14 de outubro de 2013

Aquela sensação frustrante de que as coisas poderiam ter sido melhores...

por Zé Luís

Não são poucos os filmes sobre viagens no tempo: pessoas que retornam em pontos cruciais da história, onde uma simples escolha fará toda a diferença e tentam mudar seus destinos.

Não precisamos ir muito longe:

O momento em que se percebe que um pequeno ajuste poderia fazer toda a diferença na vida do próximo, quando o vê insistindo e errando em coisas simples, atribuindo a Deus  - ou ao inferno seu fracasso, já que não consegue entender onde está a falha. Torna a cometer o erro, amaldiçoa o dia, e se julga incapaz e burro.

Aquela fase do jogo que você não consegue passar, mas um outro jogador conclui sem problemas, enquanto conversa ao telefone sobre um assunto totalmente diferente.

Aquele músico eternamente iniciante que insiste em fazer a passagem errada por falta de conhecimento técnico, o bendito “solinho” que faz toda a diferença e simplesmente não sai. O outro, mais completo e experiente, de cara, saca na hora que aquele ali se aventurou na “raça”, sem passar pelos degraus necessários para uma compreensão mais completa e portanto, tenta executar suas notas sem sucesso. O experiente sabe exatamente o que falta no outro.

O menino com talento para o desenho, mas tem dificuldades em reproduzir suas ideias: sua falta de noção sobre conceitos como perspectiva, profundidade, sombra e luz. O artista sabe e quer ajudar, revela o que falta para o menino talentoso que quer desenhar e não consegue: existe um caminho a ser trilhado, com tentativas e erros, até que ele alcance seu sonho... ou fique na mediocridade, sempre meio, sempre “quase bom”.

No serviço, o funcionário percebe o colega acabrunhado com seu casamento. De uns tempos para cá deixou de sorrir: sua relação com seu cônjuge não vai bem e quando ouve as discussões que eles tem pelo telefone, vê que são questões simples, até tolas. Se tivesse um pouco mas de liberdade com o colega, poderia ajudar a salvar aquele casamento.

O adolescente que erra nas escolhas e caminhos, e só de olhar de fora, sabe-se exatamente onde aquele caminho dará.

A moça que se entrega a uma paixão que a levará à ruína emocional, espiritual e psicológica, mas não há quem consiga falar à razão que nela um dia existiu, já que esta permanece afogada nos devaneios de paixão: ela só ouvirá o que o coração disser.

Muitos de nós, com um pouco mais de experiência na vida, sabe que o destino dessas pessoas poderia ser melhor, sabe que um pequeno redirecionamento naquela existência faria toda diferença. É um detalhe, um macete, um pouco mais de esforço ou um completo redirecionamento. O êxito naquelas coisas seria possível se estivessem abertos a ajuda, ou se ouvissem que, em alguns casos, era um desperdício de tempo e vida, não valia a pena dar continuidade. O que era mistério para essas pessoas, para outros é apenas o claro e óbvio, além de ser nítida perda de tempo.

Infelizmente, existe uma razão para estarem como estão: quase nunca aceitam ajuda. O desenho continuará torto, a música desafinada, incompleta. O garoto trilhará seu erro, a moça experimentará coisas que desejará não ter vivido, o casamento se findará e mais uma família se fará em pedaços. Eles não estão abertos a mudar: sentem-se maravilhosos demais para aceitar a opinião não solicitada. Devemos cuidar de nossas vidas...

Tem gente que é assim: não aceita.

E assim, absurdamente, vivemos todos, sem olhar para o céu para tentar ouvir o que de lá pode ser dito. Sem aceitar auxílio que nos redirecione para melhores pastos, que nos faça desistir de caminhos errados, e sermos saudáveis.

Mas há o silêncio Dele...! Você certamente já deve ter pedido o auxílio, uma palavra, uma dica qualquer por diversas vezes. E talvez tenha ouvido algo que não gostou. Ou simplesmente, não ouviu nada. Você só queria ouvir um sim.

Não: Ele não se pronunciará. 

Convencer ao adultero que ele está errado? Ele sabe. Deus não te contará o óbvio quando você mesmo sabe. Alguém poderá inclusive orar a respeito, pedir para ser abençoado nessa relação, esperando que as coisas se encaixam como acontecem nas novelas, mas o Todo Poderoso simplesmente se calará até um dia, inesperadamente - e com muita sorte – te despertar, no meio da madrugada, com o silêncio esmagador de quem cobra pelo que você fez de sua existência, e que na verdade, nunca foi sua.

Nós, em nossa arrogância, achamos que Deus tem que se pronunciar. Mas talvez, Ele também deva cuidar da própria vida, se não tiver algo agradável para te dizer: Ele sabe o que você diria antes de você abrir sua boca, prevê certos diálogos improdutivos antes que eles ocorram. Até nós, simples humanos, conseguimos prever as discussões que teremos quando conversamos com certas pessoas.

Mas pense por esse lado: se você não aceita ajuda daquele que está ao seu lado e é capaz de entender e ver, como esperar auxílio de onde parece realmente não crer?

É tempo de cair na realidade, abandonar essa sensação de vítima do mundo. As vezes, realmente, se está preso a situações e destinos. Mas... as vezes o maldito orgulho te castra. Fazer do seu jeito incompleto pode ser mais frustrante do que aceitar alguma ajuda.