26 de agosto de 2013

Marcos 5: Um ótimo ambiente para demônios.

por Zé Luís

-Por favor – insistia Legião – Permita que fiquemos nessa região! Nem que seja numa manada de porcos? Aquela ali!

A enxurrada de palavras saia do arrebentado homem nu, como se milhares de vozes coabitassem aquele corpo. Diante da autorização do homem-Deus, o ex-possesso sentou-se e recuperou a humanidade, enquanto a manada de porcos enlouqueceu, correndo para o penhasco e se afogando no mar que os engoliu, quando despencaram penhasco abaixo.

Logo, os que viam aquilo, espalharam a notícia. Vieram e encontraram um homem, e não mais um produto do inferno. O que estava nele saiu e destruiu bichos que iam ao abate.

-O senhor poderia se retirar? Por favor?

Esse foi o pedido do povo diante do milagre de Deus. Que Jesus saia de entre nós e a ordem natural das coisas "daqui" seja restabelecida.

O milagre representava prejuízo. Aquele povo calculava e sabia que os custos de uma vida salva eram altos demais. Eles não poderiam botar sua economia local em risco, e a manutenção de sua prosperidade mantinha muito mais gente bem do que libertar os esporádicos endemoniados da região.

“Tudo tem seu preço” – dizem os habitantes de Gadaria – “e é nessa planilha que medimos custos, o lucrativo, a perda aceitável, e o que nos possibilita prósperos dividendos. Não pense que não reconhecemos os milagres, a anomalia que desequilibra nossas projeções sobre os investimentos a curto, médio e longo prazo. Por isso é que insistimos: Sai de nosso meio, Deus. Nossa Torre de Babel já nos leva até um paraíso aceitável sem que seja necessária a sua intervenção...”

Eis a motivação dos diabos e o desespero na eminente expulsão de sua casa humana: coabitar em uma sociedade onde tudo tem seu preço é algo sempre vantajoso para o inferno. Logo encontrariam alguém propenso a ouvir suas propostas lucrativas:

-Não tem o que vender? Venda o corpo. Simples.
-Eu sei o que seu inimigo pensa. Eu posso te revelar tudo.
-Certeza. Pode confiar: ninguém saberá de sua “jogada”...
-Faça isso, ganhe aquilo...
-Ganhe, ganhe, ganhe e seja maior que seu semelhante...
-Se comeres do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal serás como Deus.

Tantas frases de efeito poderão te encantar. Tantas promessas de sucesso futuro, e quando você menos espera, os colaterais, os gadarenos endemoniados surgem, para fazer parte de uma sociedade perversa, que mede o peso entre homens e porcos, e os porcos são mais valorizados.

Esses seres estão por aí, dormindo debaixo das marquises e toldos, usando crack ou pinga barata, comendo resto de comida achada no lixo, vivendo da venda de papelão, latinha, garrafa, do troco arrecadado no farol, dizendo que é para comer. As vezes é verdade... Eles não tem dentes bons (as vezes, nem dentes tem), por falta de opção, pode ser que defequem e urinem nas roupas, e não as lavam (lembrando: eles não tem banheiro nem lavanderia). Centenas de zumbis viciados e desvalidos, perambulando pela vida, para sumirem em breve, como nunca tivesse existido.

Eles não acreditam mais no amor.

Mas e daí? É só um efeito colateral e aceitável em uma sociedade gadarena lucrativa em que eles (não nós! Jamais!) vivem e se refestelam. De Gadaria, pode-se ouvir ainda agora, entre brindes de champanhe e costeletas na brasa:

“-Saia daqui Deus, não queremos correr o risco de ter prejuízo ao cuidar de nossos desgraçados irmãos! Em algum lugar eles coabitam conosco. Isso deve ser suficiente...”

3 comentários:

  1. e nos crentes metidos nessa febre consumista sem ligarmos pros nossos irmãos. queria ver se na igreja a gente ao invés de paozinho com refreso de uva a gente tivesse que trazer algo, segundo as nossas posses. será que o irmao que nada pudesse trazer iria se sentir a vontade pra comer? ou talvez nem viesse? somos um vexame como igreja.

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  2. Aiii...

    Que tapa na minha cara...

    Tapa necessário...

    Deus te abençoe.

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