13 de julho de 2013

O livramento nosso de cada dia

por Zé Luís

Carro quebrado.

Uma amiga de minha esposa ofereceu carona para nós – trabalhamos na mesma empresa – e nós, de bom grado, aceitamos de pronto.

Não me lembro qual foi a última vez que fui trabalhar sentado no banco de trás do carro, esquecido, enquanto a motorista e minha esposa conversavam distraidamente sobre assuntos gerais.

Sim: nossa motorista é a chamada “nova de carta” e como uma pessoa educada – e grata – não fiquei dando pitacos sobre as deficiências de volante constatadas em certos pontos do percurso, mas não consegui evitar de tomar eventuais sustos e emitir silenciosas orações espontâneas em um ou outro ponto. Enquanto isso, no volante, seguia desapercebida das dezenas de possibilidade de acidentes que escapava.

Nada aconteceu nos quarenta minutos de viagem. Como ela não tem direito a vaga de estacionamento na empresa, estacionamos longe da empresa, na rua, onde não pagaríamos pela diária (não darei o endereço: a prefeitura da cidade pode procurar e taxar essa rua também) e a caminho, as duas permaneciam naquele papo "interessantíssimo"  - entre elas. A mim, restava acompanhar, alheio aos assuntos, pelas três quadras que nos levava ao serviço.

Já chegando, quando atravessávamos pela faixa de pedestres dentro da estação de ônibus, notei que um taxista mantinha a velocidade em nossa direção, e como a dupla de mulheres, vinha conversando distraidamente com seu passageiro. Notei também que o motorista, um senhor calvo que passava dos cinquenta, cometia um erro fundamental ao volante: ele mantinha os olhos em seu passageiro enquanto dirigia, e não na pista, onde nunca pode sair quando ao volante.

Foi em um milésimo de segundo: interrompi as duas e as empurrei para a calçada, gritando alto, instintivamente, em alerta o motorista. Saiu um berro, um “Ou” prolongando e alto, seguido de uma freada brusca do taxista, e a momentânea atenção dos que ali circulavam. Um atropelamento sempre atrai a atenção das pessoas. Ainda mais naquele horário: é um assunto para o expediente.

Mas quando a adrenalina baixou, estávamos a salvo, na calçada. O motorista parecia mais assustado que eu, e permaneceu estático, pálido, nos olhando com seus olhos esbugalhados, e pedindo desculpas.
Segundos depois, seguimos nossas vidas, cada um para seu lado. O taxista tocou o carro com seu passageiro, ainda pálido e assustado. Talvez se perguntasse como cometera um erro tão bobo sendo profissional.

Nossa generosa motorista? Sorriu como não tivesse acontecido nada e continuou exatamente de onde tinha parado quando as empurrei: alguma coisa que girava entre os compromissos profissionais ou uma liquidação de botas imperdível.

Éramos um trio cristão ali.

Deveríamos ter tirado o motorista do táxi e, abraçados, agradecer a Deus de joelhos, pela manutenção da paz de nossas rotinas. Por continuarmos ilesos, sem ossos quebrados, roupas rasgadas, sem parentes recebendo telefonemas terríveis pelo súbito falecimento de alguém que só estava indo trabalhar.

Eu já fui atropelado. Tinha sete anos quando ia para escola num dia qualquer de garoa e um táxi - sim, outro, claro -  me lançou longe. Ainda lembro do meu conga ter ido mais longe ainda antes de apagar no asfalto gelado da Rua Marechal Deodoro. O pobre homem que me atropelou chorava mais que eu - que só queria sair dali e ir para escola, apesar de todo sujo e molhado, enquanto o homem me arrastava para o pronto-socorro municipal. Eu tinha medo da minha mãe se irritar por eu ter matado aula. Queria só manter minha rotina. Ficar internado em um ambulatório era algo impensável. Foi um alívio quando ela chegou e não se importou com nada. Só chorava e me abraçava. Não sofri nada grave naquele dia.

As vezes, a rotina quebrada pode ser algo bom, mas quantos livramentos desfrutamos todos os dias sem agradecer pelas coisas continuarem da forma que são? 

Sou tão ingrato quanto muitos outros cristãos, mas existem interferências tão espetaculares, providencias divinas tão óbvias, que chega a ser perverso não parar nosso cotidiano - sempre apressado -  e dedicar um pouco de reconhecimento a esse Deus que se preocupa em manter nossas vidas felizes. Como diz o profeta: "quero trazer a memória aquilo que me traz esperança" e esses reconhecimentos sempre são refrigérios.

Alguém pode dizer:
“Mas e sobre aqueles que se acidentam e morrem? Os que sofrem coisas ruins e não escapam de situações tão simples?”

Curiosamente, conheço muitos dos que padecem de males terríveis e são gratos de certa forma. Frequentei a sessão de pacientes terminais de uma Santa Casa aqui da região como missionário, ajudando com um violão enquanto as irmãs liam a bíblia e cantavam hinos. Sempre me senti mais abençoado do que abençoador. Eles se alegravam com aquelas vozes de taquara rachada e nem se importavam com uma eventual lágrima diante de suas tragédias pessoais. Posso garantir que a fé, nessas horas, faz uma diferença abismal.

Na verdade, essa parcela de existência que temos, quando somos absurdamente improváveis, é algo mais que imerecido. Nem percebemos os contínuos decretos que nos permitem tocar a vida por mais um dia, mesmo quando somos feitos de uma matéria que teria que se deteriorar muito mais rápido que qualquer outra mais resistente desse planeta: não somos de aço, somos de água e barro.

Reconhecer nossa indignidade é o primeiro passo para entender que não merecemos ter em nós o sopro de vida. Ainda mais quando temos, além de uma existência, a possibilidade de construir uma história onde podemos formar família, amar, rir, ter prazeres simples como sentir o gosto de uma deliciosa fruta ou um suculento doce.

“Todo ser que respira, louve ao Senhor” ordena o Salmista. Isso se chama gratidão quando se é capaz de enxergar o que Ele faz e do que nos livra.

Um outro salmo bem popular – principalmente entre algumas pessoas que tem por hábito deixar a bíblia aberta nele , fala bem sobre essa ação protetora do Todo-Poderoso. Transcrevo-o aqui. Se tudo que foi escrito aqui não foi capaz de edificá-lo, isso o será. Esse é o Salmo 91:

Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.
Direi do SENHOR: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei.
Porque ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.
Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas te confiarás; a sua verdade será o teu escudo e broquel.
Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia,
Nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia.
Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti.
Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios.
Porque tu, ó SENHOR, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a tua habitação.
Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda.
Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.
Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.
Pisarás o leão e a cobra; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente.
Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome.
Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei.
Fartá-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação.