15 de julho de 2014

Você, um mentiroso!

por Zé Luís

“Devido a dificuldades na empresa, não poderemos dar seu aumento salarial...”

“O celular deveria estar fora de área... eu realmente não notei que havia recado...”

"Sim! Te aceito do jeito que você é..."

“Nunca! Nunca me passou pela cabeça isso!!! Você está enganado a meu respeito! Me sinto ofendido!”

“Não tenho trocados... Claro que acredito em sua história! E me comovi com isso que me disse...”

“Eu te amo, e te amarei para sempre! Sempre juntos estaremos no que depender de mim.”

“Confie em mim.”

Não olhe agora, mas muito próximo de você há alguém que mente.

Calma: não digo que ele – ou ela – é o chamado “mentiroso”. Talvez seja apenas alguém se preservando, e usa a mentira para evitar exposições que revelem quem ele não quer que seja visto.

Talvez, precise apenas de melhorias em sua autoimagem, sua posição profissional, seu currículo, manter estáveis suas relações familiares, conjugais.



A mentira virou ferramenta para manter egos em alta e é usada amplamente. Muitos sabem a verdade, mas outros mais preferem ter as inverdades como forma de aceitar a vida.

Segundo pesquisas todos nós mentimos todos os dias, e não poucas vezes. A pesquisadora, divulgadora das estatísticas, falou em até exageradas dez vezes por hora!

Bons crentes deveriam ficar indignados com esse lado caído de nossas almas: Oras! O diabo é o pai da mentira (e não do rock, como se conta por aí). Estranhamente, essa indignação só atinge pecados relacionados a sexualidade. Por exemplo; pode-se mentir, não admitindo seu homossexualismo, mas jamais admitir ser gay.

A criança diz: quero mais doces, e você diz que acabou, embora o armário ainda esteja cheio deles: se ele comer mais, ficará doente, e o pequeno não consegue lidar bem com negativas. Cedemos a mentira para não ter que ceder aos apelos da criança mimada.

A mulher jura que é fiel, o marido garante. “Mas eu sou!”- protesta um, fazendo-se de rogado(a) sobre sua falta de coragem para dar o passo que sempre quis, cometer a maldade que as vezes perambula pelos corredores de sua alma. Talvez realmente nunca tenha acontecido, mas os porquês disso não ter acontecido sempre serão um mistério. Então se nega a necessidade, oculta-se a vontade, omite-se os verdadeiros impulsos.

Ah! Ainda insistindo? Você não mente? Nem para você mesmo? Nunca negou suas intenções em suas perguntas? Nunca escondeu a realidade que te alavancou a tomar atitudes mais absurdas, e recontando sua história bonita, editou a informação, tornando você inocente, herói - ou mesmo, vítima – em sua versão?

Deve ter algo muito estranho nos casamentos desfeitos: as versões de ambos tem motivos que o outro ignora ou nega. Ela o acusa, ele revida (não necessariamente nessa ordem) e na maioria dos casos, os dois são inocentes, vítimas e vilões, simultaneamente, bastando apenas ouvir a versão individualmente.

Nem o santo se safa! A distorção de uma história – mesmo que sagrada – para que se obtivesse um objetivo justificável. Não é assim que nascem as heresias? A História está tão contaminada com nossas mentiras e pequenas variações que fica difícil até ser crédulo. A maioria das versões de uma verdade nascem pela necessidade que um lado tem em justificar suas ações, e escrever como bem entendem suas memórias, para que seja compreendido pelos tempos como justo.

Embora, contra fatos não existam argumentos, torturados não foram agredidos, segundo seus torturadores - que gozam de sua gorda aposentadoria e posam em seus quadros em imagens heroicas. Jornais e revistas contam suas histórias, acordando com a vontade de quem quer ser beneficiado e pode pagar por isso. Líderes manipulam as massas em suas igrejas, pinçando frases e versículos santos que justifiquem suas ações em nome de Deus (possivelmente para que seus seguidores não se sintam tão desconfortáveis quando perceberem que o lugar destinado a adoração ao Divino está sendo usado para manobras políticas).

Verdades são sempre absolutas. Verdades relativas, que dependem do lado que conta, na verdade são formas de contar uma mentira, uma versão de um fato que não é mais fato.

Alguém grita: Mentira! Sou franco! Na verdade, ele só que mostrar o quanto é melhor que os outros que são descaradamente mentirosos.

“O que é a Verdade?” - perguntou Pôncio Pilatos a Jesus, quando estava prestes a condenar o Messias a morte. A pergunta foi retórica: O governador não queria saber realmente do que se tratava essa cada vez mais desconhecida “coisa”, embora nisso, repouse a segurança de viver eternamente.

A Verdade? A História será recontada, usando como critério exatamente isso, e então, a Justiça dirá quem é quem.

Sim, meu caro: no fim dos fins existe uma promessa, e nela serão revelados as personagens dessa imensa literatura que escrevemos com nossas existências.

Ou seria essa promessa outra mentira? Sim, sim? Não, não?

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