3 de junho de 2013

Reconversão num mundo sem igrejas


Carta mandada por Janaína Negreiros Person, uma de minhas 4 irmãs, residente já há alguns anos na Suécia.

Partes desse relato foram ocultados. Creio que a intenção aqui não é dizer qual a igreja é a (in?)eficaz, mesmo porque muitos passam por essa necessidade de um 2º entendimento.

Oi Ju,

Já faz tempo que eu to querendo te escrever, mas com duas filhas nunca dá certo. Te escrevo e você faz o que bem entender com a minha mensagem.

Quando me converti pela primeira vez, há mais ou menos dez anos, o fiz porque estava desesperada, precisando encontrar uma saída para os problemas que tinha, uma sensação de falta incrível na alma, que me doía e me fazia chorar constantemente. Quando fui batizada na XXXXXXXXXXX, me senti renovada, quase tomada por uma paz constante, mas apenas por um tempinho. Logo, bem rapidinho (acho que pelo fato de eu não ter entendido o “espírito da coisa”), começou a insatisfação, a bronca, a raiva de não ver o resultado que eu queria.

Antes do batizado era assim: Meu então namorado sueco de dois anos e meio, que eu achava que amava, já começava a me ignorar, mas mesmo assim pedi demissão do meu trabalho para começar minha vida em outro país com ele, estava com problemas bem grandes em casa, fui roubada dentro da minha própria casa por gente bem próxima. Sentia-me um peixe fora d'água entre meus amigos, que pareciam se tornar poucos, cada vez mais poucos.

Tinha que mudar de vida e aí, conversando com o irmão da minha amiga crente, chegamos à conclusão de que o que eu necessitava era algo novo, precisava entender o sentido disso tudo. Ele, com a bíblia na mão me perguntou se eu queria aceitar Jesus na minha vida. Titubeei por alguns minutos: pensei que todos com quem eu tinha contato iam gozar de mim, mas mesmo assim resolvi aceitar o que me propôs este irmão da minha amiga. Essa minha amiga então passou a me levar em sua igreja e lá finalmente fui batizada.

E agora, com essa chave na mão, tudo daria certo, passaria a me sentir bem melhor do que antes. É isso aí! bye bye tristeza! Estava certa de que a vida passaria a sorrir pra mim.

Mas acontece que nada saiu como eu havia planejado. As coisas começaram a sair do me controle, mudei da minha casa no Brasil, fui morar em um país frio e estranho pra mim até então, meu então namorado disse com todas as letras que não estava mais afim e que eu não poderia contar com sua ajuda, minha mãe (nossa: ela é babalorixá de umbanda), posso afirmar, não ficou super orgulhosa da minha nova “religião”, e eu caí aqui neste novo país, num grupo de religiosos bastante... como eu posso dizer? bastante “praticante”, se é que vc me entende (gente neo-pentecostal num país de maioria ateia).

Comecei a viver minha vida neste novo país auto-denominado secularizado, e passei a detestar muitas coisas: o grupo religioso que me rodeava, o fato deles não terem respostas para as minhas perguntas e nem gostarem de escutá-las. Na minha cabeça, eles não passavam de uns fundamentalistas, que queriam as coisas do jeito que eles queriam.

Tudo me aborreceu. Senti-me só no frio de 18 graus negativos. Sentia-me só, principalmente porque buscava no meu ex-namorado um conforto que eu não conseguía encontrar em nenhum outro lugar. Eu lembro que, na minha ira, eu pensava: que Deus é este que não me dá o que eu peço? Que Deus é este que me deixa sofrer desse jeito? Já virei crente não virei? Então? Por que não responde minhas orações e faz logo o que eu quero de uma vez?

Que decepção, que grande decepção. Se era isso aqui ser crente: valeu, obrigadão, mas eu não quero mais. Não quero esse Deus que não ouve minhas orações mais não. Quero outra vida pra mim. Claro que eu não vou sair por aí fazendo o que der na telha, porque moralidade eu sempre tive, mas por outro lado, porque não fazer o básico? Sabe o basicão mesmo? Aquilo que um monte de crente e descrente faz? que sua sobrinha faz? Seu vizinho? A tiazinha super crente lá da sua igreja faz?

Então... isso aí mesmo: comecei a ler a bíblia como se fosse um livro de auto-ajuda, ou a simplesmente lê-la com displicência, comecei a viver mais de acordo com as minhas vontades, e daí, de vez em quando, só pra não correr o risco de ir pro inferno, falava pra Deus: perdão por isso que eu fiz Deus, não foi minha intenção. Mas era minha intenção sim. Fazia o que eu queria e ainda tinha a cara de pau de orar, pedir perdão e ainda por cima mentir pra Deus. Ai ai... quantas noites eu passei esperando que Deus me devolvesse meu ex namorado ou que pelo menos tivesse a boa vontade de me dar um melhor, quantos dias eu passei me queixando da falta de atenção de Deus para comigo. Justo eu que sou tão legalzona, não faço mal a seu ninguém. Deus tinha resolvido me zoar (eu pensando comigo!), e nesse caso eu iria zoar também.

Os anos foram passando. Eu conheci o homem com quem estou casada agora há 8 anos. Estava me sentindo assim meio morna, sabe? Acreditava em Deus e acho que nunca deixei de acreditar, mas não era tão importante crer ou não. Era algo mais ou menos mecânico. Eu acordava, fazia o que tinha que fazer durante o meu dia e quando ia me deitar, dormia e pronto. Não ficava pensando muito na existência ou não de Deus. Deixa pra lá... dá o maior trabalho passar todo o tempo pensando Nele. As vezes eu até chegava a pensar que não acreditava mais, era porque de não pensar mais Nele tinha a sensação de que Ele não era, não estava em nenhum lugar e eu ainda assim vivia e até que bem. Passei muitos anos na frieza da indiferença com Deus. Era quase como se Ele tivesse se tornado uma fumaça esvaída no ar. Que medo!

Mas calma aí porque as coisas melhoraram pro meu lado. Vou pular toda a parte do meu relacionamento com o meu marido e de como eu aos poucos fui buscando mais e mais a Deus, porque esta é outra historia e daria muitas páginas.

O que posso dizer neste momento é que agora, depois do nascimento da nossa segunda filha, eu comecei a sentir a necessidade de buscá-Lo e olha que não foi porque eu estivesse com problema não. Simplesmente aconteceu de eu ter tempo pra tentar entender a Deus. Sei que é muita pretensão minha achar que eu entendo, mas o que eu estou querendo dizer é que o Espírito Santo de Deus deve ter cansado da folga que eu quis dar pra Ele e voltou... assim, de repente!

Você sabe que as licenças- maternidade aqui são longuíssimas. Comecei então a me interessar mais e mais pelos princípios básicos ensinados por Jesus e uma coisa foi levando à outra e quando vi estava pedindo dicas de leitura cristã pra você, ouvindo de coração o que o meu marido vinha lendo sobre o tema e refletindo e daí já não me sentia mais confortável de estar sem Ele. Pedi encarecidamente que Ele voltasse e pra ficar.

Tenho entendido que meu modo de acreditar de antes deixava muito a desejar e que aqueles pedidinhos ridículos que eu fazia não tinham nada a ver com Deus... e isso graças a muitas conversas com meu marido. Tenho, aos poucos, deixado de lado, ou pelo menos tentado deixar de lado o meu "eu". Não quero mais! Cansei de mim e das minhas mazelas. Cansei de pedir um monte pra Deus. Cansei de acordar todo dia e pedir um monte de absurdos. Cansei de mentir pra Deus e de fingir que sou boazinha e quase realmente crer que sou. Cansei! To podre. Tem que jogar fora senão tudo pelo menos tudo o que tem por fora, porque por dentro tenho pedido que Deus tome conta e salve, nem que seja um pedacinho de mim, pra logo todo o resto ir se recuperando.

Tenho orado o Pai Nosso, ensinado por Jesus, todos os dias e tenho realmente crido que esta é a melhor maneira de orar. Não tem outra. Já não quero mais querer nada, já não desejo nada. Honestamente te digo que esta foi a melhor coisa que fiz e tenho feito.

Aprendi que a cada dia devemos fazer o Pai Nosso e pedir apenas que Deus esteja conosco e que nós de alguma forma estejamos em contanto com ele, ou servindo-o ou contemplando a sua obra.
Não vou ficar aqui pregando e falando o que cada um deveria fazer com sua crença, mas te digo que pra mim tem funcionado. Tenho certeza absoluta que terei maus dias, mas por enquanto, e hoje, o que posso fazer é agradecer os bons, porque tenho tido muitos.

Termino esta mensagem dizendo que me sinto muito muito abençoada porque sozinha eu tenho certeza absoluta que não conseguiria.

Um forte abraço aí Júnior.

Nenhum comentário:

Postar um comentário