8 de agosto de 2013

Inapto ou fora de contexto?

por Zé Luís

Fazia tempo que não ouvia falar do Felipe e seus estudos. Quando sua mãe comentou há tempos, havia preocupação no seu tom de voz: ele notificou-a que trancaria a matrícula, e já não se manteria no curso que escolhera: análise de sistemas, uma das escolhas mais populares entre os que completam o ensino médio nesse momento, já que está relacionado a área de informática e tudo que orbita a esse respeito (e nesses dias, a maioria está ligada a rede social de alguma forma).

O problema é que, de repente, ele se deparou com sua total inaptidão com as matérias proposta: notas baixas, a diferença abismal de compreensão com outros colegas que já trabalhavam na área, o que tornava a troca de informações, devido a primariedade de seus conhecimentos, inteligível. O assunto era “chato”, e sendo assim, o interesse cada vez menor.

Ele se tornara um mau aluno, um “burro” entre os seus.

-Como vai seu filho, Mara? Como vão os estudos? - perguntei, enquanto dirigia do trabalho para casa. Mara é colega de empresa e nos acompanha de carona.
-Faltam dois anos para meu bebê terminar a faculdade. Aluno exemplar! Só notas altas, “fi”! Tá pensando o que? - e riu-se.
-Caramba! Legal! Mas como ele conseguiu assimilar as matérias relacionadas à computação? Que revira-volta! É o tipo de assunto que só quem realmente gosta, entende.
-Mas ele não voltou para Análise de Sistemas O “Fê” foi fazer propaganda e marketing, e está se superando... Alguém pode dizer que ele perdeu aqueles meses que fez informática, mas a escolha foi certeira dessa vez!

Na Bíblia, Paulo compara o grupo reunido chamado “igreja” a um corpo, e o mesmo tende a ter suas partes distintas e só produtivas quando cada membro se encontra e aceita sua função dentro do que chamamos “Reino”.

É impressionante como alguém com plena noção de suas capacidades é capaz de alcançar quando devidamente encaixado em sua posição, e isso não se restringe apenas a posições eclesiásticas e/ou religiosas (por isso usei Felipe como exemplo).

Estou consciente que a maioria de nossas escolhas para a vida toda é feita numa época onde não temos maturidade suficiente para compreender a dimensão das consequências: nos guiamos com um punhado de dados, sonhos, embalos, e muitas vezes ignorando talentos e tentando se encaixar no meio social onde estamos inseridos, buscando fazer o que todos estão fazendo,

Voltando o exemplo paulino sobre corpo: um organismo renderia muito mais quando tem olhos, mãos, pernas, distribuídos de uma forma a não parecer um “Frankenstein”. Agora, pense em um olho que não se aceita e teima em ser aparelho auditivo: ele não tem tímpano, mas cisma em usar suas pupilas -sem sucesso – para conseguir captar emissões sonoras. Pense em um nariz que sonhou em ser perna, sonhando em saltar e correr. Esse membro simplesmente viverá frustrado, sem fazer aquilo no que é único: definir odores.

Um corpo com dez pernas e nenhum olho anda atrapalhadamente – se andar -e não sabe para onde. Muitas bocas mas nenhum braço capaz de executar comandos.

Felipe, numa atitude corajosa e equilibrada, recomeçou. Isso é raro. A maioria abraça seu rótulo de incapaz, crendo realmente não ser apto para nada, sem se dar ao trabalho de olhar para dentro de si mesmo, e perceber que há pelo menos uma capacidade natural que poderia mudar o rumo de sua vida.

É um exercício de aceitação, e auto-conhecimento, tarefa nem sempre muito agradável.

“Examine-se, pois, o homem a si mesmo” - ordena Paulo.