25 de setembro de 2013

Ezequiel 47: Para onde nos leva o rio do templo

por Zé Luís

“Existe um rio, Senhor, que flui do seu grande amor...” já cantava os moços da Lagoinha.

Quem não conhece o assunto não percebe as analogias contidas à diversas passagens bíblicas descritas na vida do Messias. Para compreender, é necessário passar por certos “assuntos” dentro das citações da música acima mencionada.

Quando Cristo dá seu último brado na cruz, morrendo após seis horas de crucificação – a agonia poderia chegar a até três dias – é efetuado um procedimento militar romano para abreviar àquela pena marcial . Não convinha que malditos de cruz -assim eram classificados - ficassem ali expostos às vésperas de um dia sagrado judeu (os conquistadores romanos, mais inteligentes que muitos ateus, não procuravam provocar a crença alheia. Sabiam que chutar ídolos dos outros era sempre uma manobra perigosa) e aplicaram o procedimento padrão: aos dois ladrões que o acompanham ainda vivos na execução de Cristo tem as pernas quebradas, e sem firmeza desses membros, morrem asfixiados em seus próprios braços. Constatada a morte de Jesus, coube ao oficial executor garantir o óbito: uma lança perfura o corpo do Mestre através das costelas, atingindo o coração. João relata que nessa hora, além de sangue, água escorreu pela ferida aberta (chamado derrame pericárdico, formada em fina camada em torno do coração).

Alguns defendem que essa água é gerada através do sentimento profundo de “culpa”. O coração de Cristo sentiu a culpa que não era dele, e por isso, nos momentos finais de sua agonia, ao receber em si todos os pecados, inundado pela culpa humana, o Mestre se desespera, ao desfrutar pela primeira vez em sua eternidade, o abandono do Pai, dado a todo aquele que morre em pecado.

A “água” que flui, junto ao sangue, símbolos máximos do Cristianismo, é cantado por muitos, sem que se apercebam, como a nascente do Rio da Vida, citado tanto no Novo, como no Velho Testamento. Como na rocha machucada por Moisés, a agressão faz com que uma nascente surja em meio a sequidão e do deserto da desesperança.

Entre os profetas, Ezequiel, um dos meus preferidos, é convidado por Deus para “mapear” um templo. Um templo estranhíssimo, diga-se de passagem: Ele tem 4 metros de entrada, de fundo, laterais e altura, mas ele é muitas vezes maior por dentro, e sempre maior a cada andar que se sobe, multiplicando-se impossivelmente por dentro em espaço e altura.

O capítulo 47 desse mesmo profeta descreve a nascente de um rio, um filete de água nascendo por baixo do umbral da entrada oriental desse templo.

É dentro desta nascente que Ezequiel caminha e mede seu cumprimento e profundidade. Andará medindo cada passo dentro das águas. Elas vão rasas, mas de acordo com o jornada, vão se aprofundando a cada nova fase alcançada.

Dentro das analogias e claras comparações com nossa caminhada em Cristo, é do lado direito, por debaixo da “porta” que o rio nasce e flui. A porta, o caminho.

Andar dentro de águas pelas canelas não é tão complicado, apesar da resistência. Mas o texto mostra que o nível da água sobe gradativamente, até que em certo ponto, o rio alcança profundidade e largura difíceis de dimensionar, e uma caminhada nos afogaria. É necessário deixar de andar e começar a nadar.

Sim: tudo que faz enquanto permanece na caminhada não visa deixar sua existência no usual: o Reino não é óbvio, mas existem sinais que nos levam a deduzir que devemos nos preparar para viver de uma forma diferente do que normalmente fazemos. Nossa locomoção dentro daquilo que Ele propõe pode ser vista a longo prazo, mas inicialmente em muitos casos, não compreendida.

Manter-se dentro da correnteza é a certeza da dificuldade de nos equilibrarmos enquanto permanecemos no “rio da vida”, mas tudo é treinamento: permanecer nas águas, numa tarefa qualquer dada por ele, enquanto somos conduzidos a um propósito muito maior.

Muitos param, exaustos, enjoados com os pés sempre molhados, ou com a água na cintura sempre nos mantendo em um ritmo e postura incompatíveis com quem anda no seco, e que não tem a minima obrigação de permanecer na correnteza. É natural o desânimo de viver como vivemos.

Mas é lá na frente que está o motivo para tudo isso: Enquanto andamos achando que prestamos um precioso serviço para o Reino, nos purificamos, e enquanto a limpeza acontece, mais aptos ao novo mundo somos, nossos olhos se abrem, nosso modo de se locomover se adapta gradativamente, e contrariando a teoria evolucionista, retornamos às águas, nos juntando ao rio capaz de purificar um mar.

(Caso você queira saber a qual música me refiro, segue abaixo).