3 de outubro de 2014

Hotel Ruanda: Esse meu bloqueio para falar a crentes.

 por Zé Luís 

 (*Atenção: alguns espoilers sobre o filme Hotel Ruanda)

É tempo de eleição em meu país.

Não sou um menino já há algum tempo e embora meus poucos conhecimento de Política, História, Religião, estejam perto do medíocre, bem próximo de estar abaixo do mínimo necessário, estão bem acima do da maioria dos meus conterrâneos. A busca por águas de fontes jornalísticas não contaminadas fora do cenário nacional ajuda.

Aqui, procuro falar aos que frequentam o mesmo tipo de culto que eu,( já que parece não proferirem a mesma fé) que não há religião, apenas Jesus e seus ensinamentos. Por isso fui  - e sou  - classificado confuso por tantos: “você não parece crente, evangélico”, embora ninguém se arrisque a dizer que algum de meus atos e posturas não lembre as ações e erros de um discípulo do Mestre.

Dia desses, um velho conhecido do que chamamos “blogosfera”, um irmão em Cristo até então, soltou uma frase em rede social afirmando que cristãos que votam em determinado partido – no caso, o PT – estão desclassificados como discípulos de Cristo, segundo seu entendimento.

Entristeci-me com o companheiro de anos de postagens. Esse, eu sei, não é pago por partidos para escrever o que escreve, nem é um sujeito tão desinformado ou distraído, a ponto de repetir e compartilhar coisas sem conhecimento de causa. Vi sim, o dinheiro juntar pessoas e ideias diametralmente opostas ao que defendiam antes da eleição apenas para tentar tirar um partido e colocar outro. É a força da grana, que já corrompe por séculos, criando adoradores da Fortuna (que é Mammon) e ofendendo ao Espírito, segundo meu entendimento. Não duvido.

Mas não era o caso do meu companheiro blogueiro crente.

Não direi quais são meus candidatos e a quais partidos eles são coligados, talvez alguém possa imaginar que minha indignação e tristeza sejam por estar do lado oposto de sua linha limitadora do que é ou não crente. Não é isso.

Na linha de raciocínio implantada nas igrejas nos últimos meses – além da forte campanha publicitária (não jornalística) – o atual governo tornará o Brasil um ”comunismo”, palavra- graveto que se usa para cutucar os formigueiros evangélicos deixando as formigas-ovelhas apavoradas e correndo em círculo. Aconteceu também na última eleição em 2010(vimos gente "sambando" no espírito, enquanto garantiam através de suas profetadas que deus tiraria a Dilma naquele eleição..."deus faiô). 

Talvez você, que não frequenta igrejas evangélicas não saiba, mas centenas de pastores cancelaram seus cultos para exibir uma montagem partidária paga de um pastor explanando o plano Iluminatti para dominar o Brasil através da atual presidente. O mesmo se fez contra Lula por dois mandatos. E o apocalipse prometido não aconteceu em nenhuma das ocasiões.

E agora, dentro dessa linha de pensamento, meu - até então - irmão em Cristo desclassificou a todos os votantes daqueles candidatos ligados ao partido de “não cristãos”.

Já o conheço há anos e não poderia rotulá-lo de cínico. Creio eu que a máquina de eleições do Brasil fez com que ele tivesse esse rompante tal como certo episódio acontecido no genocídio africano, retratado no filme Hotel Ruanda, que conta a história real de Paul Rusesabagina, gerente de um hotel, que salvou centenas de compatriotas, quando o aumento da tensão entre a maioria hutu e a minoria tutsi, duas etnias de um mesmo povo que ninguém sabe diferenciar uma da outra a não ser pelos documentos, explodiu em um genocídio que matou mais de um milhão.

O episódio mostra um pastor evangélico - de uma etnia – trancando as portas de sua igreja e ateando fogo em toda a sua congregação, de etnia oposta, assassinando a todos em nome de suas convicções políticas, deixando a fé e a crença no Amor de Jesus de canto, apenas para momentos onde a política não precisa ser usada.

Vale a pena ressaltar que a História revela que nunca houve nenhuma diferença de raças até os colonizadores chegarem e dividirem o povo, convencendo-os sobre essa coisa entre hutus e tutsis, usando o ensinamento de Jesus para enfraquecer aquele povo: “Uma casa dividida não subsiste”. Assim aquele povo foi dominado.

Dividiram o povo e quando partiram, abandonando a colonização, a mentalidade de etnias superiores e inferiores permaneceu, estopim da carnificina, pela raiva de ter diferentes em seu convívio (e que realmente nunca aconteceu).

As consequências dessa desgraçada forma de se fazer política no Brasil podem ser sentidas nesses termos. Não precisa ser profeta para sentir o cheiro do sangue que poderá vir. Pode-se sentir os gritos abafados dos separatistas sulistas ganhando força, do racismo cada vez mais explícito, da casta do sudeste repudiando nordestinos e seus sotaques, da bolacha versus o biscoito.

Meu amigo ex-irmão não cita as atrocidades das religiões, como os extremistas mulçumanos que decapitam cristãos. Eles não são comunistas, são religiosos e assassinam as centenas enquanto gritam “Deus é grande”. Não enxerga o método do inferno, só a necessidade de captar eleitores para seu candidato favorito, sem se importar com as possíveis consequências, o preço de se propagar a divisão e o ódio, por mais que o discurso amoroso de crente tente esconder suas intenções.

Disse a ele: as eleições vão passar. E com elas, nossa antiga amizade.

Sugiro que a partir dessas eleições seja bom perguntar na porta das igrejas a qual partida o pretendente a salvação é simpatizante, para não ocorrer de ele perder o céu inadvertidamente ao confessar voto em candidatos não autorizados pela atual liderança evangélica nacional. Pode parecer exagero, mas um conhecido teve sua "candidatura" a pastor negada ao ser revelado que votaria em Lula, na época.

Também poder-se-ia incluir nas matérias ensinadas nos seminários para formação de pastores - ou mesmom um recall a de “cabo eleitoral”: como lidar com interesses políticos e manipulação das massas no lugar destinado exclusivamente para pregação do Evangelho de Jesus, aqueles que muitos arrotam ser a única salvação, mas desdizem quando mostram que a solução está em nosso voto.

Com vergonha e tristeza encerro essas palavras inúteis aos ouvidos daqueles a quem gostaria de dizer realmente. As palavras abaixo não foram escritas por mim, elas são sagradas e mesmo assim não são ouvidas. Por que me ouviriam?

São Palavras mais sabias, do próprio Cristo:

Cuida para que ninguém vos engane; muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos. Ouvireis sobre guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é necessário que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim.

Porquanto se levantará nação contra nação, reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares. Mas todas estas coisas são o princípio de dores.

Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome. Nesse tempo muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos outros, e uns aos outros se odiarão.

E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos, e por se multiplicar a iniquidade (mau caratismo), o amor de muitos esfriará.

Mateus 24:4-12


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