4 de outubro de 2013

Confissões de pastor

por Zé Luís

Tenho amigos pastores. Alguns conhecidos aqui, em comentários que ninguém mais leu.

Não é necessário que saibam seus nomes, e bem possivelmente o que se seguirá seja apenas coletâneas sobre invenções, ficções sobre pessoas que abraçaram uma vocação quando nem sabiam ao certo o que isso significava.

Meu amigo pastor “imaginário” parece ter dificuldades em lidar com essa banalização do que chama ministério. O mesmo título que lhe concede certa autoridade diante dos fiéis, acaba por trazer certas crises com o decorrer do tempo.

Desde o começo, bem antes de conquistar esse título, era natural ter que lidar com o pré-conceito popular sobre o suposto interesse no pastorado ao cargo por causa dos dízimos e ofertas. Ele, no caso, não entrou nessa por dinheiro, embora ele mesmo confesse que atualmente esse caminho pode realmente ser bem rentável para quem pretende trilhá-lo. 

Preciso de um nome para esse ministro evangélico. Teófilo, um nome bíblico.

Umas das coisas que o pastor Teófilo me contou - embora só o chame pelo nome quando conversamos, dispensando o título em frente ao nome – é a solidão.

No início, ele gostava de ser respeitado, daquele olhar meio maravilhado que as pessoas dirigiam a ele, se ria dos garotos atrevidos com suas pegadinhas bobas sobre a veracidade da Bíblia, ou se esse ao aquele uso e costume ainda são aceitáveis. Ouvia as confissões de seu rebanho, aconselhar no que sabia e no que não sabia também: os adultérios e as fornicações, os abortos e abusos.

Ao contrário, meu amigo Téo não poderia falar abertamente sobre sua humanidade com suas ovelhas. Seus outros amigos pastores não se arriscariam a abrir-se, já que mais tempo, menos tempo, isso vazava, e virava moeda de negociação de cargos.

Certamente, igreja era um lugar para as pessoas devidamente “convertidas” esconderem quem eram. É sabido que um irmão fraco não consegue ingerir coisas que crê ser de procedimento maligno, seja alimento ou informação, e como Paulo mesmo disse, melhor que não se faça na frente deles, mesmo que não te afete em nada: é pelo fraco que fingimos não suportar o que suportamos.

Téo precisava de uma amigo, um cristão que conseguisse reconhecer e aceitar a própria humanidade, e saber que os títulos outorgados por homens - sejam eles pastor, bispo, apóstolo, arcanjo – muitas vezes dão aos crentes atuais uma obrigação de se mostrarem sempre superiores espiritualmente – seja lá o que isso signifique.

O pastor Téo brigava com a mulher em casa, e tinha problemas com o filho gay, ou viciado, ou com o casamento arruinado, de fachada, que ele mesmo celebrara. Meu amigo precisava chorar, precisava revelar que sua fé já não era a mesma, e que lutava para continuar crendo no que fazia.

Certamente você, leitor mais preparado que meu amigo, teria uns bons versículos para esbofeteá-lo e fazê-lo tomar jeito de homem-santo. Mas acredite: não foram poucas as vezes que ele leu a bíblia de capa a capa, e mesmo os teólogos mais atentos não conseguem tirar muitas críticas negativas de suas pregações.

O problema é o título: nós sabemos, eu e meu amigo, que existem pessoas nas comunidades que são como aqueles que veem um garoto empinando uma moto: torcem para que caiam, outras são incapazes de aceitar um pastor humano, e tem que humanidade e ministério são sinônimos de impostor. Todos contam tudo, mas ninguém aceita ouvir dele uma bobagem: ele deve ser sábio, íntegro, impecável. Quando o pastor chega, as pessoas disfarçam, não foi um homem que chegou, mas um símbolo.

O título concedeu-lhe uma distância inexplicável entre as pessoas, e mesmo entre os seus companheiros de “ministério”, não há tanta cumplicidade: acabam por ser concorrentes, e mesmo que um ou outro revele sua humana promiscuidade, ele é um cristão e isso não lhe causa nenhum bem estar, mesmo que em algum momento, ele como homem que é, tenha se excitado com aquelas histórias. Abafar o nojo que sentiu na reunião de seus pares quando planejavam manipular seus fiéis nas próximas eleições, e de como sua repulsa foi mal vista por seus superiores.

As ovelhas não podem saber disso, pelo menos as imaturas. E muitas das raras amadurecidas, que podem comer de tudo por crerem no poder purificador do Sangue, acabam tornando-se, aos poucos, cínicas ou amargas.

Meu amigo e eu entendemos o sentido da pergunta de Cristo:
Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra …

Por hora, fiquemos assim.

Teófilo dará voz ao pastor, pastora, e talvez os seus. 

Um comentário:

  1. PoiZÉ... O tal do rótulo tem um poder sutil e gradativo. Tanto na mente do rotulado quanto na do rotulador. Quem aceita o rótulo se escraviza e se corrompe. Quem rotula cobra e se apodera. Ambiente fértil para colocar as máscaras...

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