10 de novembro de 2014

Evitando a fadiga com os espiritualmente superiores

dogville: mundo sem segredos
No filme Dogville, não existe cenário, e durante a apresentação, você pode ver em background as ações cotidianas dos outros personagens

por Zé Luís

Alan chega em casa arrasado: ficou sabendo que seu pastor preferido, autos de tantos livros, pregador de tantos sermões que mudaram o rumo de sua vida, salvando seu casamento, foi pego traindo a esposa com uma dos membros de sua igreja. Pior: quando a informação chegou ao conhecimento de todos, logo outras mulheres confessaram e contaram que já tinham mantido relações sexuais com o sacerdote garanhão. Alan sentia-se enganado.

Helena se perguntava: no que se tornou aquela mulher, que arrastava multidões com sua explanação sobre as Escrituras, mas agora usa sua influência em benefício próprio, manipulando as mesmas  multidões que confiam nela, a concordar com os absurdos que ela afirma, fazendo-os errar em prol de escolhas que trarão lucro.

Os exemplos não param, assim como as decepções. Pode ser com quem menos se espera: Seu cônjuge, seus pais, ou você mesmo.

Não perca isso de vista:o homem de Deus, antes de ser de Deus, é homem.

Quem Ele usa para manifestar seu poder não pode ser declarado livre de julgamento em sua conduta se ela vai contra os propósitos de quem ele diz anunciar. Por mais maravilhado que você tenha ficado com o alívio em sua alma, evite confundir o canal usado por Deus para beneficiar as pessoas com um deus menor. É o Criador que usa o vaso, e não o contrário.
Não confunda: gratidão e amor pelo canal abençoador estão liberados. Uma coisa não tem relação com outra: idolatrar é colocar um semelhante em um patamar que ele não pode estar, enquanto amar é trazê-lo para dentro de sua alma.

decepção
É sempre urgente que se compreenda que todos – sem exceção – somos falhos. Nossa raciocínio busca mostrar que parecemos estar em um imenso gráfico, onde estamos acima de uns e abaixo de outros em uma escala infinita que ninguém consegue enxergar ao certo os critérios, e acabamos por inventar os nossos padrões e méritos para entender como essa planilha imaginário funciona, fazendo dessa escala uma forma simples de enxergar como funciona a vida.

Obviamente, existem aqueles que possuem mais conhecimento e/ou intimidade com as coisas espirituais (muitas vezes, não passam de coisas religiosas ou misticismos) mas mesmo se essa superioridade espiritual for legítima, em comparação ao verdadeiro “objeto” a ser adorado, uma história pode ilustrar bem essa situação:

Meninos competiam para ver quem conseguia eu um só salto, pular mais alto e chegar mais próximo da lua com a ponta dos dedos da mão. Nesse pequeno e pobre conto, o campeão pulou inexplicáveis três metros em um impulso milagroso e sem sentido. Mesmo assim, a distância a ser percorrida até o objetivo são de 384.403.000 metros, e o seu pulo, assim como qualquer outro garoto com super poderes, não faz diferença alguma em relação ao objetivo: todos somos insuficientes em alcançar um objetivo dessa magnitude, sem ressalvas.

Ignorar essa verdade é estar marcado a decepcionar-se. Um dia inevitavelmente verá que aquele maravilhoso personagem, capaz de dizer e fazer coisas maravilhosas, que te emocionaram e mudaram o rumo de sua existência, faz no banheiro as coisas que todos produzem, e as vezes com mais efeitos sonoros do que você:
  • Aquele pastor que te decepcionou quando aderiu a políticos sórdidos,
  • Aquele padre dado a atrair-se por garotos,
  • Aquela mãe de santo que vendia por bom lucro seus trabalhos de magia, atendendo a solicitação de adoecer o desafeto de quem pagava.
  • Gente espiritual que é fofoqueira, adultera, mal pagadora, mentirosa, mercenária.
Necessariamente, eles não mentiram quando o Criador as usou. Eram bem piores antes de Deus os encontrar, e o tratamento delas - e suas falhas  - serão feitas individualmente, conforme o tempo designado debaixo do sol. 

Há sempre a tendência em esperar delas que sempre se cumpra a máxima do “Homem-Aranha”: com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades, o que está corretíssimo, mas esbarra no caso dos chamados homens - e mulheres – de Deus: ninguém sabe usar algo tão grande quanto o que essas pessoas esbarram uma ou outra vez na vida. Se eles ocultam sua incapacidade e inabilidade em lidar com isso, são seres sozinhos, usando máscaras que escondem o óbvio: eles não são eles. São "nós".

Sim: gostamos de ranquear os melhores espiritualmente entre nós e cercá-los separadamente em nossas consciências como soluções possíveis para os dias de necessidade. Essa separação seletiva dá-se o nome de “santidade”, e as Escrituras ordenam que sejamos assim, não só com um ou outro especial, mas que seja buscado sempre.

A verdade é que temos o hábito buscar a quem entregar nossa liberdade. Essa coisa de ter que aprender a escolher e discernir nos incomoda desde a árvore do conhecimento do bem e do mal, aquela do Éden. Desde o começo sabíamos que as sucessivas escolhas da vida entre certo e errado nos conduziriam a uma arapuca óbvia, na qual, pouco antes de cairmos derradeiramente nela, nos perguntaríamos como nos deixamos terminar assim. “Era só escolher a outra opção, outra direção”, pensaríamos. 

Por isso, buscarmos interpretes para a vontade de Deus, sem que haja necessidade de contato com o autor dessa vontade, sempre será algo que os descendentes de Adão procurarão. Nos incomoda estarmos nus diante de sua onisciência. 

Preferimos aqueles a quem podemos remunerar por esse serviço: os pseudo-profetas, os reveladores, cartomantes, médiuns, super-pastores, padres poderosos em conhecimento, irmãs do círculo de oração, exorcistas. Queremos crer que isso será suficiente apesar do vazio que volta a nos judiar quando a emoção passou e aquelas palavras já não nos fazem chorar como no começo. 

Como dica, procure se informar sobre certo profeta mercenário de Deus, usado pelos antigos reis para que dissessem coisas contra os inimigos de seus reinos(e elas acontecessem), até que um dia foi convidado a profetizar contra o povo Dele em pessoa.

Balaão – o nome do profeta – estava tão surdo pelo desejo em ser pago que não percebeu que Deus o amaldiçoara. No caminho, a mula em que estava montado, diante da surda teimosia, falou milagrosamente com ele sobre o risco que corria.

Se o jumento falou milagrosamente ao profeta, devemos acender uma vela a ele, como alguma espécie de padroeiro? Ou idolatrar os jegues porque falam o que o Senhor manda? Fazer romarias pelas falas acertadas do animal por ter salvado a vida de seu dono?

Lutero costumava dizer que Deus usara uma mula e estava usando outra naquele púlpito que ele pregava. Eu me incluo nesse relincho às vezes, assim como aquele bêbado, ou o trecho cantado numa rádio qualquer,ou um pedaço de texto lido distraidamente. É assim quando o Criador deseja. Sem méritos ou manchetes.Como um pai que deixa pistas pela casa para o filho orgulhoso que pensa não precisar de ajuda.

É apenas Ele acontecendo, sem alardes.