12 de fevereiro de 2015

Deus no sorriso dos meus filhos


Nós, homens ocupados do atual tempo, não somos dados a perdê-lo por qualquer coisa que possa nos tirar o lucro.

O professor Ricardo Bitum conta que o sucesso das grandes igrejas neo-pentecostais nas metrópoles (e o fracasso em cidades mais interioranas) se dá ao formato em que eles oferecem seus cultos: diversos dias da semana, diversos cultos ao dia. Eles oferecem uma solução para o problema das nossas agendas, resposta para dar algum espaço para falar um pouco com Deus, informal como nosso cotidiano.

Na empresa onde trabalhei (a matriz de mais de mil filiais e onde trabalhavam mais de 3000 colaboradores só nessa unidade) diversas pequenas igrejas se espalhavam em volta do complexo e ofereciam cultos entre as 11:00 e 14:00 horas, para aqueles que quisessem usar parte de seu tempo do almoço na busca de sua espiritualidade. Devo ressaltar que os cultos ainda hoje são cheios.

Nós, seres humanos contemporâneos e metropolitanos, vivemos egocentricamente pela agenda.

Mas confesso: um dia, pequei contra o Mercado. Eu e minha esposa decidimos matar o dia de serviço para fazer algo que nada tinha haver com o cotidiano, ou com o tipo de pessoa que nos comprometemos a ser.

Meu caçula, ainda no que chamavam  de pré-escola, tinha uma apresentação para fazer com seus amiguinho de classe, e implorou para que fossemos. E nós fomos. Era uma apresentação para os pais. Nada mais justo.

A apresentação era toda desengonçada, a coreografia torta e confusa. As crianças se divertiam com seus erros e as professoras pacientes apontavam para os que erravam e os ajudavam a desempenhar seu papel da melhor maneira possível.

Pais orgulhosos filmavam seus pequenos, e alguns chegavam as lágrimas diante do sorriso de seus filhos. Eu era um desses abestalhados que, emocionado, aplaudia o caçula diante de sua performance.

Lógico que já tinha visto centenas de apresentações melhores, mais profissionais. Sou músico: eu mesmo já havia sido aplaudido por ter desempenhado bem meu papel no instrumento. O detalhe estava na recepção de seus olhos de meu filhinho.

Quando chegamos, ele estava com os ombros arqueados, olhar triste perdido no chão. Sabia que eramos um casal ocupado com o sustento de nossa casa, mas queria muito ter os pais ali, como todos os amiguinho teriam. Quando nos viu, já no palco, um lindo sorriso semi-desdentado brotou e ele cantou e dançou como estivesse sozinho naquele pequeno palanque. Essa felicidade ficou guardada em mim, mesmo anos depois quando ele se tornou um barbado tagarela, e me fez pensar quantos sorrisos desse eu tinha dispensado em nome de minha agenda.

Outro detalhe naquele turbilhão emocional surgiu. Além da culpa por ter passado tanto tempo sem valorizar o que realmente fica na vida, algo espiritual brotou, como é próprio dessas coisas.

Nós temos o hábito estranho de cantar, dançar, orar, fazer algum tipo de homenagem a Deus, como se estivéssemos executando uma bonita sinfonia, quando o violão nem afinado está, quando cantamos fora do tom, quando nosso jeito desengonçado não consegue expressar um passo de coreografia sem nos deixar ridículos.

Creio que o que Deus espera em nossa apresentação infantil e desengonçada não é a perfeição impossível em nossas performances, mas a alegria de criança, aquela felicidade voluntária que os filhos tem ao imaginar que seus pais estão ali, presentes em sua celebração para Ele.

O Criador  olha para os garranchos que fazemos em papel amassado e com a coordenação motora ruim, típica de jovens humanos com menos de um século de vida, e vê o esforço de um filho que ama e tenta agradar o Pai. E isso o alegra.

Mas também há o garoto que faz sua apresentação por fazer, o que faz por obrigação. Aquele esforçado que segue sua cartilha e  que não falta na escola. Ele possui um traço melhor, nos passinhos da dança ele é quase máquina, no canto ele não desafina. Já sabe que é casinha e árvore que tem que desenhar em crayon. Ele mostra o desenho e espera o benefício obrigatório de Natal, pois fez o que tinha que fazer, mesmo sem se importar com o que o Pai pensa.

São motivações diferentes. Julgue você qual mais agrada ao Pai.