30 de agosto de 2013

Marcos 5: A frustrante negativa de Cristo ao apelo de um missionário.

por Zé Luís

Quando lemos os evangelhos, não é difícil enxergar em Jesus, em um ou outro momento, algo diferente do tal amor incondicional pregado por aí, destoante do mais pregado e popular “paizão”, que cede a qualquer apelo infantil e inconsequente de seus filhos.

Sempre tem um bobo tentando esfregar nos crédulos suas listinhas de controvérsias bíblicas (como o exemplo citado acima), e sempre aparece outro tonto – como eu e você – que gasta tempo respondendo, uma a uma, as indagações que parecem se desdizer.

O debate é infindável, mesmo porque ainda existem aqueles que usaram seus entendimentos pessoais e reescreveram as Escrituras com opiniões particulares. Mesmo essas pessoas são capazes de debater, por anos, sobre temas como a grafia correta – ou mesmo a pronuncia certa - do nome de Deus no idioma e tempo em que foi concebido e a influencia disso na aceitação divina no dia do Juízo.

Mas...

Mesmo consciente sobre a real natureza amorosa do Todo-poderoso, nem sempre conseguimos abafar as dúvidas espontâneas quando lemos algo como a negativa de Jesus ao – então liberto – gadareno.

O ex-endemoniado tenta embarcar com Cristo e seus discípulos, insiste em seguir o Mestre de perto, o que não lhe é permitido (pôxa: se Escariotes podia ser seguidor, por que um testemunho como aquele não poderia? Uma baita propaganda, certamente). Creio que isso deve ter entristecido o restaurado.

Pobre coitado, esse gadareno – pensava eu. Por que não deixá-lo ir? Seria por ter andado demais com os infernos? Isso o impedia acompanhar os escolhidos do Messias? Seu vasto histórico de barbaridades cometidas - através dos diabos que nele habitava - tornaram sua presença indesejável para o Amor em pessoa?

Há tempos abandonara a família - ou vínculo com qualquer pessoa da região: dormia no cemitério e para o povo, era o doido local, o que se fere e rompe qualquer corrente em que for amarrado. Ir com o grupo seria a chance imediata de recomeçar sua vida da melhor maneira imaginável: andar com Deus encarnado e ouvir Dele as instruções, só ouvidas no passado, pelos pais da fé.

-Quero que volte para sua família. Conta o que o Senhor fez pela sua vida e fala da misericórdia que teve contigo. - era a ordem do Mestre.

Apesar da grande alegria de sua libertação e restituição, Deus havia lhe dito não.
A mulher não acreditou no que viu, ao atender o chamado ao portão de sua casa e deparar com aquele homem. Não podia ser – pensou ela. O passado parecia ter devolvido intacto o amor de sua vida, e toda a tragédia que se abatera em sua casa parecia não ter acontecido. “ notícia boa demais para ser verdade” é o real significado da palavra “evangelho”. Era isso que ela sentiu. Não pode ser verdade, é um sonho bom e sonhos bons são só sonhos.

Ele estava ali: De pé, barbeado, vestido, restaurado, limpo e com os olhos marejados de saudade.
-Me perdoa? - disse o homem.
O casal de filhos não se conteve. Soltando-se da mãe, que tentava contê-los atrás de si, correram em direção do homem e abraçaram-no:
- Pai! Que saudade, pai! - gritavam entre lágrimas e sorrisos.

A mulher sentiu vontade de correr e abraçar aquele que fora seu marido, que retornara aparentemente ileso do inferno, mas se mantinha firme em seu lugar.
- Me perdoa? - repetiu ele, olhando nos olhos de quem um dia foi sua esposa.
A mulher se adiantou, vagarosamente, em sua direção e o abraçou, em lágrimas.

Os vizinhos da pequena vila pararam para ver ali, no meio da rua, a mulher abandonada, seus filhos e o homem que um dia fora o chefe daquela casa chorarem felizes pela nova chance dada pelos céus.

“-Não era esse o endemoniado da cidade?” - perguntavam-se as fofoqueiras de plantão. - “O que vivia no cemitério? Nossos curandeiros diziam que ele era incurável! Rejuvenesceu! Impressionante! Olha como o amam! Um pai faz falta, né gente? Será que é fingimento? Essa história está muito estranha...”

Mas a resposta para pergunta que todos queriam seria repetida muitas e muitas vezes, não só em sua cidade, Gadara, mas por toda a região de Decápolis:

“O dia em que o Deus encarnado aportou no cemitério de Gadara, o encontrou e o libertou instantaneamente das correntes do inferno, por misericórdia de sua vida, o libertou e restituiu sua vida.”


Não é sempre que entenderemos os desígnios de Deus.

Sonhamos com o estrondoso sucesso de nossas vidas restauradas, palcos e multidões que aplaudirão nossa vitória, nossa bela retórica arrebatando plateias, nossa canção bem executada encantando muitos, nossa história de sucesso e prosperidade “ a partir da conversão”.

“Viver para o evangelho” - é algo sempre estimulado pelos pregadores, e muitos confundem isso com “viver do evangelho”.

O gadareno teve que voltar e olhar para a vida que deixou. Nele. a marca de um Deus que não foi aceito entre os seus e, embora Jesus tenha sido convidado a se retirar - o que fez imediatamente – deixou por ali uma carta viva, alguém que carregaria em seu corpo e alma a assinatura milagrosa do Mestre.

Havia um motivo para mantê-lo ali. Não era uma arbitrariedade, e nem os pecados e maldições (lavadas pelo Cristo) eram capazes de afastá-lo de andar com o grupo.

Existe uma cultura – e certa irritação - entre os antigos frequentadores das praias do litoral norte de São Paulo: eram praias mais limpas e, por causa da distância dos grandes centros urbanos, eram mais frequentados por gente com maior poder aquisitivo: eles tinham carros mais potentes e condições de manter uma casa. Era a seleção natural de ambiente, já que só quem poderia pagar estaria ali naquele lugar público.

Daí, com o facilitamento de crédito para pessoas de menor renda, muitos puderam comprar carros melhores, e assim, alcançar com mais seguranças essas praias “de rico”, irritando os mais “antigos”, habituados a só ter gente de sua classe em “suas” praias.

Os gadarenos - que valorizavam suas fontes de renda mais do que seres humanos – mandaram que Deus se retirasse, na intenção de manter suas praias sempre limpas e desertas, enquanto o “povinho” sem carro e sem litoral de rico se mantém em suas piscinas feitas de bacia de zinco.

Jesus não ficou, mas deixou aos moradores de Gadaria (e as dez cidades próximas: por isso “DECApolis”) a chance de conhecer o milagre vivo que foi o ex-endemoniado, para que todos soubessem que havia esperança, se assim o quisessem.

Você pode tirar Deus de um ambiente, mas não pode evitar que um adorador o encontre.

O gadareno era essa ferramenta: de endemoniado para livramento de Deus.

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