9 de setembro de 2013

COMO CRIAR O SEU PRÓPRIO INFERNO - capítulo 2

Após revisões de meu amigo "JotaPê", ele decidiu permitir que eu publicasse o 2º capítulo de seu conto. Ele pensa estar traindo alguém, já que toda ela é baseada em uma confissão. A mesma acontece - acredite - em algum lugar do velho mundo, em outro idioma e cultura. Mas poderia ser nas vielas de uma favela brasileira, ou numa bairro chique de uma grande cidade.


por JotaPê

VOCÊ é mulher, tem filhos, tem um trabalho que VOCÊ ama, um apartamentinho que é seu e do banco (porque VOCÊ não vai conseguir pagá-lo nos próximos 100 anos), é casada com o cara do primeiro capítulo. Durante um bom tempo, ficou em casa cuidando das crianças, tirou o que se pode chamar de licença e ficou por aí, se dedicando aos filhos e também aos pais de outros filhos, principalmente aqueles que levam as crianças para brincar no parquinho do bairro.

Como a carne é mesmo fraca e disso todo mundo já sabe, VOCÊ acabou se “aproximando” de um desses pais, e se tornaram amigos. Sempre que podiam se encontravam para que as crianças pudessem brincar também, para que pudessem conversar sobre o stress do dia-a-dia e do mau humor de seus parceiros. Ele já é pai de quatro crianças, mas não da mesma mulher (esta, com quem ele está agora é mãe do último filho). Ele é lindo, tranquilão, engraçado, não reclama da vida como aquele chato do seu marido. Ele é desses tipos aventureiros e VOCÊ também, VOCÊs dois já traíram, mas nunca foram traídos, VOCÊs dois já realizaram fantasias sexuais bem picantes, VOCÊs dois amam curtir os prazeres da vida e isso inclui viagens, bebida, comida e algumas drogas leves. VOCÊs tem muito em comum, pra não dizer que têm tudo em comum.

Continua...

VOCÊ, apesar do cubículo em que vive, das crianças darem um trabalho danado e de ter um marido “daquele”, está contente da vida, se arruma todo santo dia, emagreceu, se tornou uma mulher positiva, otimista. VOCÊ acorda com aquela sensação de que tudo só pode dar certo. VOCÊ sente que está em sintonia com a força do Cosmos, que o universo conspira ao seu favor, que VOCÊ vai conseguir tudo o que VOCÊ deseja.

Não é que VOCÊ esteja apaixonada por aquele “pai”. ..Não, não! VOCÊs só são amigos mesmo, porque afinal de contas, são casados e só de pensar na possibilidade de... Só de pensar nesta possibilidade, VOCÊ estremece toda, fica nervosa: “Imagina o que o meu marido ia dizer? E a mulher dele?” Não. VOCÊ nunca chegaria a fazer nada, mas verdade seja dita: o cara não para de mandar mensagens no seu celular.

O chato é que ninguém no bairro está sabendo disso. Ninguénzinho... mas não por muito tempo.

VOCÊ decide então contar sobre seus encontros para uma das mães que tem seus filhos matriculados na mesma escola onde os seus e os filhos dele vão, mas VOCÊ não conta para mãe mais fofoqueira não. VOCÊ pega leve no começo que é pra ver no que vai dar sentir se o destino está a seu favor.

Essa pessoa com quem VOCÊ se abre não gosta nada nada dessa história, ela conhece a esposa do cara e acaba te julgando, dizendo que VOCÊ tem que parar, e que isso é horrível. VOCÊ não se conforma: Onde já se viu? Quem ela pensa que é pra te julgar assim?? Ah não! isso não! Só te faltava essa agora... VOCÊ vai com a melhor das intenções, se abre com ela, e o que VOCÊ ganha?

Não te resta mais nada, além de se afastar e começar a difamar a tal mulher. VOCÊ passa a ignorá-la na rua e na escola também, e sempre que pode, VOCÊ ri dela com suas amigas.

Ainda assim, com esse começo conturbado, VOCÊ decide continuar buscando alguém que queira te escutar e que te entenda, que não se oponha e que, além de tudo, te admire de alguma forma.

Enquanto VOCÊ não encontra esta ouvinte ideal, VOCÊ decide ir contando a sua aventura para qualquer um que VOCÊ julgue ser de confiança, e cada vez que abre a boca pra contar sobre esta sua nova aventura, vai sendo tomada por um sensação de plenitude que VOCÊ não consegue explicar.

Até que um belo dia, a casa cai para VOCÊ: Seu marido chato e a esposa ranzinza do cara intuem que algo está errado com esses encontros de VOCÊs, todas as mensagens e telefonemas, e com os comentários que escutaram no mercado, na farmácia, na escola das crianças. A esposa do cara se ira e dá uma ordem para que ele pare senão... senão... Ah! como VOCÊ gostaria de saber com o que ela o ameaçou. Ele nunca te falou exatamente, mas a verdade é que deve ter sido algo muito grave, porque o cara, de repente, parou de te ligar, parou de te mandar mensagens, parou de falar com VOCÊ sobre as taras dele e quais posições ele gostava mais. O cara, simplesmente, desapareceu. VOCÊ agora só o vê quando vai deixar as crianças na escola... ou no mercado, ou pelo bairro, mas nada muito pessoal. VOCÊ fica sem entender nada.

Já o seu marido, que parece não ter se dado conta do perigo que o casamento de VOCÊs estava correndo, fica contente com o fim de mais uma das suas amizades com pessoas do sexo oposto.

A sua situação é esta agora: O seu melhor amigo te abandonou, sem te dar muita satisfação. Que injustiça! Que falta de consideração. ..VOCÊ nunca foi tratada assim. E o pior não é nem isso: O pior é que o cara deu para escrever poemas de amor para esposa no Facebook. Que ridículo! Patético! Ele parece ter levado uma pancada na cabeça ou sei lá o que. Ele nem te nota mais. VOCÊ é como qualquer outra... Pelo menos é o que parece... ou será que ele só está dando um tempo?

No fundo no fundo, VOCÊ acha que o afastamento é passageiro, até que a poeira abaixe. “É isso”! VOCÊ decide então ligar pra ele e contar tudo, tudinho mesmo: como VOCÊ está se sentindo, a falta que faz as longas conversas que VOCÊs tinham no parque, enquanto as crianças brincavam. Notando que o cara não se comove muito, VOCÊ manda uma história antiga sua, uma dessas bem tristes mesmo, de quando VOCÊ era adolescente e começa a chorar (na verdade, VOCÊ fala da adolescência só para o cara não achar que o foco da ligação era ele). Ele faz alguns comentários meio frios e logo desconversa. VOCÊ desconversa também e logo desliga, finalizando o telefonema com “A gente se vê”.
Então, VOCÊ decide se vingar, porque ele merece. Nunca ninguém te machucou assim. VOCÊ começa a falar mal do cara pro bairro todo, mas como VOCÊ é dessas pessoas que falam muito e tem má memória, já nem se lembra mais para quem contou a história quando ela começou. É quando VOCÊ sai falando indiscriminadamente com todo mundo, os que VOCÊ conhece bem e os que VOCÊ não conhece tanto. Afinal, foi ele quem começou ou ela, a esposa... melhor então é já falar mal dos dois. “Eles se merecem mesmo”. VOCÊ não vai poder ficar por baixo, de jeito nenhum. Basta a porcaria de vida que VOCÊ vem levando nos últimos anos desde que o segundo filho nasceu... ou será que foi desde que o terceiro nasceu? VOCÊ já não lembra mais...

Já se passaram vários meses desde que ele parou de te procurar, mas VOCÊ ainda tem esperança de que ele o faça um dia, que te peça perdão de joelhos. A vida vai seguindo, assim meio sem graça e VOCÊ se sente tristonha, abandonada, injustiçada. Quem sabe VOCÊ procure ajuda profissional, pode ser que se trate de depressão? Tem dias em que VOCÊ já não se anima nem pra levantar. O que fazer? Como seguir? Como encontrar alegria na vida, quando o seu mundo desabou ? Não acontece mais nada de interessante. VOCÊ passa a fazer tudo de modo mecânico, sem botar muito sentimento nas coisas.

Até que um belo dia VOCÊ está lá, passeando com a filha mais nova, pensando nessas coisas. VOCÊ acredita em uma força maior, VOCÊ não sabe definir exatamente que força é essa, mas VOCÊ crê nessa força e crendo nisso, mentaliza o modo como VOCÊ gostaria que as coisas acontecessem. De repente é como se o universo estivesse te servindo com algo ainda melhor do aquilo que VOCÊ de maneira tão contundente estava desejando. VOCÊ ouve uma voz masculina que diz:
- Oi!
 VOCÊ responde: Oi, eu te conheço? Ah claro, VOCÊ é o fulano, pai da ciclana, que acabou de mudar aqui para o bairro. Que legal! Eu tô indo naquela direção e VOCÊ?

- Ah. Eu tô meio sem fazer nada. Posso ir caminhando com VOCÊ.

VOCÊ pensa: “Yes!!!!!!  Obrigada obrigada força do Cosmos. Obrigada por me ajudar. Eu sabia que existia algo além daquilo que a gente vê”.

O capítulo 1 tá aqui

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