25 de fevereiro de 2015

Não nos falta ler a Bíblia - sobre analfabetos funcionais


Aconteceu em 2014, durante uma reunião de pastores de uma grande região de São Paulo. Eu estava lá, acompanhando um conhecido. Era tempo de eleição e os obreiros foram convocados para receber diretrizes sobre em quem votar naquela eleição. Apenas mais uma reunião de rotina, normal naquele período político.

Por ser uma denominação contada entre as pentecostais, houve uma pregação-comício do pastor-candidato, onde ele encaixava versículos bíblicos no discurso, buscando comprovar a necessidade do ingresso dos crentes na política. No discurso, ele falou sobre a queda de Satanás e como era belo antes da queda.
- Aleluia! - gritou uma pastora, seguido por mais brados de "Gloria a Deus" dos pastores presentes.

Nesse momento, esbugalhei os olhos, sem entender: Alguns daqueles líderes de comunidades evangélicas estavam glorificando a Satanás? Dando glorias à beleza de Lúcifer?

Na verdade, eram homens e mulheres de fé sincera: só não conseguiam compreender o que o candidato-pastor estava falando. Caso compreendessem, ao menos o contexto para o que foram convocados para aquele "culto-comício", muitos nem apareceriam.

Segundos O IBGE, o número de brasileiros analfabetos segue em queda no Brasil. Já eram menos de 9% em 2012. Dentro da mesma pesquisa,  os chamados analfabetos funcionais, os que leem e escrevem mas não conseguem compreender o significado do que fazem, ainda atinge quase um quinto da população.

O problema desse dado, o número de analfabetos funcionais contados, é a forma no qual ele é medido, já que não há uma avaliação pedagógica, mas é definido através da escolaridade que o individuo - não - teve, que seria ter estudado por no máximo quatro anos. Problema porque, na verdade, esse número é muito maior, Alguns especialistas falam em percentuais que se aproximam dos 80% de brasileiros.

Muitos diretores e executivos de diversas empresas revelam a dificuldade com muitos dos seus gerentes, já que estes tem certa incapacidade em interpretar simples frases e compreender comandos diretos enviados em textos para suas caixas de mensagens eletrônicas. Falo aqui de pessoas com formação superiora e cursos de pós-graduação.

Transferindo o assunto para as igrejas, caso esse número estiver certo - mesmo que aproximado, pense no imenso prejuízo que temos hoje temos já instaurado.

Sinto isso na pele quando recebo críticas aqui ao usar palavras mais "complexas"em meus textos. Não são complexas: apenas não muito usuais no restrito linguajar dos que não se dão luxo de ler. E a coisa não se restringe apenas a leitura: um título mais chamativo seguido de um vídeo e já lançam comentários absurdos, hora protestando, outras afirmando ser uma "benção", e até com xingamentos, sobre o conteúdo do vídeo que nem assistem, e quando o fazem, não compreendem.

Esses analfabetos funcionais parecem ter assumido a direção de algumas escolas teológicas e púlpitos em diversas denominações de uns tempo para cá. Gente sem a mínima capacidade de ler ou ouvir algo sem tirar conclusões absurdas, incapazes de concatenar ideias, de entender o timing da piada (ou mesmo que era uma piada). E eles ensinaram que assim era o certo.

Creio que realmente o deus (perceba: letra mínuscula) desse século cegou o entendimento de muitos. O povo Dele, que perece por falta de entendimento, sofre com a fonte de sua salvação sendo lida em suas mãos. Jesus, que ensinava por parabolas, explicou o motivo disso aos seus discípulos:
E ele disse-lhes: A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas,
Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados. Marcos 4:11-1
A coisa não é nova. Não é de hoje que não se consegue compreender as parábolas de Cristo. Mas hoje o que não compreendeu virou professor e ensina o que não entendeu ao seu díscipulo, que sem compreender o que significava "A", passou a repetir apenas a metade que compreendeu de "B", e agora, que montaram uma denominação dos seguidores de "C", falam e escrevem bobagens em redes sociais.

Façamos assim, se você achou que tudo isso é um exagero:
A oração de Cristo é para que nós sejamos um.

Paulo ordena que não se fala em línguas estranhas se não houver quem interprete.

Jesus disse que seus discípulos seriam conhecidos pelo Amor.

O Mestre afirmou que não podemos servir dois senhores: ou aceitamos Jeová ou Mamom.
Essas são uma minuscula parcela de versículos que exemplificam bem se hoje a tal nação evangélica brasileira é - ou não é - uma nação.

Segundo Edmeia William, ser nação não é ser reino, já que nação é delimitado por divisas geográficas, enquanto reino, é possuir a mesma ideologia, não sendo restrito as limitações de Estado ou país.

Sendo assim, se você compreendeu o que foi aqui descrito, é possível que possamos ter uma nação cristã, mas longe de sermos um reino onde Cristo governa. Basta ver o que cada um pensa sobre os poucos versículos postados.

Por Zé Luís Jr.