Acho que acabou mesmo: Vou pescar...

por Zé Luís

Disse Pedro, levantando-se em direção as redes abandonadas, guardadas a mais de três anos, quando num ímpeto de fé, saiu pelo país acompanhando quem ele cria ser o próprio Deus encarnado. Ele imaginava ser o agente dos céus na Terra. Pensava que estava em uma missão sobrenatural e que os anjos dos céus estavam a sua disposição, como quem tem uma tropa de choque para protegê-lo em eventuais probleminhas.

Mas tudo desmoronou: o Deus que ele acreditou morreu desgraçadamente, os poderes que aquele homem tinha não o livraram de ser humilhado sistematicamente por todos: morre escarrado, xingado, torturado, nú, em dores, diante de qualquer um que quisesse ver seus últimos momentos nessa vida e estivessem passando pela rua naquele momento. Às portas de Jerusalém, o Todo-Poderoso agonizava entre gente da pior espécie



Pedro? O homem que se dizia fiel até a morte? Desde que a crise começou, só fez besteira: dormiu durante a oração final, a mais angustiante feitas por Jesus. Cortou a orelha de um soldado no momento da prisão do seu Mestre(que raios ele fazia armado?).

Tudo bem: ele foi o único que seguiu o Messias, mas sua coragem só foi até aí: quando perguntaram se ele era discípulo daquele que os sacerdotes torturavam na madrugada, lá se foi o cabra macho: negou seu mestre aos palavrões, e não bastasse uma, fez por três vezes.

De onde Jesus estava, pode ver a negativa do discípulo mais fervoroso, e Pedro, viu que ele viu. Seus olhares se encontraram naquele momento.

Ali, o orgulhoso Simão Pedro se descobriu, viu que seus ímpetos e discursos públicos de fidelidade eram pó. Suas palavras e belos discursos, diante da necessidade de salvar a própria pele, eram descartáveis.

Tudo acabado: o homem chamado para ser pescador de homens agora se escondia numa sala, com seus companheiros de discipulado, igualmente apavorados.

Rumores diziam que Jesus havia voltado dos mortos, mas é comum que inventemos histórias para amenizar a dor de nossas perdas. E mesmo que Ele estivesse vivo: como encará-lo após tamanho vexame? Mas viver com a vergonha de ter se acovardado?

Alto mar, de volta a velha profissão, e aos mesmos fracassos: nada pescado, nenhum sustento colhido do mar, como sempre acontecia: eles, Pedro e seus amigos, não eram tão bons assim, e sem o Cristo, eram ainda menos. Quando o Mestre os chamou há anos atrás, eles também nada tinham pescado. O diferencial naquele dia fora o milagre, as redes cheias de dia, após toda uma madrugada infrutífera pelas águas de Tiberíades.

- O que vocês tem aí? - grita um desconhecido na praia, quando os pescadores retornam de mais uma pescaria.
-Nada – respondeu um dos pescadores – nada pescamos a noite toda... de novo...
-Lancem a rede a sua direita.

Eles lançaram. Há alguns anos aprenderam a não questionar essas ordens, e novamente, como daquela primeira vez, a rede se encheu. João, não pela aparência daquele que lhes deu ordem, mas pela forma que falou, identificou quem era: É Ele!

Deus, as vezes, nas menores coisas, nos dá o benefício da dúvida, nos mantendo sempre dependentes da fé para tirarmos nossas conclusões, mostrando quem realmente somos. Não era o mesmo rosto que estava na praia, mas era o mesmo Deus companheiro que estava ali, encarnado.

Pedro entendia isso e diante dessa possibilidade, viu a chance de não ter como sua última lembrança de seu amigo ser a vergonha de tê-lo negado: destrambelhado, salta do barco com sua túnica recém-vestida (estava nu durante a pesca) ao seu encontro. Não foi capaz de esperar com que a embarcação navegasse mais noventa metros até chegar ao homem no seco.

Pedro chega a praia, e ali estava Ele. Sim, o Mestre dos anos passados e agora da eternidade, já com seu peixe sobre pão, sendo preparado em brasas.

Ele não precisava de peixe nenhum: só queria dar um milagre, seu cartão de visitas e deixar que eles decidissem se quem estava ali era ou não o Criador de Universos.

O Homem manda que recolham os peixes da pesca e convida a todos para a refeição. A janta está na mesa, e tem assuntos a tratar com Pedro. Deus vem reafirmar seu propósito com aquele que o negou.

Pedro crê que sua postura compreensivelmente covarde, seus seguidos erros em uma noite tão decisiva, haviam feito o Mestre desistir dele, e fazer com que fosse demitido de sua posição de apóstolo.

-Chame meus discípulos...e Pedro – citou Jesus, numa aparição anterior, também após a crucificação.

Não: não é tarde demais para botar em prática seu discipulado e ensinar o que se aprende com o Messias. Se necessário, Ele em pessoa virá restaurar seu caminho para que o Caminho alcance suas almas, apesar das imensas bobagens que fazemos durante nossa jornada para o Reino.

Pedro não cabia mais naquela vida passada de pescador, e continuava a fracassar ao tentar voltara para esse ofício. Jesus voltou para mostrar mais que declarações de amor: Ele veio para que suas ações falassem mais que palavras, que o amava, embora não ignora-se que Simão Barjonas o havia traído.

Por tres vezes, ele o negou. Por tres vezes, ele teve que repetir a mesma resposta para a mesma a mesma pergunta:

“Tu realmente me ama, Pedro? Então, cuida das minhas ovelhas ...”

As vezes, imaginamos castigos horríveis de um Deus que lança ao inferno. Mas o evangelho – e qualquer outro que seja ensinado que não seja esse, que seja considerado amaldiçoado – mostra um Senhor disposto a tudo para que refaçamos nossa trilha estúpida, e voltemos àquele caminho que nos leva a povoar o Reino, como nos foi dito que assim seria feito.

“Serás pescador de homens...”

E assim foi, apesar dos pesares.

Comentários

  1. PoiZé (como diz a Regina)...

    Verdadeiras pregações estes seus textos. Glória a Deus por eles.
    Me encheu a alma de alegria.

    E apesar dos pesares, saio daqui sabendo que Cristo não desistiu de mim, apesar das minhas estupidezes...

    Abraços.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Os 10 números mais significativos da bíblia

Sobre anjos: 10 erros comuns

A batalha na"vida de inseto": o despertar.