21 de março de 2015

Não há sexo no paraíso

sem sexo no céu

Uma das curiosidades que nos assalta quando nossa fé permite imaginar como seria a outra vida está na relação ao sexo em relação ao céu. Alguém – que se julgue menos interessado na questão, ou que se declare isento dessas humanidades – pode afirmar que o isso é uma questão tola, e não merece ser meditada, já que a vida no Senhor está acima dessas mundanices, e que isso não atinge um crente no nível dele.

Pode ser que sim: Jesus fala que alguns nascem eunucos, outros são feitos pelos homens, outros ainda se fazem assim em nome do Reino. Mas existem os que não são eunucos. Vale lembrar (Matheus 19.12).

Sinto informa-lhe que a necessidade do sexo anda de mãos dadas com pessoas saudáveis (física e emocionalmente) e que a questão é tão pertinente que existem religiões que prometem recompensas sexuais pós-morte. Ou nunca ouviu falar das quarenta virgens esperando os fiéis que se explodem nas causas de sua crença?

As virgens aguardando os fiéis ao islamO Espiritismo, por exemplo, defende a perpetuação da vida carnal através de ciclos reencarnatórios. 

Seguindo a lógica dos ciclos de 144 anos*, parte da existência de uma identidade é vivida aqui e o restante é completo “do outro lado”, até que venha o momento de voltar para Terra (com 144 anos), dando continuidade ao novo ciclo carnal, que nos propiciará continuamente evolução pelos tempos. Claro: passar por tudo de novo, incluindo os prazeres e pavores. Apaixonar-se mas experimentar a morte novamente.

A Bíblia, ao contrário do que reza a cartilha espírita, informa que ao homem é dado morrer uma só vez, assim como Jesus – diante do questionamento saduceu sobre com quem ficaria a única mulher viúva de sete irmãos no dia da ressurreição - responde que no céu seriamos como os anjos, que não se casam e nem se dão em casamento (Lucas 20.35-36). Ou seja: sem sexo, contrariando a crença muçulmana em dar continuidade ao machismo, desvirginando dezenas após matar centenas de vidas aqui.

Confesso que a compreensão dessa parte do Evangelho me soou bem desinteressante

Depois de vivermos tantos conflitos sexuais impostos pelos tabus religiosos cristãos, onde cada um usa seu entendimento para dizer ao outro o que pode e o que não pode, seguimos para uma existência onde seremos eternamente castrados, desprovidos de libido, onde os prazeres da existência – segundo os que se esclarece nas igrejas – resume-se em ouvir alguém falar sobre as regras de Deus em um livro – normalmente dentro de um conceito pessoal, cantar musiquinhas e outras tantas coisas cotidianas nas comunidades cristãs. Isso para alguém deve parecer extremamente agradável. Pelo menos, é o que os líderes evangélicos demonstram, mas minha sinceridade, ao pensar nisso acontecendo infinitamente, sem começo nem fim, num dia perpétuo, posso afirmar – hereticamente - que não me causa grande atrativo.

Sei que muitas vezes evitamos o assunto, ignorando que certos pensamentos – até então – inofensivos tomarão proporção e força, a ponto de olharmos para o esforço em nossa lapidação humana diária, parecer uma imensa perda de tempo, tornando-nos céticos e/ou cínicos.

Um texto muito interessante sobre esta questão sexual na eternidade é uma comparação que C.S.Lewis faz entre chocolate e o prazer proporcionado pelo sexo.

No seriado Chaves, o grande prazer do personagem central é poder comer um sanduíche de mortadela. Isso nos dá uma boa base para entender os contrastes sobre os prazeres da vida citados por Lewis.

Pergunte a uma criança o que lhe proporciona mais prazer, e sua resposta será algo que girará em torno dos prazeres trazidos pelo paladar, como um gostoso chocolate. O adulto que ouve isso sabe muito bem que esta é jovem demais para entender o quanto a sexualidade superará esse prazer infantil.

Também não devemos desperdiçar nosso tempo tentando explicar ao pequeno garoto sobre sexualidade, já que ele vive o momento onde o simples e - até aquele momento – compreensível prazer trazido por guloseimas açucaradas é tudo que a vida pode proporcionar de bom. Falar sobre as alegrias vividas na intimidade pode – inclusive – causar repulsa e danos quando o momento da maturidade chegar à vida dessa pessoa.

Na mesma linha de raciocínio, nos parece desinteressante um mundo onde a prática sexual não existe. Um mundo sem a necessidade de prazer proporcionado pela intimidade não nos traz grandes atrativos. Faz parecer um lugar cheio de jovens anjos efeminados e andróginos, pulando de nuvem em nuvem pelos mundos sem fim.

O historiador Leandro Karnal brinca com o pecado da Luxúria, dizendo que o tempo traz a todos a melhor solução para lidar com ele: a idade nos faz falhar e desistir do sexo gradativamente, nos tornando obrigatoriamente virtuosos. Para isso, a Ciência inventa suas soluções químicas, como o Viagra e equivalentes.

Concordo com Lewis em sua analogia e compreendo o aparente desinteresse em explanar o assunto quando Jesus fala aos saduceus. 

Creio que esperava que deduzíssemos essa lógica: por mais que os habitantes de lá se esforcem para nos explicar como é o prazer da próxima existência (ou o total ausência dele, no caso de não alcançarmos a misericórdia) seria tão sem sentido para nós como fazer entender o prazer proporcionado pelo sexo para a criança que se realiza naturalmente com doces e brinquedos. Não é só uma questão de estar pronto para entender. É ter estrutura para poder receber isso em seu corpo.

Antes de encerrar essa reflexão, tal pensamento também nos alivia diante da reprovação no juízo: uma criança que se lambuza em seu chocolate pode se sentir culpada, mas você não consegue imaginar Deus reprovando-a por ser apaixonada por deliciosos bombons trufados, consegue? Consegue visualizar o anjo olhando para a barriga espiritual do menino e mandando-o ao inferno por ter extrapolado em sua gula por doces?

Para bom entendedor...

*O ciclo de 144 anos é uma sugestão dada por ordens como a AMORC.