11 de julho de 2013

A ambição que te conduz

por Zé Luís

Antes de tudo, seria de bom grado entender a diferença entre ambição e ganância. Procurei algumas opiniões sobre essa diferença, e a conclusão na maioria dos casos é que a ambição sem limites morais, deturpada, a que procura melhorar a qualquer custo é denominada “Ganância”. Diz-se saudável aquele que, insatisfeito com algo a sua volta, procura meios para melhorar essa situação. Nesse ponto, temos a ambição, sem distorções, como algo positivo. Alguém pode ambicionar ter um emprego onde se realize, mas fazê-lo apenas para ter e ter se revela algo ganancioso, o anjo que cai e se demoniza.

Nas igrejas essa ambição é bem estimulada – ainda mais em tempos de gente que popularizou pregações sobre prosperidade, por saber que isso enche seus auditórios.

Na minha infância, “crente” era uma minoria, vivia em grande parte nas periferias e favelas, e apesar de exemplo de retidão no qual eram conhecidos, a sociedade - na época de maioria absoluta católica - os tinham como pessoas estranhas, de uma seita que não levava ninguém ao céu e insultava a verdadeira igreja.

Foi numa dessas igrejas de periferia que me converti, e convivi com toda a “evolução” financeira e social dos integrantes dessas comunidades cristãs. Domingo na igreja era o dia das melhores roupas, mas na época, o mau gosto nas escolhas era gritante, já que não se tinha recursos - ou conhecimento – para fazer a escolha estética certa. Um momento de descontração é rever álbuns de fotografias de 20 anos atrás e tentar entender como alguém poderia usar aquele cabelo a Lá Amy Winehouse

Os anos passaram, muitas famílias nasceram e se edificaram dentro dessas igrejas. Muitos buscaram melhora nos estudos, e com isso, cresceram em suas condições financeiras e sociais.

A jornada existencial desses evangélicos, mantendo a constante vivência com o Deus de seu entendimento, proporcionou inegável crescimento em muitos aspectos, e assim, certa gratidão mais que justificável aos líderes que pelos anos os discipularam em sua jornada.

Mas...

Algo trágico ocorreu nesse meio tempo: a ambição -  que não é ganância -  se tornou algo ruim.

O pobre, que Deus abençoou e cresceu em Graça e força, tinha como ambição ser como aquela gente bonita e prospera, que ia a praia de fim de semana, que tinha carro bom e bons eletroeletrônicos em casa. Ele queria ter Coca-cola, frango assado e macarrão não só no domingo, queria poder comprar pizza de vez em quando. Sonhava em tirar fotos com câmeras digitais e postar as imagens mostrando os mesmos cenários que aquele povo bonito tinha nas suas, usar aparelho nos dentes e pagar convênio médico para ter direito a uma consulta digna.

Ele não lembra o quanto esse povo - que ele anseia ser - o desprezava, mas agora quer ser um deles, pensar como um deles, se possível.

Se perguntar a um desses que ele quer ser ele dirá:
-Queremos que as coisas voltem a ser como eram. Queremos nossas praias sem toda essa gente feia que nos invadiu, queremos as estradas sem tantos carros bons como os que sempre tivemos. O trânsito fica ruim. Para eles, já existem ônibus. Será que não entendem, esses imbecis? É como o negro que milita pela Ku Kux Klan, ou o judeu defensor do Nazismo. Se tivessem realmente se tornado inteligentes, jamais engrossariam o coro de quem só quer que eles morram... morram não! Nós precisaremos sempre de mão de obra barata... eles podem viver. Mas sem estudo, como as coisas tem que ser.

Enquanto isso, o que engatinhou para fora da linha da pobreza, o que orou e sofreu humilhações em sua vida - e ainda pode constatar que seus pais não fizeram faculdade porque isso era coisa de rico - testemunha todo o discurso, sem protestar ou mesmo se indignar: continua imaginando que foi incluso no clube no qual nunca fará parte. O recém-chegado da miséria é feito de outro material e esse “povo bonito” nem sabe, mas está em vias de extinção:

Agora, aquelas quinquilharias que você ostentava podem ser adquiridas por qualquer um, aqui ou fora desse país. Carro? qualquer um pode ter, viajar de avião, frequentar faculdade...

E isso é só o começo.

Se seu pastor continua te induzindo a pedir benção para esse grupo que quer te manter nesse cabresto de classes, se seu líder troca favores e pede seu voto para dar manutenção àqueles que sempre quiseram que você não tivesse nada na vida – e que o próprio Cristo repudia – reveja com carinho seu conceito de liderança cristã.

Você estudou demais a Bíblia para ser enganado por qualquer matilha.

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