23 de outubro de 2013

Para cada tarefa, sua ferramenta...

por Zé Luís

Gosto de ferramentas. Pudesse, teria uma garagem cheia delas. Quando criança, morava numa rua sem saída e no fim da rua uma grande oficina de veículos, com direito a funilaria, elétrica, mecânica. Claro: eu e os outros meninos invadíamos o local durante as brincadeiras inocentes da época , e ficávamos olhando aquele monte de peças de metal penduradas numa chapa de madeira na parede. 

Um dia, um dos mecânicos me explicou a sutil diferença, ao me pedir um alicate de corte no lugar de um universal. Sem saber, peguei um alicate de pressão, quando ele, debaixo de um carro, me pediu a ferramenta para liberar a fiação amarrada numa calha do velho veículo. O alicate que levei não cortava, apenas tinha a capacidade de apertar uma peça de tal forma que se tornava uma alavanca. O universal corta fios, não tão bem quanto o de corte, e aperta, não tão bem quanto o de pressão, mas atende em certas ocasiões.

Encantei-me: chaves de fenda, Philips, Torx, Allen, estrela de de boca... uma para cada situação e propósito. O material de cada parafuso e prego, rebite e porca, se o uso é para altas temperaturas ou ficar exposto ao tempo.

Nem tudo era martelo e prego, tem tudo era madeira e serrote, únicas ferramentas disponíveis na caixa de ferramenta de meu pai. Ate aquele dia, mesmo quando haviam parafusos, e eu não tinha a ferramenta certa, o martelo fazia seu porcamente trabalho.

Depois de casado, descobri outra oficina: a cozinha! A panela certa, com a mistura equilibrada de tempo e tempero, a mágica de se preparar mais que miojo e ovos mexidos. A escumadeira certa, o tempo de pressão na panela para deixar a carne tenra. Alquimia!

Fui  percebendo a  necessidade de ferramenta certa para cada situação: aprender a manejar o bom senso. Descobri que as coisas não aconteceram em alguns momentos cruciais, coisas que nos frustram, nos desiludem, nos fazem questionar de forma idiota a existência de deuses ou de Deus, simplesmente por não sermos capazes de entender que ali não era momento de bater, e sim de apertar, ou cortar. 

Certamente você conhece alguém que olha para vida e sempre toma a mesma atitude para os mais diferentes situações, agir da mesma forma numa relação ao responder a diferentes questionamentos com o mesmo comportamento, pensando que o que resolveu um dia continuará resolvendo, o velho pregador que não se deu conta que não se atualizou seu velho discurso de sucesso e continua falando sobre tempos onde seus sermões arrastavam multidões.

A ferramenta certa para cada tempo, sabendo reconhecer quando o jovem já não existe mais em nós. Tem o senso de ridículo como ferramenta para não prestarmos papéis imbecis, envergonhando os que nos amam.

Essa é uma pequena história sobre nós, e nossa teimosia burra por ignorar o que, quando e como usar os "talentos" que nos são dados.