19 de dezembro de 2014

Os 4 sofrimentos bíblicos

sofrimento
Se Deus é bom, tudo sabe e tudo pode, tem ciência do mal e tem poder para impedir o sofrimento. Se não o faz, caímos em um paradoxo: Se Deus é bom, mas impede o mal não, não tem poder suficiente para isso. Se for onipotente para frear a maldade, mas não o faz, é porque não é bom. Paradoxo de Epícuro
C.S.Lewis escreveu duas obras a respeito disso:“O Problema do Sofrimento” e “Anatomia de uma dor”. Esse segundo fala da dor crua do próprio autor, que perdeu o amor de sua vida para o câncer, e onde abandonou o tom teórico do primeiro livro para banhar-se na ferida em carne viva de saber que existe um Deus e Ele não fez “nada” quando a isso, quando podia.

Falar de sofrimento é fácil. Para quem não sofre é, e desinteressante. 

Vivemos em um mundo que quer ser feliz. A qualquer custo.Não podemos nos sentir chateados, com ou sem motivos, sem que nos receitem aquele comprimido milagroso que trará seu bem estar e paz de volta.

Mesmo assim. apesar dos recursos da tecnologia, sofremos. Todos nós, pobres, ricos, mulheres, crianças, idosos, africano ou europeu, héteros, homos, todos , sem exceção, sofrem. Não há dinheiro ou desenvolvimento social que nos livre disso.

E quanto a isso, culpamos Deus (para os que ainda creem em sua existência) e sua aparente indiferença a nossa dor. Epicuro, autor do pensamento acima citado, não era ateu. Ele só não acreditava que Deus teria realmente nosso mundo como prioridade.

Se formos analisar o sofrimento pelo olhar cristão, veremos quatro formas claras de dor, e não me envergonho de admitir que serei raso nos tópicos. Sigamos a pequena lista.

1- As consequências dos nossos atos se voltando contra nós:

O que os orientais chamam de Karma é o retorno pelo mal propagado. A famosa Lei do retorno dos espíritas, ou o “aqui se planta aqui se colhe”.

A verdade é que nem sempre se colhe o que se planta. Não só na bíblia podemos ver pessoas morrendo sem “pagar” pelo sofrimento que impuseram aos outros, assim como nem toda colheita vinga. Percebemos que o uso contínuo de cachaça causa cirrose em muita gente (mas não em todas), sabemos de casos de fumantes que passaram do século de vida, mas esses são excessão a regra. Vemos homens e mulheres se safarem em seus adultérios e mentiras.

Apesar disso, uma imensa parcela dos acidentes é causada por imprudência de uma das partes, embora uma proporção maior ainda não deseje as consequências.

As igrejas evangélicas – assim como os facilitadores neuro-linguisticos – ensinam que nada pode dar errado com o pensamento certo, mesmo que seus atos estejam errados. A vaga para o emprego de piloto de avião será sua, mesmo que esteja concorrendo com gente muito mais qualificada e você não ter a menor ideia do que é pilotar, apesar de ter orado a respeito disso. Não se planta em esforço ou estudo, e se quer colher frutos bem maiores do que aquele que passou anos com a cara nos livros, decorando cada palavra chata e terminologia incompreensível. Muitos cristãos querem o “bom” se o esforço dos que se empenham, crentes ou não, esquecendo que isso não parece muito com “justiça”.

2- O sofrimento sem razão de ser.

Não. Deus não precisa de sua morte para que seu filho seja mais homem do que é, nem precisa do sofrimento prematuro de uma criança enferma para aplicar-lhe uma lição. Nesse ponto reside a falha na crença kármica.

A dor, muitas vezes, nos faz prometer coisas a Deus, mas poucos meses se passarão até que voltemos a ser quem somos realmente. Por tanto, nem sempre ela é método do céu. Sabemos, é claro, que o que fortalece a musculatura são as dores dos exercícios. Mas nem tudo tem essa função.

Nem tudo que acontece tem razão de ser, embora haja quem defenda o versículo bíblico (que não está na bíblia) que nem uma folha cai sem que Deus assim o decrete. O mundo tem essa tendência a apodrecer tudo e isso não é de agora. As coisas murcham, o tempo passa, estruturas se desgastam, chinelos perdem aderência, pessoas perdem equilíbrio, cérebros perdem raciocínios, freios falham cedo ou tarde. Não existe hora para quebrar ossos ou dentes, e nem sempre aquele é mais culpado que esse por que isso aconteceu.

“A chuva cai no bom e no mau”, sem distinguir quem presta mais ou menos.

Claro: existem propósitos. Mas existe apenas dor, aleatória e revoltante.

3- O autossofrimento por escolha.

Pessoas escolhem sofrer? Algumas.

Elas mantêm convicções irredutíveis diante de ameaças, já que creem ter encontrado uma causa que valha a pena. Muitos sofrem por ideais políticos, outros em nome da religião se explodem. Por amor, poetas minguam em vida por suas musas.

Os que padecem por amor legítimo a Deus sofrem e morrem sem a sofreguidão dos poetas. Jesus certa vez apontou isso nos homens que se impunham jejuns, um tipo de sofrimento, mas se mostravam abatidos aos que os rodeavam, classificando os sacrifícios como “inválidos”. Isso porque as dores em nome do Criador nos aproximam Dele, e tal efeito deveria ser prazeroso. Se há necessidade de ser reconhecido por alguém como buscador de Deus que não seja Ele mesmo, isso invalida a genuinidade da procura. Torna-se apenas dor consequente da falta de alimentação.

Muitos cristãos de nossa triste atualidade classificam a dor como algo de quem não crê, coisa de derrotado. Estranhamente, a bíblia que leem fala de Paulo em carne viva por tantas surras e pedradas que levou em nome do Evangelho. Thiago decapitado, Estevão lapidado, cristãos aos montes entregues aos leões para divertimento da sociedade. Ainda hoje, em muitos países, pessoas morrem por portarem bíblias ou confessarem Cristo.

Nosso anátema do “sempre bem como sinal de bem com Deus” acaba nos fazendo deduzir que os que morreram e morrem em nome de Jesus são menos crentes que nós.

4- A dor em nome do outro

Sacrificar-se. O que suporta a tortura em silêncio... Por outros. Os que gritam em desespero nos porões sobre torturas por um país melhor, ou por defender causas que vão contra aqueles outros humanos que momentaneamente comandam seus nichos.

Gostaria aqui de dizer que apenas o cristão que sofre as penas por causa de sua fé. Mas estaria mentindo. Cristãos devem evitar constantemente a mentira. Admito que não só os que intercedem pelo outro e sofrem as dores de Cristo desse processo são os sofredores.

Nem sempre os torturados são pelo nome de Cristo. Na História, há torturadores em seu nome também saiba que Ele não estava nesse negócio. Eram homens machucando homens sem que o Mestre estivesse ali apoiando o agressor.

Sim: suportamos a dor de outro por amor. Isso nos move. Enfrentamos a dor por amor e morremos aos poucos quando não temos uma causa pela qual morreríamos.

Defendo que muito dos suicidas chegam a esse extremo por absoluta de Ágape: a falta do tipo de amor que os faria morrer por uma causa, e não por falta dela.

Por isso, cristãos creem que seu Mestre é o amor supremo, já que morre pela causa de quem não merece. Se entrega podendo destruir seus torturadores. Os próprios torturadores e assassinos constavam na lista daqueles que desejava salvar em seu auto sacrifício.

Crendo ser ele Deus, nem Ele escapou das dores desse mundo.

Por Zé Luis Jr.