecendo, do que respostas para elas. Existe apenas um certo consenso de que o Brasil, até então invejado por sua experiência internacional, parece sofrer uma espécie de esquizofrenia ou paradoxo que ainda tem de ser analisada e explicada.

Vamos começar com algumas perguntas:

Por que agora emerge um movimento de protesto, quando há dez anos, o Brasil viveu um êxito aplaudido pelo mundo? É o Brasil pior hoje do que há dez anos atrás? Não, é melhor. Pelo menos é mais rico, tem menos pobres e enriquecem. É mais democrático e menos desigual.

Como é, então, que a presidente Dilma Rousseff, um consenso popular de 75%, um recorde que superou o do popular Lula da Silva, ser vaiada várias vezes na abertura da Copa das Confederações , em Brasília, por quase 80 mil torcedores de classe média que pagaram até US $ 400 por um bilhete?

Por que jovens que não utilizam transporte público – que possuem carros, impensáveis há dez anos - foram para as ruas para protestar contra o aumento do preço dos transportes públicos ?

Por que estudantes de famílias que até recentemente nem sonhavam em ver seus filhos pisando em um colégio estão protestando?

Por que manifestantes de classe reclamam da pobreza, se pela primeira vez na sua vida são capazes de comprar uma geladeira, uma máquina de lavar roupa, televisão e até mesmo uma moto ou um carro usado?

Por que o Brasil, muito orgulhoso de seu futebol, parece ser agora contra a Copa do Mundo chegando a manchar a abertura da Copa das Confederações com uma demonstração que produziu ferimentos, prisões e medo nos fãs que foram ao estádio?

Por que esses protestos, que chegaram a ser violento, em um país invejado até mesmo pela Europa e pelos Estados Unidos por sua taxa de desemprego quase zero?

Por que protestos nas favelas onde as pessoas tiveram sua renda dobrada e aos poucos se recupera a paz que a droga levou?

Por que de repente os índios se levantaram em armas, já que já possuem 13% do país e tem o Supremo sempre ao lado de suas reivindicações?

É que os brasileiros são ingratos para quem ter feito o melhor?

As respostas para todas essas perguntas que ocorrem, começando com os políticos, uma espécie de perplexidade e espanto, poderia ser resumida em algumas questões.

Primeiro, pode-se dizer que, paradoxalmente, a culpa é de quem deu ao pobre um mínimo de dignidade: a renda não miserável, a possibilidade de ter uma conta bancária e acesso a crédito para comprar o que sempre foi um sonho para eles (eletrodomésticos, uma moto ou um carro).

Talvez o paradoxo é devido a isso: ter colocado os filhos dos pobres na escola, que permitiram aos jovens, todos brancos, negros, indígenas, pobres ou não, ir para a faculdade, para ter livre acesso a saúde, tendo conseguido tudo o que transformou o Brasil em 20 anos no país quase do primeiro mundo.

Os pobres chegados à nova classe média tornaram-se conscientes de dado um salto quântico em matéria de consumo e agora querem mais. Eles querem, por exemplo, serviços públicos de primeiro mundo. Querem uma escola com qualidade, o que ainda não existe, quer uma universidade não politizada, ideológica ou burocrática. Eles querem modernidade, dinamismo, para prepará-los para o trabalho futuro.

Eles querem que os hospitais com dignidade, sem meses de espera, sem filas desumanas, onde sejam são tratados como pessoas. Sabem que 25 bebês morrem em 15 dias em um hospital de Belém, no Pará.

E eles querem qualquer coisa a mais do que o atual cenário político: uma democracia mais madura, em que a polícia não continue agindo como ditadura, eles querem jogos que não são, nas palavras de Lula, um "negócio" para ficar rico, eles querem uma democracia onde exista uma oposição capaz de balancear o poder de controle político.

Dos políticos esperam menos carga de tributos e corrupção; quer menos desperdício em obras que consideram inúteis, quando ainda faltam oito milhões de casas para as famílias que querem uma justiça com menos impunidade, querem diferenças sociais menos abissais. Eles querem ver na cadeia os políticos corruptos.

Querem o impossível? Não. Ao contrário do movimentos de 68, que queriam mudar o mundo, os brasileiros insatisfeitos com os serviços públicos querem ser como o primeiro mundo. Eles querem um Brasil melhor. Nada mais.

Em última análise, querem exatamente o que lhes foi ensinado: querem ser mais felizes - ou menos infeliz - do que eram no passado.

Já ouvi algumas pessoas dizerem: "Mas o que mais essas pessoas querem?" A pergunta me faz lembrar de algumas famílias em que depois de criarem todos os filhos, acham esse tipo de reivindicação uma desnecessidade rebelde.

Às vezes os pais esquecem que tudo o que lhe faltavam, para os jovens é essencial: a atenção, a preocupação que eles esperam não bate às vezes com o que é oferecido. Não precisam somente de auxílio, alguém que lhes ensine,levando-os pela mão, eles querem aprender a ser protagonistas.

E os brasileiros mais jovens, que cresceram e se tornaram conscientes não só do que já têm, mas ainda do que podem alcançar falta apenas permitir que sejam os protagonistas de sua própria história, especialmente quando mostram ser extremamente criativos.

Se eles fizerem isso, não adicionarão violência a violência já existente, já que este país maravilhoso sempre preferiu a paz à guerra. E não deixe que os políticos busquem dispersar com seus cavalos de batalha qualquer tentativa de protesto, na busca de esvaziar o conteúdo do mesmo.

Em uma faixa onde se lia ontem: "País mudo é um país que não muda." E também, levou a polícia: "Não atire em meus sonhos." Ninguém pode negar a uma mulher o direito de sonhar?