11 de março de 2015

UM POVO QUE GOSTA QUE LHE DIGA QUEM ODIAR

Nota do editor: 
O texto é de Gore Vidal, escrito em Literary Gangsters em 1970. Foi visto no Bacia das Almas  e, embora tenha quase meio século de existência, é fórmula usada sem moderação por muito sites e fanpages - ditas - defensoras de heresias, contra corrupção e tantos outros portais que apelam à truculência para conseguir seu espaço na audiência (e audiência, você sabe, é controle de pensamento de massas). Amargamente atual:


O problema inicial do gângster literário é profundo: como ser notado? Como encontrar um lugar ao sol? Tendo sido por um quarto de século observador deste cenário, com um interesse par­ti­cu­lar em crimes literários – para usar a celebrada frase da New York Times Review, – eu sugeriria ao aprendiz de criminoso que escreva o seguinte na tampa de sua máquina de escrever: o leitor dos nossos dias está interessado não em análise, mas em opinião, pre­fe­ri­vel­mente hostil e inesperada.

Alguns anos atrás um delito clássico começou com a decla­ra­ção de que embora Bernard Shaw seja um péssimo dra­ma­turgo, algumas páginas de sua crítica musical não são ausentes de mérito. Isso causou interesse. Foi também um golpe for­mi­dá­vel, porque não se fez nenhuma tentativa de demonstrar a posição. Uma opinião foi formulada em voz alta, e a evidência em contrário foi ignorada.

Do mesmo modo, o aprendiz de gângster literário deve sentir-se livre para inventar fontes e citações, com base no fato de que os leitores das revistas mais inte­lec­tu­ais sabem pouco sobre tudo, par­ti­cu­larmente sobre o passado.

Desnecessário dizer que quanto mais violento e ad hominem for o estilo, mais agra­de­ci­dos os seus leitores serão. O nosso é um povo que gosta que lhe diga quem odiar.

Final­mente, o gângster literário não tem como errar quando, embora aparente sustentar os mais elevados critérios de jul­ga­mento, ataca indis­cri­mi­na­da­mente os artistas do momento, ataca o que é popular com base no pressuposto de que o que dá prazer a muitos é sinal de corrupção e ataca o que é muito admirado com base no pres­su­posto de que visto que todos os valores da sociedade são falsos (por razões óbvias não proponha valores alter­na­ti­vos), todo herói cultural deve refletir neces­sa­ri­a­mente a insen­sa­tez dos que o adoram.

Não convém louvar qualquer pessoa viva; infe­liz­mente, de vez em quando pode ser neces­sá­rio parecer apreciar alguma coisa feita por alguém do nosso tempo, e nesse caso escolha um autor estran­geiro tipo Borges; ele é velho, admirado no exterior e suas obras são curtas o bastante para serem efe­ti­va­mente lidas. Daqui a alguns anos ele poderá sempre ser des­car­tado como herói cultural dos “insen­sa­tos anos sessenta”.

Lembre que hoje em dia a rota­ti­vi­dade das reputações literárias acompanha a velo­ci­dade da moda feminina. Portanto não pare: se você oca­si­o­nal­mente con­tra­dis­ser a si mesmo, ninguém vai perceber porque ninguém está prestando atenção.

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