23 de julho de 2014

Acho que acabou mesmo: Vou pescar...

por Zé Luís

Disse Pedro, levantando-se em direção as redes abandonadas, guardadas a mais de três anos, quando num ímpeto de fé, saiu pelo país acompanhando quem ele cria ser o próprio Deus encarnado. Ele imaginava ser o agente dos céus na Terra. Pensava que estava em uma missão sobrenatural e que os anjos dos céus estavam a sua disposição, como quem tem uma tropa de choque para protegê-lo em eventuais probleminhas.

Mas tudo desmoronou: o Deus que ele acreditou morreu desgraçadamente, os poderes que aquele homem tinha não o livraram de ser humilhado sistematicamente por todos: morre escarrado, xingado, torturado, nú, em dores, diante de qualquer um que quisesse ver seus últimos momentos nessa vida e estivessem passando pela rua naquele momento. Às portas de Jerusalém, o Todo-Poderoso agonizava entre gente da pior espécie



Pedro? O homem que se dizia fiel até a morte? Desde que a crise começou, só fez besteira: dormiu durante a oração final, a mais angustiante feitas por Jesus. Cortou a orelha de um soldado no momento da prisão do seu Mestre(que raios ele fazia armado?).

Tudo bem: ele foi o único que seguiu o Messias, mas sua coragem só foi até aí: quando perguntaram se ele era discípulo daquele que os sacerdotes torturavam na madrugada, lá se foi o cabra macho: negou seu mestre aos palavrões, e não bastasse uma, fez por três vezes.

De onde Jesus estava, pode ver a negativa do discípulo mais fervoroso, e Pedro, viu que ele viu. Seus olhares se encontraram naquele momento.

Ali, o orgulhoso Simão Pedro se descobriu, viu que seus ímpetos e discursos públicos de fidelidade eram pó. Suas palavras e belos discursos, diante da necessidade de salvar a própria pele, eram descartáveis.

Tudo acabado: o homem chamado para ser pescador de homens agora se escondia numa sala, com seus companheiros de discipulado, igualmente apavorados.

Rumores diziam que Jesus havia voltado dos mortos, mas é comum que inventemos histórias para amenizar a dor de nossas perdas. E mesmo que Ele estivesse vivo: como encará-lo após tamanho vexame? Mas viver com a vergonha de ter se acovardado?

Alto mar, de volta a velha profissão, e aos mesmos fracassos: nada pescado, nenhum sustento colhido do mar, como sempre acontecia: eles, Pedro e seus amigos, não eram tão bons assim, e sem o Cristo, eram ainda menos. Quando o Mestre os chamou há anos atrás, eles também nada tinham pescado. O diferencial naquele dia fora o milagre, as redes cheias de dia, após toda uma madrugada infrutífera pelas águas de Tiberíades.

- O que vocês tem aí? - grita um desconhecido na praia, quando os pescadores retornam de mais uma pescaria.
-Nada – respondeu um dos pescadores – nada pescamos a noite toda... de novo...
-Lancem a rede a sua direita.

Eles lançaram. Há alguns anos aprenderam a não questionar essas ordens, e novamente, como daquela primeira vez, a rede se encheu. João, não pela aparência daquele que lhes deu ordem, mas pela forma que falou, identificou quem era: É Ele!

Deus, as vezes, nas menores coisas, nos dá o benefício da dúvida, nos mantendo sempre dependentes da fé para tirarmos nossas conclusões, mostrando quem realmente somos. Não era o mesmo rosto que estava na praia, mas era o mesmo Deus companheiro que estava ali, encarnado.

Pedro entendia isso e diante dessa possibilidade, viu a chance de não ter como sua última lembrança de seu amigo ser a vergonha de tê-lo negado: destrambelhado, salta do barco com sua túnica recém-vestida (estava nu durante a pesca) ao seu encontro. Não foi capaz de esperar com que a embarcação navegasse mais noventa metros até chegar ao homem no seco.

Pedro chega a praia, e ali estava Ele. Sim, o Mestre dos anos passados e agora da eternidade, já com seu peixe sobre pão, sendo preparado em brasas.

Ele não precisava de peixe nenhum: só queria dar um milagre, seu cartão de visitas e deixar que eles decidissem se quem estava ali era ou não o Criador de Universos.

O Homem manda que recolham os peixes da pesca e convida a todos para a refeição. A janta está na mesa, e tem assuntos a tratar com Pedro. Deus vem reafirmar seu propósito com aquele que o negou.

Pedro crê que sua postura compreensivelmente covarde, seus seguidos erros em uma noite tão decisiva, haviam feito o Mestre desistir dele, e fazer com que fosse demitido de sua posição de apóstolo.

-Chame meus discípulos...e Pedro – citou Jesus, numa aparição anterior, também após a crucificação.

Não: não é tarde demais para botar em prática seu discipulado e ensinar o que se aprende com o Messias. Se necessário, Ele em pessoa virá restaurar seu caminho para que o Caminho alcance suas almas, apesar das imensas bobagens que fazemos durante nossa jornada para o Reino.

Pedro não cabia mais naquela vida passada de pescador, e continuava a fracassar ao tentar voltara para esse ofício. Jesus voltou para mostrar mais que declarações de amor: Ele veio para que suas ações falassem mais que palavras, que o amava, embora não ignora-se que Simão Barjonas o havia traído.

Por tres vezes, ele o negou. Por tres vezes, ele teve que repetir a mesma resposta para a mesma a mesma pergunta:

“Tu realmente me ama, Pedro? Então, cuida das minhas ovelhas ...”

As vezes, imaginamos castigos horríveis de um Deus que lança ao inferno. Mas o evangelho – e qualquer outro que seja ensinado que não seja esse, que seja considerado amaldiçoado – mostra um Senhor disposto a tudo para que refaçamos nossa trilha estúpida, e voltemos àquele caminho que nos leva a povoar o Reino, como nos foi dito que assim seria feito.

“Serás pescador de homens...”

E assim foi, apesar dos pesares.

Um comentário:

  1. PoiZé (como diz a Regina)...

    Verdadeiras pregações estes seus textos. Glória a Deus por eles.
    Me encheu a alma de alegria.

    E apesar dos pesares, saio daqui sabendo que Cristo não desistiu de mim, apesar das minhas estupidezes...

    Abraços.

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