16 de março de 2015

Não assisto novela. Talvez por ter saído do Matrix.



Durante um sermão, o então pregador citou um nome, exemplificando um comportamento típico de um personagem bíblico relacionado a esse.

É comum sentir-me um total desinformado quando alguém comenta fontes no estilo "Ivan Karamazov, personagem autor de 'O Grande Inquisidor' de Dostoiévski", me obrigando a ler um livro como "Os Irmãos Karamazov" só para não ficar por fora.

Mas quem era aquele personagem citado? Minha esposa do lado também não sabia. Mas ela não é de se aventurar em livros como eu. Vi ali uma possibilidade de encontrar, quem sabe, algo para minha edificação.

Acabou o culto, e fui até o pregador. Decepção ao saber a quem ele se referia. E espanto do pregador: era um vilão simpático de uma novela do momento.

- Sério que você não conhece? - disse ele, espantado.
- Sério que você assiste novelas? - respondi.
As novelas globais são a mais populares. Entra ano e passa ano, os mesmo atores se revezam entre vilões e mocinhos, mantendo um enredo habitualmente manjado: casais onde um dos cônjuges sempre será um vilão, o que justificará o adultério da parte boazinha com outro bonzinho da história, e todos baterão palmas para a traição, torcerão por isso. A velha fórmula de nudez, sexo entre os atores e beijos gays aumentam a polêmica, e as redes sociais, horrorizadas ou não, apontam para os próximos capítulos, onde coisas piores podem acontecer. Assim, mais publicidade é vendida. Mais interesse é gerado e a audiência ganha pontos e muito dinheiro.

Existem exércitos de perfis falsos fazendo comentários nas redes sociais, tentando gerar aquela típica curiosidade, citando nomes e comportamentos.

Nas novelas, ninguém tem mau-halito pela manhã, acordam maquiados e penteados Nem tão pouco dentes tortos: todos impecáveis, sem obturações ou restos de comida se vê quando sorriem, mesmo quando comem. Mesmo no que eles chamam "núcleo pobre" da história, normalmente favelas onde negras e brancas andam de shorts o tempo todo, e o samba nunca para, tudo rola cheiroso, liso, com o corpo possível de quem sempre tem tempo e grana para fazer academia.

Crentes de novela da globo andam com aquele figurino manjado - até onde me lembro (mudou?): os crentes são habitualmente esquisitos, até bizarros, e seu comportamento sempre destoa de forma caricata entre os principais personagens. Meninas crentes também aparecem como hipócritas: todas evangélicas usam adereços e cabelos no estilo "old penteca", mas em sua vida secreta, fora da igreja, são promiscuas, sedutoras, ninfomaníacas. Não me recordo de uma novela com uma personagem sem trejeitos religiosos que seguisse a fé cristã sem religiosidades. Alguém que tivesse uma bíblia em sua bolsa - ou pasta - e vivesse como um ser humano comum.

Essa visão do "crente de novela" era o que me ajudava a compor minha opinião sobre os evangélicos antes da minha conversão. Todas as igrejas eram assim, na minha concepção. Todos eram servos e sustentandores de Edir Macedo, todos tolos seguindo pastores iracundos, que cuspiam na tela quando gritavam, enquanto sacudiam o dedo em riste contra as outras religiões e credos.

Novela também me vendia seus badulaques: se os mocinhos comiam algo, eu também queria. Se eles bebiam determinada marca de refrigerante ou cerveja, era essa bebida que eu pediria quando fosse a uma lanchonete. Suas roupas ficariam bem em mim, e suas opiniões sobre a situação politica e social eram meu referencial.

Como desconfiar que por trás das falas tinha um grupo pago, trabalhando para me inserir ideias? Isso é muito difícil de entender - não é ironia - quando se cresce com esse aparelhinho esparramando informações na minha cabeça enquanto estiver ligado, não respeitando nenhum horário ou momento familiar.

Como eu pensaria que tudo que eles colocam para "entretenimento" era para me fazer consumir produtos, ideias, pensamentos? Não dá para acreditar que a coisa é tão sórdida assim. Não apenas os produtos das Casas Bahia ou o novo celular com melhorias tecnológicas, mas até os alertas do noticiário estavam cuidadosamente escolhidos, para que eu soubesse ou ignorasse determinada informação. Ele me ensinavam o que deveria me irritar ou o que era perdoável.

Recentemente, certo pastor em um culto de domingo, pediu para que a igreja se assentasse e estivesse atentos ao vídeo que ele apresentaria antes do sermão. Era a Globeleza seminua rebolando para que todos ali ouvissem e vissem, depois as Panicats. Protestos irados surgiram, pessoas se levantaram para sair diante da blasfêmia. Foi quando ele disse ao microfone:

 "Na igreja isso te agride, mas para sua família na sala da sua casa, tudo bem?" 

Ao ser liberto por Jesus ,despertei e me perguntei se a igreja anda apresentando mesmo a Verdade: se "conhecereis a Verdade e ela te libertará" - palavras de Jesus - estava realmente funcionando.

Pilula vermelha ou azulMuitos, ao assistirem Matrix, não conseguem entender o que está sendo mostrado ali. Acham difícil, algo incompreensível. Não percebem que o personagem central, Neo (Keanu Reeves) começa a enxergar algo estranho a sua volta, o que o torna uma ameaça, uma anomalia para tudo que está cuidadosamente montado. 

Até que ele acorda da sua vida e percebe que tudo a sua volta, na verdade, nunca existiu. Tudo era virtual, irreal, cuidadosamente montado para que permanecesse da mesma forma. A gaiola de ouro confortável e de portas - por hora - sem trancas.

No filme, o medo do policiamento do Matrix é que alguém continuo despertando da mentira. E não é ficção. O tal pregador aquela noite mostrou sua conexão com uma máquina que gera o que bem quer.

Quando me tornei seguidor de Cristo, haviam denominações com doutrinas mais rígidas - como algumas "Assembleias de Deus" e "Deus é Amor" - que proibiam a seus membros o consumo de programações de TV: "era o diabo!". Na época, achei exagero. Hoje, já começo achar que aqueles tais "bitolados" tinham toda razão.